Friday, 29 September 2017

Profissões de antanho: a ama

Era de bom-tom — lê-se na Lisboa do Meu Tempoque as mães da alta classe e muitas da burguesia tomassem ama para criar os seus filhos e, embora fosse contranatura, chegavam a secar o próprio leite para não se avantajarem fisicamente e poderem manter a elegânciaE, assim, antes do parto, contratavam ama, geralmente mulher da província, que vivesse em bons ares, tivesse bons seios e bom leite! Depois de tudo muito bem observado, as amas eram admitidas com bom ordenado e tratadas com certa consideração entre o pessoal doméstico. A sua pessoa era distinguida no ambiente familiar

Rua Garrett [1912]
Ama com crianças em frente da montra da Alfaiataria Amieiro, 

fundada em 1912 e encerrada em 1919
Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Se tinha muito leite e não havia perdido o próprio filho, a ama podia também ocupar-se deste, devidamente autorizada pelo médico e, naturalmente, por consenso dos patrões. Mas nem sempre assim sucedia, uma vez que as famílias receavam que mais se ocupasse do seu filho. 
Era vulgar vê-las, devidamente fardadas, pelas ruas e jardins com os pequenos ao colo, acompanhando os patrões
Algumas, acabado o período de amamentação, ficavam ao serviço se não tinham obrigações de família, fossem solteiras e sossegadas, a tal ponto que era frequente tornarem-se pessoas da absoluta confiança dos patrões.¹

Avenida da Liberdade [1912]
Mãe e ama com um rancho de petizes — patuscos nos seus vestidinhos brancos e 

chapéus de palhinha na cabeça — brincando no jardim da Avenida
Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa
Avenida da Liberdade [1912]
Ama com criança num cavalinho de baloiço em pasta de papel

Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Num artigo publicado na Ilustração Portuguesa, em 1912, escrevia-se longamente sobre esta antiga — mas quanto útil e importanteactividade social, a propósito de uma proposta apresentada no parlamento sobre a regulamentação para o exercício deste mister —  as amas —  as guardas de pequenitos —  como as apelidava o autor do texto que aqui reproduzimos, respeitando a grafia da época:
Guardas de pequenitos, essas almas de mulher adoram a infância precétora.
Em Portugal há anos mal se lhes confiavam todavia as creanças. Os olhares vigilantes das mães jamais largavam os filhos e  como nem nem todas as moradas tinham jardins a infância decorria dentro das casas, os pequenitos quietos, sem exercício, na errada interpretação d'essa época de que a melhor educação era a da tranquilidade.
«O pequeno é muito quietinho» — n'isto se cifravam os elogios.
Assim, sem ar, sem alegria, sem ginastica, sem exercicios, cresceram as creanças lisboetas de há anos. Agora é ir, á tarde, por esses jardins — e pensa-se que pelos parques de todo o mundo — e lá se veem as creancinhas com os seus brinquedos. transportados dos lares, com os seus jogos, lindas — porque não há petizes feios — vestidinhas de branco, os grandes chapeus de palha nas cabecitas onde fervilham idéas patuscas, saltando e correndo, os mancebos e as meninas d'ámanhã, os papás e as mamãs do futuro, que por sua vez pagarão ás amas dos seus filhos.

Praça D. João da Câmara [1912]
Mãe e ama a caminho de casa; ao fundo, o Café Martinho

Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Lisboa, sobretudo n'estas tardes de verão, oferece nos seus jardins esse pitoresco aspeto da pequenada brincando; são como as aves da tarde, as que veem chilrear antes da noite cair, antes de se irem deitar nos leitosinhos brancos onde ainda o ultimo rosto que lhes sorri é o da ama.
Há tambem as que os criam, as que lhes dão o seio e essas, todas cuidados da parte das familias das creanças, tambem aparecem por esses belos jardins cheias de resguardos, sob as sombrinhas com que outras creadas as cobrem, enquanto vão empurrando os carrinhos onde os pequeninos sorriem segurando os seus amuletosinhos, as suas rocas, os seus guizinhos de prata.²

Avenida da Liberdade [c. 1935]
Descansando num banco junto à Praça do Marquês de Pombal

Ferreira da Cunha, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
¹ DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo (1900-1974), p. 33. 1986
² Ilustração Portuguesa, 1912

Wednesday, 27 September 2017

O sítio dos Remolares

Pois, dilecto, estamos de novo nos Remolares área de S. Paulo  e da Ribeira Nova. Entramos, outra vez, no movimento da Lisboa marítima, no pitoresco desfigurado.

Vale uma pausa.


Um dos sítios da nossa Peregrinação — afirma Norberto de Araújo — ao qual já ligeiramente me referi — os Remolares — perdura ainda em reminiscência viva nos dísticos de uma Rua e de uma Travessa. Mas em verdade a designação oral sucumbiu, como sítio. A Ribeira Nova, mais a poente, e em cujo Largo finda a Rua dos Remolares, tomou-lhe o lugar. Ninguém diz: «eu moro nos Remolares», tomando assim as serventias por sítio. Mas diz-se: «fui à Ribeira Nova» ou «êle é muito da Ribeira», sem que esta maneira de dizer queira referir-se ao Mercado.

Rua dos Remolares com a Travessa dos Remolares [1858]
Do lado esquerdo vê-se o antigo Mercado da Ribeira Nova¹ (actual Mercado 

da Ribeira) e, ao fundo, o extinto forte de S. Paulo onde hoje se situa 
a Praça de D. Luís I
Amédée de Lemaire-Ternante (atrib.), in CPF

Neste sítio existiu [hoje ocupado pela Praça D. Luís I] o Forte de S. Paulo [vd. mapa abaixo], um dos teóricos baluartes seiscentistas de defesa marítima de Lisboa, e cujos restos começaram a ser demolidos em Janeiro de 1865, já depois de delineada, em plano, a Praça nova. Poucos anos depois o local estava arborizado.

Travessa dos Remolares com a Rua dos Remolares [c. 1913]
Perspectiva tirada da  Rua Nova do Carvalho (N→S)
Joshua Benoliel, in AML

«Sítio dos Remolares» — Rua e Travessa dos Remolares (cor laranja) [1856}
Da dir. para a esq.: antigo Mercado da Ribeira Nova (vermelho), antigo Forte  de S. Pauulo (azul), futura Praça D. Luís (verde) e antiga Fábrica de Gás da Boavista (negro)-
Levantamento topográfico de Lisboa, sob direcção do Eng.º Filipe Folque, 1856, in AML

Nota(s):
¹ «Ribeira Nova» e não da «Ribeira Velha» como refere o arquivista do CPF. O mercado da «Ribeira Velha» ocupava terrenos em frente à Casa dos Bicos vulgo Campo das Cebolas. Mas os disparates não se ficam por aqui. Acrescenta o autor: «Nesta fotografia pode ver-se ao fundo uma praça que deu abertura para o mítico Cais do Sodré. Pode ver-se ao fundo a Sé Catedral (sic)». É caso para dizer «nem sabes para onde estás virado», já que a imagem é voltada a poente, e não a nascente, como é sugerido; de qualquer modo seria de todo impossível ver a «Sé Catedral» a partir da Rua dos Remolares, quando muito, poder-se-ia ver a Basílica da Estrela. O que se consegue observar distintamente, isso sim, são as chaminés da antiga Fábrica de Gás da Boavista.
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Bibliografia
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 55-58)

Sunday, 24 September 2017

Edifício da Casa dos Açores

Em Vias de Classificação, esta obra do arq. Miguel José Nogueira Júnior, datada de 1921, foi construída num estreito lote triangular, de gaveto, onde o acentuado desnível do terreno condicionou todo o projecto. Desenvolvido em quatro pisos com a cobertura utilizável em terraço (das primeiras a ser construída na cidade), este edifício constitui um exemplar de arquitectura civil residencial ecléctica, assim como referência importante na introdução da modernidade em Portugal, pela concretização de um projecto onde a ausência de ornamento é sabiamente compensada através do jogo de luz e sombra proporcionado pela modelação das massas e volumes. 

Edifício da Casa dos Açores [1968]
Rua dos Navegantes, 17-21; Travessa do Combro
João Goulart, in AML 

Por sua vez, as curvas suaves, mas maciças, dos volumes, remetem para os valores formais de uma Arte Nova tardia, onde pontuam das experiências da “casa portuguesa” à tradição “Beaux Arts”. Concebido originalmente como habitação unifamiliar, este imóvel viu, em 1983, o seu piso térreo ser individualizado e transformado em agência do Banco Comercial dos Açores, segundo projecto do arq. Manuel Rocha de Carvalho, destinando-se os restantes pisos superiores a acolher a Casa dos Açores.

Edifício da Casa dos Açores [1968]
Rua dos Navegantes, 17-21; Travessa do Combro
João Goulart, in AML 

Friday, 22 September 2017

Chafariz das Janelas Verdes

As Janelas Verdes — têm, assim, ressonância lisboeta. Resignada ao urbanismo esta póvoa nobre e conventual — aceitou o miradouro da Rocha dos Condes de Óbidos e Sabugal, e, mais tarde, o Chafariz, de formosa expressão monumental. ¹


Êste Largo das Janelas Verdes — recorda-nos Norberto de Araújo — que se designa desde há um ano [1937] Largo do Dr. José de Figueiredo. em merecida consagração em memoria dêste critico de arte, Director do Museu [de Arte Antiga, Palácio Alvor] falecido em 18 de Dezembro de 1937, constitue um recanto de elegante contôrno. que bem se ajusta à fisionomia da artéria principal. 
O chafariz data de 1775, e o grupo escultórico que o coroa é de António Machado, discípulo de João de Almeida,  representando Vénus e Cupido. Tem delicadeza, e recorta-se graciosamente no fundo azul, para lá do Olival [Rua]. O arranjo do Largo foi também feliz. ²
Em meados do século XIX (1851)tinha quatro bicas, quatro Companhias de Aguadeiros, quatro capatazes e cabos, cento e trinta e dois aguadeiros e um ligeiro. 
Por Alvará de 23 de Dezembro de 1782, se concederam os sobejos, metade a Maurício José Cremer Wanzeller, e a outra metade ás Freiras de Santo Alberto, as quaes os cederam ao Marquez do Pombal.³

Chafariz das Janelas Verdes [1858]
Largo do Dr. José de Figueiredo
Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 89
² idem, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp,74-75
³ VELLOSO D`ANDARDE, José Sérgio, Memória sobre chafarizes, bicas, fontes e poços públicos de Lisboa, Lisboa, 1851

Wednesday, 20 September 2017

O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina

Fez há pouco quarenta anos que foi ordenada a demolição do Passo da Mourariaescreve Norberto de Araújo num artigo publicado no boletim do Grupo "Amigos de Lisboa" — um dos da procissão do Senhor dos Passos, da Graça. 


Serve de pretexto a estas notas, que nenhuma novidade conterão, uma fotografia que possuímos, e na qual o «passo» se vê tal qual era no final do século passado {séc. XIX]. A estampa é inédita, e deve-se, segundo cremos, a Alberto de Oliveira, um dos fundadores do «Grupo do Leão» (1887), senão o seu principal organizador, e que cultivava as curiosidades e os tipos de Lisboa, interessando-se por assuntos de arte ligados aos progressos gráficos. Alberto de Oliveira, que figura na famosa tela de Columbano, de cujos pares hoje não resta um só, foi daquela gente da boémia do talento e do espírito o primeiro a desaparecer da vida. Já não viu demolir o velho «Passo da Mouraria», cuja fotografia teria feito há cerca de sessenta anos [c. 1887]. O pormenor não interessa demasiadamente; pela leitura do título de uma peça que se representava ao tempo no Teatro do Príncipe Real [A Filha do Snr. Chrispim] [1], e que se pode ler num cartaz que a fotografia reproduz, apurar-se-ia o ano que corresponde ao cenário.
Ao «Passo da Mouraria» está ligada a história do sítio da Saúde ou da Guia. Na conhecida gravura — e belo documento — do «Arquivo Pitoresco», volume V, pág. 377 [vd. 2ª imagem], aparecem em desenho o «Passo», o recanto do Alegrete, o Arco, rasgado num prédio dos Taroucas, o resto de um ângulo da muralha de D. Fernando, e a lápide de mármore, com inscrição em caracteres góticos maiúsculos, que atesta a construção (1373-1375) da muralha fernandina.
Na fotografia à qual nos reportamos não aparece o recanto [vd. 1ª imagem], mas distintamente se vê a lápide, aposta no lanço da muralha contigua ao «Passo», ao lado superior de uma porta que tinha o n.º 12 [da Rua da Mouraria].

O «Passo da Mouraria» e a lápide da Cerca de D. Fernando (dir.) [c. 1887?]
Rua da Mouraria; à esquerda vislumbra-se a fachada lateral da Ermida de Nossa Senhora da Saúde
Alberto de Oliveira, in AML

1907 foi o ano da condenação do «Passo da Mouraria» que, em reconstrução, datava de 1780; o Terramoto destruíra o primitivo, que vinha de 1698-1702, e era sensivelmente da mesma idade do palácio do Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas. Este palácio, dito dos Marqueses do Alegrete, cujo título passou para o arco e para a rua, foi demolido neste ano corrente de 1947, sem que houvesse razão para o prantear.
Duas das relíquias do pequenino sítio desapareceram, pois, quarenta anos uma atrás da outra. Está de pé apenas o Arco, teimosamente a recordar a Porta de S. Vicente da Mouraria, que leva 574 anos de Porta, e 273 de Arco, pois foi transformada em 1674, para facilitar o trânsito dos coches.
A lápide relativa à construção da cerca de D. Fernando passou, depois de 1908, quando foi construído o grande prédio n.º 8 a 16, à esquina das Escadinhas do Marquês de Ponte de Lima Escadinhas da Saúde, para a fachada desse prédio, onde ainda se encontra. E' venerando documento da Lisboa do Rei Formoso, talvez o único de vulto, assim como o Arco, tão escarnecido e desrespeitado na sua memória, é a última das portas de Lisboa da Cerca do século XIV.

Rua da Mouraria, Arco e Palácio do Alegrete em 1862
À esquerda, na parede ao lado do  «Passo da Mouraria» vê-se a lápide comemorativa da construção da Cerca de D. Fernando
Gravura de madeira: desenho de Barbosa Lima e gravura de Coelho Júnior e Pedroso
in Arquivo Pitoresco

O «Passo da Mouraria» desapareceu em 1907-1908, como dissemos. A Câmara ofereceu à Irmandade do Senhor dos Passos da Graça, à qual o «Passo» pertencia, uma indemnização de quinhentos mil réis, que a irmandade aceitou. Dos cinco «passos» de rua da procissão dos Passos da Graça subsistem hoje apenas dois: o da «Verónica», no Largo do Terreirinho n.º 119 do começo da Calçada de Santo André, que data de 1765, e substituíra um que existiu antes na Rua do Boi Formoso [Benformoso] (1673-1675), como este substituíra um ao cimo da Rua dos Cavaleiros; e o de «Santo André», místico com o desaparecido Arco de Santo André, ampliado em 1608-1702, sito no começo da Costa do Castelo, porta n.º 106.
O famoso «Passo» do Rossio, que datava de 1700, fôra apeado em 1759, e reedificado em 1782 em terrenos da Casa dos Duques de Cadaval, novamente demolido em 18319 por ordem da Câmara, que, por sentença, teve que reedificar logo em 1841, sendo inaugurado em 1843. Pouco depois construiu-se o grande prédio Cadaval que esquina para o actual Largo de D. João da Câmara, anteriormente «Pátio do Duque». E o «passo» ficou nele encravado até 1913, ano em que a Casa Cadaval logrou por sentença, que a irmandade o entregasse, para demolição. É hoje [em 1947] «O Passo», pequena leitaria tipo Rossio.
O «Passo de S. Roque» estava embebido na face da Torre de Álvaro Pais, que se situava, como é sabido, no Largo de S. Roque [actual Trindade Coelho]; o Terramoto destruiu-o e foi reedificado em 1780-1781, até 1827, ano em que a Câmara regularizou o largo para a abertura da Rua Nova da Trindade.
A arquitectura exterior destes «passos» era sensivelmente igual: portada de volta perfeita sobre cuja cornija assenta o frontão, constituindo duas volutas a envolver um medalhão central, coroado por uma cruz simples. Estas evocações (apoiadas no estudo histórico do ilustre Padre Ernesto Sales) servem apenas de ilustração ao insignificante mas curioso documento que é a fotografia do «Passo da Mouraria». Falta somente assinalar que a história de três dos «Passos» referidos está ligada por situação à Cerca de D. Fernando: os de S. Roque, da Mouraria e de Santo André.¹

«Passo» da Mouraria e muralhas de D. Fernando no Largo da Saúde
Alfredo Roque Gameiro (1864-1937) , in Lisboa Velha
 

[1] Refira-se, a título informativo, que «A Filha do sr. Chrispim» mencionada por Norberto de Araújo — e cujo cartaz se observa na 1ª imagem — foi escrita por Ludgero Viana (1842?-1934). Opereta de costumes portugueses, em 3 actos, terá estreado por volta de 1880, tendo feito furor à época com inúmeras representações em pelo menos dois teatros da capital. os já extintos Teatro do Rato e Teatro do Príncipe Real.
Ludgero Viana nasceu em Lisboa a 16 ele Março de 1842. Entrou para o jornalismo, em 1861. como redactor da época e foi durante muitos anos secretário da redacção do Diário Ilustrado. Como escritor teatral estreou-se no Teatro do Rato com a peça Os Malhados. Em 1903 entrou para a redacção do Diário de Noticias, onde se conservou durante vinte anos.
________________________
Bibliografia
¹ARAÚJO, Norberto de. O «Passo» da Mouraria e a lápide da Cerca Fernandina, Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1947

Sunday, 17 September 2017

Monumento do Senhor Roubado

A origem do nome Odivelas está como o nome de tantas outras freguesias e concelhos de Portugal, envolto numa lenda que tem perpassado pelos séculos. A propósito do nome desta cidade, conta-se que D. Dinis tinha o hábito de deslocar-se à noite a Odivelas ao Mosteiro de S. Dinis e certa noite, sabendo a rainha do que se passava resolveu esperá-lo e quando o rei fazia o seu percurso para o encontro, a rainha interpelou-o e eis que proferiu as seguintes palavras: "Ide vê-las senhor." Pelo que, segundo a lenda, a expressão "Ide vê-las", por evolução, terá dado o nome a Odivelas.


A 11 de Maio 1671 um roubo na Igreja de Odivelas dá origem a um belo monumento, o «Senhor Roubado», que alguns descrevem como sendo a primeira banda desenhada portuguesa, e que levanta muitas pistas sobre a forte presença da Inquisição na região.
O monumento do Senhor Roubado, tendo sido construído em três fases distintas, entre 1744 e 1747, correspondendo à última os azulejos da parede fundeira, que relatam toda a odisseia do roubo e a respectiva pena aplicada a António Ferreira.
A construção do primeiro padrão remonta a 1744 e deve-se à iniciativa de frei António dos Santos Prazeres que, às suas custas e beneficiando de diversas colaborações, decidiu substituir a antiga cruz, que assinalava o local onde haviam sido enterradas as partículas sagradas, por um cruzeiro e um pináculo. Logo depois, em 1745, foi decidido complementar a primeira intervenção, através de quatro colunas toscanas e respectiva abóbada, patrocinada pelo Cardeal Patriarca e paga com as esmolas dos fiéis. A mensagem iconográfica foi bastante alterada com esta intervenção, colocando a tónica na "exaltação da Fé na doutrina cristã como uma virtude da alma essencial para se chegar à Salvação". Contribuem para esta leitura a representação da pomba do Espírito Santo, do Crucifixo, símbolo de Jesus, e do vaso sagrado, símbolo de Cristo, aludindo, no seu conjunto, à Santíssima Trindade. Da mesma forma se compreendem as colunas toscanas evocativas dos quatro Evangelistas, que suportam a cobertura com a figura da Fé, bem como os fogaréus aos cantos, cuja chama é, também, representativa da Fé.
Para melhor ilustrar a antiga e curiosa história deste monumento laçamos mão da velhinha  revista científica de grande prestígio nacional e internacional, "O Arqueólogo Português” publicada em 1915, num capítulo intitulado «Azulejos datados». Reza assim:

À saída das portas de Carriche, junto da estrada municipal que leva a Odivelas, do lado esquerdo, encontra-se um pequeno espaço trapezoidal lajeado, delimitado no mais largo topo por um muro coberto de azulejos, e no outro topo e nos restantes lados por gradaria de ferro e um muro baixo. 
Ao centro, perto da parede azulejada, levanta-se um oratório de pedra, sob cuja abóbada crucial aguentada em quatro colunas de mármore claro se abriga uma imagem do crucificado. Do lado esquerdo, separados do oratório, um púlpito pequeno e um orifício circular aberto no lajedo, a modo de boca de poço; do lado direito apenas um marco de pedra, semelhante aos frades dos portões. 
É este o local conhecido pelo «Senhor Roubado» onde, em fins do séc. XVII se desenrolou uma série de acontecimentos, cuja descrição apresentará. bem claramente um dos aspectos do religiosismo da época.

Monumento do Senhor Roubado [c. 1903]
Rua Pedro Álvares Cabral; Rua do Senhor Roubado, Odivelas
Fotografia anónima

Um tal António Ferreira, de Odivelas, trabalhador e moço de soldada, roubou a igreja do povo e foi esconder parte dos paramentos e vasos sagrados no lugar onde hoje se levanta o monumento e que ao tempo era um pedaço de vinha chamado os Caniços, a beira da estrada velha seguia para Lisboa. Descoberto o furto, preso e condenado o seu autor, a piedade dos fiéis fez crigir mais de meio século depois, aquela aparatosa fabrica, ainda hoje quási integralmente conservada. Comecemos a sua descrição.
No pedestal da cruz de pedra do oratório lêem-se primeiro os seguintes versos:
AQVI
OCCVLTOV A INGRATIDÃO
DO MAIOR ROVBO A INSOLÊNCIA
MAS LEVANTO V A CLEMENCIA
A MEMOBIA DO PERDÃO
 E logo por baixo: (na parte de trás do padrão, actualmente ocultada pela parede)
 ESTE PIADOZO PADRAO ⭙ COM ETERNA DOR SE LEA
AQVI VM ATROS LADRÃO ⭙ ÁS DUAS DA NOVTE E MEA
O CEV ENTERROV NO CHÃO
CAZO DE ODIVELLAS . AN . 1671
Ainda por baixo destas inscrições se encontra uma outra, que marca a época da construção do monumento, 1744. 
No muro azulejado, que forma o fundo do estranho monumento, abre-se ao centro uma porta hoje entaipada, em cuja verga se lê:
LOVVADO
SEIA O SANTÍSSIMO
SACRAMENTO E A TRINDADE
DA TERRA, JESVS, MARIA, JOZE
P. ALMAS P. N. A. M.
ESTA. O. FEITA T CÕ ESMOLAS DOS FIEIS. 1744.
o que nos indica com precisão a data dos azulejos que foram aplicados na obra. 
Aparecem divididos em quadros — como se de uma banda desenhada dos tempos modernos se tratasse —, seis de cada banda da porta, em duas ordens sobrepostas.
Sob eles, separado por uma linha de rectângulos amarelos, vem um lambris de outros azulejos de figura avulsa, com os cantos todos sobrecarregados de cinco pintas sôbre uma cruz riscada. Encostados as ombreiras da porta estão dois grandes painéis com figuras alegóricas de mulheres, semelhantes aos que vemos, por exemplo, nos ombros da capela da Senhora da Saúde, de Montemor de Loures.

Monumento do Senhor Roubado [c. 1900]
Rua Pedro Álvares Cabral; Rua do Senhor Roubado, Odivelas
 A parede desenvolve-se atrás do cruzeiro e apresenta-se totalmente decorada com azulejos
Fotografia anónima. in AML

Como o artigo já vai longo, decidimos inserir aqui a chamada «quebra de página», caso queira continuar a ler a descrição de cada um dos doze quadros em azulejo clique em «ler mais [read more]»

Friday, 15 September 2017

Antigo coreto da Avenida da Liberdade

D. Felicidade quis então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o Conselheiro; por ele, para lhe parecer bem, fizera o sacrifício de se apertar!
Acácio não vinha, os gases começavam a afrontá-la; e o despeito daquela ausência aumentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, o corpo mole, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, numa névoa empoeirada. 

Mas a música, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruído de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquilo reanimou-a.
Era pot-pourri da ópera — e não havia música de que gostasse mais. (Queiroz, 1878)


No projecto da Avenida da Liberdade (após demolição do Passeio Público) estavam contemplados novos equipamentos para o jardim, incluindo um novo coreto, criado por José Luís Monteiro e cuja construção foi iniciada no lado oriental da Avenida, no talhão situado entre a Rua dos Condes e o Largo da Anunciada, mas uma petição de Dezembro de 1885, de vários moradores da zona pediu a suspensão da sua construção naquele local, o que foi aceite em Comissão Executiva, a 13 de Fevereiro de 1886, que decidiu suspender os trabalhos, remover os materiais e guardá-los até ser designado novo local para o coreto. Apesar de não haver coreto na Avenida, existem referências de bandas tocarem entre a Praça dos Restauradores e a Rua das Pretas.
Mais tarde, possivelmente no lugar onde actuavam as bandas foi construído um (primeiro) coreto fixo de materiais pouco duráveis a pedido da Sociedade Promotora das Creches para a realização de uma quermesse em Setembro de 1886, coreto esse que a pedido dos moradores, foi mantido nesse local até 1894, ano de inauguração do coreto fixo (segundo).
A necessidade de um novo coreto na Avenida da Liberdade, devido ao estado de degradação do coreto provisório e o pedido dos moradores lisboetas tendo em vista a necessidade de manter a música neste local, fez com que a 19 de Maio de 1892 fosse retomado o projecto de coreto de José Luís Monteiro, mas agora noutro local, para a parte mais alta da Avenida, no talhão em frente à Rua Rosa Araújo.
O coreto fixo, inaugurado a 15 de Agosto de 1894, foi aí mantido até 1935, quando foi desmanchado para ser novamente reconstruído noutro local, o Jardim da Estrela, onde se mantêm até aos dias de hoje. A decisão de mudar este coreto de local deveu-se ao aumento da quantidade de tráfego, comércio e escritórios na Avenida da Liberdade, factores pouco convidativos para o ambiente musical e para atrair pessoas até ao coreto.

Avenida da Liberdade, coreto [c. 1894]
Este coreto situava-se defronte ao nº 232 no lado nascente da avenida, no quarteirão entre as ruas Barata Salgueiro e Alexandre Herculano. Foi transferido em 1935-36 para o Jardim da Estrela
Chaves Cruz, in AML

Inaugurado em 15 de Agosto de 1894, tocando, à noite, das oito às dez horas a banda de Infantaria 2, e sendo todo iluminado a luz eléctrica. Porém, não deu o melhor resultado porque se apagou muitas vezes, o que fez com que a música desse algumas fifias, por estar às escuras.
É um coreto em mármore e ferro, do risco de José Luís Monteiro, com sugestões indianas no desenho dos arcos e na cobertura. O interior desta apresenta um invulgar trabalho decorativo em madeira com liras, folhagem e monograma camarário. É o único coreto com duas escadas de acesso, em ferradura, que pela simetria da planta lhe conferem um maior equilíbrio no desenho.

Avenida da Liberdade, coreto [c. 1900]
Coreto da autoria de José Luís Monteiro, foi transferido em 1935 para o Jardim da Estrela
Artur Leitão Bárcia, in AML

Na edição de 1831, do Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, a palavra coreto surge com o significado de «pequeno coro feito para alguma função». Enquanto em 1890 surge uma outra versão, emendada e acrescentada, que define o coreto da seguinte forma:
«Corèto», s. m. Côro pequeno. Especie de palanque, vistosamente ornamentado, destinado à música, e que se arma geralmente por occasião de festa publica, em arraiaes, etc..»
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Bibliografia
(QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878)

(NUNES, Joana, O coreto na cidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes (FBA), Dissertações de Mestrado, 2012)
(RELVAS, Eunice; BRAGA, Pedro Bebiano, Coretos em Lisboa: 1790-1990, p. 129)

Wednesday, 13 September 2017

Palácio Ludovice

O antigo Palácio Ludovice, enorme quarteirão com quatro faces, contido entre as Ruas de S. Pedro de Alcântara e do Diário de Noticias, e as travessas da Cara e da Boa Hora, não passa de um casarão utilitário, votado desde há muito ao inquilinato mais díspar. Nele avulta apenas a formosa frontaria, numa sugestiva expressão de beleza e de harmonia arquitectónica. Ê desde 22 de Março de 1938 considerado «imóvel de interesse público», apenas por sua fachada principal. 


Foi fundador deste palácio o arquitecto João Frederico Ludovice, que lhe imprimiu a traça setecentista pura, e a data pode ser fixada em 1747, segundo se depreende da inscrição na pedra colocada sobre a janela central do andar nobre. 
A versão apresentada por Jacome Raton, nas suas «Memórias», que dá João Pedro Ludovice, filho do arquitecto famoso, como o fundador do palácio não oferece consistência; parte, por ventura, da circunstância de João Pedro haver residido na casa, que herdou de seu pai em 1752.
O interessante imóvel foi mesmo conhecido por «Palácio do Frederico», segundo assevera Júlio de Castilho na sua «Lisboa Antiga» — «Bairro Alto». Ê de crer que os descendentes directos dos Ludovices houvessem, no todo ou em parte, residido no edifício de S. Pedro de Alcântara, já no século XIX.

Palácio Ludovice [s.d.]
A admirável frontaria sobre S, Pedro de Alcântara
Rua de São Pedro de Alcântara, 39-49; Rua do Diário de Notícias, 144-154; 

Travessa da Boa-Hora ao Bairro Alto, 2-12; Travessa da Cara, 1-3A
Fotógrafo não identificado, in Inventário de Lisboa

Considerado um exemplo arquitectónico típico do barroco tardio nacional, assim como um dos mais importantes exemplos da arquitectura palaciana da Lisboa joanina, apresenta uma fachada desenvolvida em 5 pisos de altura desigual, rasgada por um portão central decorado com pilastras de cantaria em fiadas sobrepostas e sobrepujado de tímpano, animada por dois janelões centrais, com emolduramento de cantaria, que abrem para varandas de linhas ondulantes, estando o janelão do piso nobre encimado por uma lápide onde está patente a data da conclusão do imóvel, 1747. Salienta-se, ainda, a articulação entre janelas de sacada e de peitoril e a alternância de elementos decorativos,nomeadamente o elemento característico da arquitectura joanina ou de Ludovice, uma espécie de frontão liso, que coroa algumas janelas, e áticas triangulares de cantaria, que coroam outras tantas.
Objecto de intervenções ao longo do séc. XIX, foi sujeito a obras de transformação, segundo projecto do arq. Jorge Segurado, entre 1944-45, no sentido de instalar o Solar do Vinho do Porto no pavimento térreo do edifício. Algumas das salas do imóvel conservam, ainda, silhares de azulejos setecentistas e tectos apainelados com pinturas.
 O interior, antecedido por uma escadaria nobre, encontra-se bastante descaracterizado. Merece ainda atenção, o espaço em oval da primitiva capela, decorado com mármore rosa.

Palácio Ludovice [19550]
Rua de São Pedro de Alcântara, 39-49; Rua do Diário de Notícias, 144-154; 

Travessa da Boa-Hora ao Bairro Alto, 2-12; Travessa da Cara, 1-3A 
Construído em 1747, como testemunha a lápide existente no janelão central
Salvador de Almeida Fernandes, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, p. 93, 1950)
(cm-lisboa.pt)

Sunday, 10 September 2017

Rua dos Correeiros: Primeira Casa das Bandeiras

Em 1883, António de Almeida Cardoso, após trabalhar como alfaiate em São Pedro do Sul, trouxe a sua arte para a capital e aí abriu a Alfaiataria A. Cardoso na  Rua dos Correeiros, 149-151, vulgo Travessa da Palha. Em 1885, mudou o nome da alfaiataria para Primeira Casa das Bandeiras, passando a dedicar-se quase em exclusivo à confecção de bandeiras. 
A primeira bandeira da República Portuguesa foi confeccionada neste estabelecimento e, actualmente, os seus produtos são vendidos para praticamente todo o Mundo, se bem que já não se bordem os panos a fio de ouro e à mão como chegou a ser tradição. Entre outros clientes, destacam-se o Estado Português, Clubes Desportivos, Bancos, Associações, Municípios, Juntas de Freguesia, Faculdades e a Casa Real Espanhola.

Primeira Casa das Bandeiras [post. 1908] 
Rua dos Correeiros, 149-151
Fonografia anónima, in DN

A Rua dos Correeiros (vulgo Travessa da Palha), que foi destinada aos ofícios de Seleiros — recorda-nos Norberto de Araújo nas Peregrinações — ainda hoje [em 1939] subsistentes —, e que se chamou também da Correaria Nova, e Nova dos Correeiros, deve a designação oral, sobrevivente, à vizinhança com o Largo e Praça da Palha.

Este topónimo foi oficializado pela Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760 que atribuiu denominações às ruas da Baixa lisboeta, entre a Praça do Comércio e a Praça do Rossio, na sequência da reconstrução da zona após o terramoto de 1755 e que é o primeiro diploma que tratou exclusivamente de matéria toponímica:
«Nesta rua he a que fica entre a Rua Bella da Rainha [actual Rua da Prata], e a Rua Augusta, e nella terão arruamento os Officios de Corrieiro, de Seleiro, e de Torneiro.»

Rua dos Correeiros [c. 1908] 
Do lado esquerdo, onde se vê a bandeira portuguesa e o letreiro com o nº. 151, fica a entrada da Primeira Casa das Bandeiras
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 42)
(DN)

Friday, 8 September 2017

Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro

A urbanização dos terrenos adjacentes à parte ocidental da Avenida da Liberdade só avançou a partir de 1880, depois de acordo entre a Câmara e o capitalista e advogado Antão Barata Salgueiro, proprietário de uma larga área de terrenos nessa zona. Os arruamentos, abertos desde 1882, tomaram os nomes de vultos do liberalismo e foram sendo ladeados de «palacetes particulares, alguns de certo mérito, prédios sólidos de rendimento» (ARAÚJO, 1939), destinados a uma classe burguesa abastada. Restam ainda diversas construções dessa época, estando no entanto a unidade do conjunto cada vez mais prejudicada pelos novos edifícios que proliferam de forma imparável.

Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro [c. 1910]
Joshua Benoliel, in AML

O primeiro palacete na foto acima, no nº 185, foi demolido na década de 1930 para dar lugar ao primitivo Hotel Tivoli (Palacete Rosa Damasceno); o segundo palacete, no nº 187-189, construido em 1891, de estilo neo-mourisco é o actual Hotel Veneza mandado construir por Adriano Antão Barata Salgueiro; o terceiro palacete no n.º 191-193, de Cipriano Ribeiro Caleia adquirido a Barata Salgueiro, construído nos finais do séc. XIX, é o actual Arquivo Histórico do MOPTC. O quarto palacete no nº 195 — no gaveto com a Rua Barata Salgueiro — é o Palacete Barata Salgueiro, demolido na década de 1970, para dar lugar à sede do BES, actual Novo Banco.

Avenida da Liberdade, panorâmica N-S [c. 1934]
 A vermelho, a Rua Barata Salgueiro

Ferreira da Cunha, in AML

Wednesday, 6 September 2017

Comícios republicanos na Avenida D. Amélia

Do nosso tempo é a grande artéria de Almirante Reis, que sucedeu na designação, como tenho dito, à Avenida de D. Amélia: tem 40 anos incompletos. É uma linha urbana de primeira categoria, sem história, que começou a rasgar-se timidamente no final do século passado [séc. XIX]. [1]


Avenida D. Amélia, actual Almirante Reis [1908]
Comício republicano; quarteirão entre as ruas Marques da Silva e Pascoal de Melo (dir.);  em cima vê-se a
Igreja de Nossa Senhora da Penha de França
Fotógrafo não identificado, in Arquivo Municipal Lisboa

Nos últimos anos da monarquia, pela Avenida D. Amélia, agora de Almirante Reis, havia ainda muitos tapumes à espera de construções de prédios e nos terrenos à margem os dirigentes republicanos vinham, aos domingos, fazer os comícios de propaganda a que o povo, levado pelos artigos de Magalhães de Lima, no Século e de França Borges, no Mundo, acorria com entusiasmo e expectativa. No alto dos improvisados palanques, os caudilhos abjurgavam a Monarquia, condenavam o rei, reclamavam a República!
Nem todos ouviriam o que eles diziam, pois, ao tempo, não havia altifalantes e as palavras perder-se-iam nos grandes espaços. Mas a solidariedade levava os da frente a transmitir de boca em boca, o que eles arengavam. E sempre havia muitas palmas e vivas! 

Avenida D. Amélia, actual Almirante Reis [1908]
Comício republicano; ao fundo, a futura Praça do Chile
Fotógrafo não identificado, in
Arquivo Municipal Lisboa

Contava-se, como anedota, que em certa ocasião um ouvinte, dado à chacota, gritou: — Viva a Sardanica! E logo toda aquela gente premiou com aplausos a frase que poucos teriam entendido. 
A polícia nunca intervinha, uma vez que os comícios eram democraticamente autorizados pelo célebre juiz Veiga, zelador da coisa pública apesar de incansável perseguidor dos republicanos.
 Vivia-se num ambiente verdadeiramente revolucionário. [2]

Avenida D. Amélia, actual Almirante Reis [1906]
Comício republicano; Igreja de Nossa Senhora da Penha de França
Joshua Benoliel,
Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
[1] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 73, 1938
[2] DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo (1900-1974), p. 35, 1986

Sunday, 3 September 2017

O Colyseo dos Recreios e o Elevador de S. Sebastião

O Colyseo dos Recreios  —  no dizer de Alfredo Mesquita  —  é a maior casa de espectáculos que se tem construído em Lisboa. Está situado na Rua das Portas de Santo Antão, próximo da Egreja de S. Luiz Rei de França [refere-se à Igreja de São Luís dos Franceses]. Para a realização do projecto do architeto Goulard, foi necessário fazer naquelles terrenos um desaterro de 16 metros de altura, construindo-se muralhas de suporte que têm 6 metros de espessura
O circo apresenta um grandioso aspecto, podendo comportar 8.000 pessoas, em 110 camarotes, 1.500 cadeiras, duas enormes galerias, um vasto promenoir, e uma muito espaçosa geral em toda a volta do circo. Cobre o edifício uma formidável cúpula de ferro, construída por Hein Lehmann, de Berlim. O palco é de amplas dimensões, e presta-se a ser explorado com peças de grande espectáculo. Em parte do edifício, á frente, está instalada a Sociedade de Geographia de Lisboa, com o seu muito interessante museu colonial e a sua grande sala de conferencias. A inauguração do Coliseo dos Recreios foi no dia 14 de Agosto de 1890, com a opera cómica de SuppéBoccacio, cantada por uma companhia italiana.

Coliseu dos Recreios [entre 1899 e 1901]
 Rua das Portas de Santo Antão
Nesta imagem são visíveis as «calhas» do antigo «Elevador de S. Sebastião»
Fotógrafo não identificado, in AML

Hoje — prossegue o mesmo autor em 1903 —. a grande afluência do povo converge para o Colyseo dos Recreios. De inverno, são os cavallinhos, os acrobatas, os clowns, os animaes sábios, os palhaços excêntricos, as pantomimas, as cantoras de café-concerto, que constituem os atrativos d’aquelle circo. No verão, são as companhias italianas e hespanholas de opera e de zarzuela que lhe proporcionam as enchentes. O alfacinha teve sempre uma viva sympathia pelos circos de cavallinhos, e pelos theatros de canto.

Coliseu dos Recreios, fachada e interior [c. 1890]
 Rua das Portas de Santo Antão
  in AML

Vem a-propósito lembrar que, episodicamente, correu aqui há quarenta anos [c. 1900] uma linha dupla de viação por cabo subterrâneo» — escreve Norberto de Araújo nas suas Peregrinações — referindo que «Lisboa conheceu ainda uma «Companhia de Viação Funicular» que montou uma única linha — o «Elevador de S. Sebastião» [vd. 1ª foto].
Esta linha dupla de viação por cabo subterrâneo saía do Largo de S. Domingos, junto à caixa do Teatro D. Maria II, e seguia por Santo Antão, S. José, Santa Marta, Largo do Andaluz, Rua de S. Sebastião, até às «portas» de S. Sebastião da Pedreira. Esta iniciativa teve, porém, a duração das rosas: inaugurada a carreira em 15 de Janeiro de 1899, a companhia abria falência em 1901.

Coliseu dos Recreios [1960]
 Rua das Portas de Santo Antão
Arnaldo Madureira, in AML

Bibliografia
(MESQUITA, Alfredo. Lisboa, p. 622, 1903)
((ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 104, 1939)

Friday, 1 September 2017

Presépios do Menino Deus: Casa Quinhentista

Já agora demos uns passos por êstes becos e reentrâncias, bem primitivas, do Largo Rodrigues de Freitas, antigo Largo de Santo André. 


Levam, as casas quinhentistas do Menino Deus, quatrocentos anos. Sempre assim tal qual as vemos? Não seria possível que estes presépios durassem tanto em sua fisionomia primitiva, sem um restauro, sem um toque dos alva- néis. Mas assim mesmo, tal qual estão, e adoráveis, são os únicos espécimes representativos da construção popular no tempo do «Venturoso». Fazem parte da zona pitoresca do velho sítio de Santo André, na na encosta que tem a Igreja do Menino Deus por marco sagrado. 

Largo Menino Deus [ [c. 1900]
Casa Quinhentista no antigo Largo de Santo André; Beco dos Fróis (Froes)
José Artur Leitão Bárcia, in AML

As casas da Rua dos Cegos e do antigo Largo de Santo André — são duas aguarelas. Dois mimos que se contemplam com veneração e ternura, aqui neste sítio — onde se topam ainda exemplares setecentistas, em casas pobríssimas, e que existem por milagre.  
As duas casas quinhentistas — monumentos da poesia urbana popular — têm «cabelos brancos, cor-de-rosa». A da Rua dos Cegos, de um andar único, já sem o painel de azulejos que perdura na aguarela de Roque Gameiro — é um apontamento ingénuo da arquitectura cenográfica bairrista, um pouco ao tipo de Alfama, conspurcada pelas idades.
A do Largo de Santo André [actual Largo Rodrigues de Freitas], a par do Menino Deus — é um amor. Pequenina, inevitavelmente cor-de-rosa, com sua escada exterior, sua antiga adufa a tocar o beiral do telhado — constitui o mais delicado esquiço urbano da Lisboa antiga. Envolve-a o Beco do Fróis [à esq.], em cotovelo, recanto humilde, do tipo pitoresco inocente, que guarda flores a espreitar das gelosias. 

Casa Quinhentista no Largo do Menino Deus [1911] 
Antigo Largo de Santo André actual Largo Rodrigues de Freitas
 É um "monumento nacional" de pôr em cima de um contador
Renascença de um Museu ainda por criar. (Araújo, 1938)

Roque Gameiro, aguarela

Tudo isto por aqui — rescende. Evola-se das cousas um perfume de alfazema, como das roupas frescas de um bragal. E, contudo, parece que o negrume do templo setecentista escorre, extravasa, entra nas ruelas e asfixia a sensibilidade. O velho Santo André, já sem igreja e já sem arco, só existe no dístico da Calçada. Mas ainda podemos ver, pelos olhos da imaginação, as velhinhas moradoras daqueles pitorescos presépios quinhentistas, embio- cadas, tairocando, rosário entre os dedos, atravessarem o empedrado do largo, cortarem o alpendre, entrarem na velha paroquial de D. Dinis — e ajoelharem diante da imagem de Nossa Senhora da Vida.

Casa Quinhentista no Largo do Menino Deus [1911]
Antigo Largo de Santo André actual Largo Rodrigues de Freitas
 É esta casita, não menos pitoresca, pequenina, inevitavelmente côr de rosa, de delicado traço,
com sua escada exterior, a sua janela, antiga adufa, encostada ao beiral do telhado,
que lhe cai como um "sombrero" curto, a sua porta esguia, monumento de
humildade encravado num prédio, quási tão modesto como ela.(Araújo, 1938)

Roque Gameiro, aguarela

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, vol. II, pp. 162-163)
(idem, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 74-77)
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