Wednesday, 20 September 2017

O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina

Fez há pouco quarenta anos que foi ordenada a demolição do Passo da Mourariaescreve Norberto de Araújo num artigo publicado no boletim do Grupo "Amigos de Lisboa" — um dos da procissão do Senhor dos Passos, da Graça. 


Serve de pretexto a estas notas, que nenhuma novidade conterão, uma fotografia que possuímos, e na qual o «passo» se vê tal qual era no final do século passado {séc. XIX]. A estampa é inédita, e deve-se, segundo cremos, a Alberto de Oliveira, um dos fundadores do «Grupo do Leão» (1887), senão o seu principal organizador, e que cultivava as curiosidades e os tipos de Lisboa, interessando-se por assuntos de arte ligados aos progressos gráficos. Alberto de Oliveira, que figura na famosa tela de Columbano, de cujos pares hoje não resta um só, foi daquela gente da boémia do talento e do espírito o primeiro a desaparecer da vida. Já não viu demolir o velho «Passo da Mouraria», cuja fotografia teria feito há cerca de sessenta anos [c. 1887]. O pormenor não interessa demasiadamente; pela leitura do título de uma peça que se representava ao tempo no Teatro do Príncipe Real [A Filha do Snr. Chrispim] [1], e que se pode ler num cartaz que a fotografia reproduz, apurar-se-ia o ano que corresponde ao cenário.
Ao «Passo da Mouraria» está ligada a história do sítio da Saúde ou da Guia. Na conhecida gravura — e belo documento — do «Arquivo Pitoresco», volume V, pág. 377 [vd. 2ª imagem], aparecem em desenho o «Passo», o recanto do Alegrete, o Arco, rasgado num prédio dos Taroucas, o resto de um ângulo da muralha de D. Fernando, e a lápide de mármore, com inscrição em caracteres góticos maiúsculos, que atesta a construção (1373-1375) da muralha fernandina.
Na fotografia à qual nos reportamos não aparece o recanto [vd. 1ª imagem], mas distintamente se vê a lápide, aposta no lanço da muralha contigua ao «Passo», ao lado superior de uma porta que tinha o n.º 12 [da Rua da Mouraria].

O «Passo da Mouraria» e a lápide da Cerca de D. Fernando (dir.) [c. 1887?]
Rua da Mouraria; à esquerda vislumbra-se a fachada lateral da Ermida de Nossa Senhora da Saúde
Alberto de Oliveira, in AML

1907 foi o ano da condenação do «Passo da Mouraria» que, em reconstrução, datava de 1780; o Terramoto destruíra o primitivo, que vinha de 1698-1702, e era sensivelmente da mesma idade do palácio do Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas. Este palácio, dito dos Marqueses do Alegrete, cujo título passou para o arco e para a rua, foi demolido neste ano corrente de 1947, sem que houvesse razão para o prantear.
Duas das relíquias do pequenino sítio desapareceram, pois, quarenta anos uma atrás da outra. Está de pé apenas o Arco, teimosamente a recordar a Porta de S. Vicente da Mouraria, que leva 574 anos de Porta, e 273 de Arco, pois foi transformada em 1674, para facilitar o trânsito dos coches.
A lápide relativa à construção da cerca de D. Fernando passou, depois de 1908, quando foi construído o grande prédio n.º 8 a 16, à esquina das Escadinhas do Marquês de Ponte de Lima Escadinhas da Saúde, para a fachada desse prédio, onde ainda se encontra. E' venerando documento da Lisboa do Rei Formoso, talvez o único de vulto, assim como o Arco, tão escarnecido e desrespeitado na sua memória, é a última das portas de Lisboa da Cerca do século XIV.

Rua da Mouraria, Arco e Palácio do Alegrete em 1862
À esquerda, na parede ao lado do  «Passo da Mouraria» vê-se a lápide comemorativa da construção da Cerca de D. Fernando
Gravura de madeira: desenho de Barbosa Lima e gravura de Coelho Júnior e Pedroso
in Arquivo Pitoresco

O «Passo da Mouraria» desapareceu em 1907-1908, como dissemos. A Câmara ofereceu à Irmandade do Senhor dos Passos da Graça, à qual o «Passo» pertencia, uma indemnização de quinhentos mil réis, que a irmandade aceitou. Dos cinco «passos» de rua da procissão dos Passos da Graça subsistem hoje apenas dois: o da «Verónica», no Largo do Terreirinho n.º 119 do começo da Calçada de Santo André, que data de 1765, e substituíra um que existiu antes na Rua do Boi Formoso [Benformoso] (1673-1675), como este substituíra um ao cimo da Rua dos Cavaleiros; e o de «Santo André», místico com o desaparecido Arco de Santo André, ampliado em 1608-1702, sito no começo da Costa do Castelo, porta n.º 106.
O famoso «Passo» do Rossio, que datava de 1700, fôra apeado em 1759, e reedificado em 1782 em terrenos da Casa dos Duques de Cadaval, novamente demolido em 18319 por ordem da Câmara, que, por sentença, teve que reedificar logo em 1841, sendo inaugurado em 1843. Pouco depois construiu-se o grande prédio Cadaval que esquina para o actual Largo de D. João da Câmara, anteriormente «Pátio do Duque». E o «passo» ficou nele encravado até 1913, ano em que a Casa Cadaval logrou por sentença, que a irmandade o entregasse, para demolição. É hoje [em 1947] «O Passo», pequena leitaria tipo Rossio.
O «Passo de S. Roque» estava embebido na face da Torre de Álvaro Pais, que se situava, como é sabido, no Largo de S. Roque [actual Trindade Coelho]; o Terramoto destruiu-o e foi reedificado em 1780-1781, até 1827, ano em que a Câmara regularizou o largo para a abertura da Rua Nova da Trindade.
A arquitectura exterior destes «passos» era sensivelmente igual: portada de volta perfeita sobre cuja cornija assenta o frontão, constituindo duas volutas a envolver um medalhão central, coroado por uma cruz simples. Estas evocações (apoiadas no estudo histórico do ilustre Padre Ernesto Sales) servem apenas de ilustração ao insignificante mas curioso documento que é a fotografia do «Passo da Mouraria». Falta somente assinalar que a história de três dos «Passos» referidos está ligada por situação à Cerca de D. Fernando: os de S. Roque, da Mouraria e de Santo André.¹

«Passo» da Mouraria e muralhas de D. Fernando no Largo da Saúde
Alfredo Roque Gameiro (1864-1937) , in Lisboa Velha
 

[1] Refira-se, a título informativo, que «A Filha do sr. Chrispim» mencionada por Norberto de Araújo — e cujo cartaz se observa na 1ª imagem — foi escrita por Ludgero Viana (1842?-1934). Opereta de costumes portugueses, em 3 actos, terá estreado por volta de 1880, tendo feito furor à época com inúmeras representações em pelo menos dois teatros da capital. os já extintos Teatro do Rato e Teatro do Príncipe Real.
Ludgero Viana nasceu em Lisboa a 16 ele Março de 1842. Entrou para o jornalismo, em 1861. como redactor da época e foi durante muitos anos secretário da redacção do Diário Ilustrado. Como escritor teatral estreou-se no Teatro do Rato com a peça Os Malhados. Em 1903 entrou para a redacção do Diário de Noticias, onde se conservou durante vinte anos.
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Bibliografia
¹ARAÚJO, Norberto de. O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina, Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1947

1 comment:

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