Wednesday, 30 August 2017

Igreja do Menino Deus

Estamos no Menino de Deus. Êste lugarzinho — no dizer de Norberto de Araújo —, com suas redondezas, teve desde o seu principio, e recuado é êle, o destino de ficar agachado, pelo nascente, à cinta do Castelo de Lisboa. Mas tomemos a decisão de marcharmos para junto do templo, senão perdemo-nos em divagações do pitoresco. 


Eis a Igreja do "Menino Deus" — em rigor assim se devia dizer — considerada monumento nacional, e que é sem dúvida um dos melhores espécimes da arquitectura italiana de setecentos. Foi o seu arquitecto principal, segundo é de crer, Frederico Ludovice, o autor do projecto do Convento de Mafra, mas certo é que outro artista, Custódio Vieira, colaborou nesta obra.

Igreja do Menino Deus, panorâmica de Alfama [c. 1900]
Ao centro encontra-se a Igreja do Menino Deus e, à direita, a Igreja de Santa Cruz do Castelo (a ela voltaremos em breve)
Largo e Calçada do Menino Deus; Largo Rodrigues de Freitas, antigo de Santo André
José Artur Leitão Bárcia, in AML

Neste sítio existira, anteriormente, uma pequena ermida; D. João V, no seu fervor piedoso projectou fazê-la substituir por um grande templo, que e êste, cuja primeira pedra foi lançada em 4 de Julho de 1711, segundo se lê na legenda do escudo sôbre a porta principal. A sagração do templo realizou-se na presença do Rei, dos Infantes e da Côrte em 21 de Março de 1737, e nesse dia foi conduzida do Convento da Madre de Deus para esta nova Igreja a imagem do Menino Jesus [ainda hoje se conserva no interior da Igreja], oferecida por uma madre, em religião Cecília de Jesus, às Mantelatas da Ordem Terceira de S. Francisco [de Xabregas], às quais o edifício anexo, Recolhimento e Hospício, se destinou desde logo.

Como observas, a fachada principal, e única, do monumento é de um belo equilíbrio na sua forma quadrada, manifestamente por concluir, pois faltam-lhe as tôrres ; é formada por duas ordens arquitectónicas, a inferior dórica e a superior jónica. Para o patim de entrada sobe-se por dois lanços de escadaria; o pórtico é de ordem corintia, sendo o entablamento dos extremos rematados por volutas. A interessante fachada não tem propriamente janelas, mas frestas rectangulares quadradas, que de certo modo singularizam a composição. Na parte superior notas a ausência de estátuas nos nichos, o que se pode atribuir ao facto de o templo não estar concluído a quando do Terramoto, o qual, poupando bastante a Igreja, quási inteiramente arrazou o Recolhimento e Hospício anexo, êsse adjacente que vês aí com sua entrada característica. 
Entremos no templo. 

Igreja do Menino Deus,  Recolhimento e Hospício anexo [1905]
Largo do Menino Deus, Calçada do Menino Deus, 15-27
A escada de acesso ao interior é da autoria de Custódio Vieira
Machado & Souza, in AML

O corpo da Igreja, revestido de mármores de várias origens, é de ordem coríntia com pilastras e caneluras e com arcos de cantaria de volta inteira nos lados do polígono. São oito as capelas, além da principal, revestida de talha dourada, e, de uma maneira geral, bem conservadas. As capelas têm boa pintura, com retábulos nos altares, todos originais de André Gonçalves, excepto os dois que atribuo a seus autores, na descriminação que faço, mas trabalhados, sem dúvida, sôbre desenhos e inspiração de Vieira Lusitano: do lado direito, S. Miguel, S. José (de Rubira, artista espanhol auxiliar de Vieira), Sant'Ana e S. Francisco; do lado esquerdo: Santa Clara, de Inácio de Oliveira, Santa Isabel, Santo António (êste desaparecido há muito) e Assunção. Na Capela-Mór, de curiosa abóbada de aresta, existem S. Francisco despejado das hábitos seculares, de Vieira Lusitano, e Trânsito de S. Francisco, do espanhol Rubira; houve um outro retábulo de assunto franciscano, e que desapareceu.
O tecto da Igreja é do risco e desenho de Victorino Serra, e a factura pictural de João Nunes de Abreu, auxiliado por Jerónimo Silva. Estas identificações aliás lógicas, e fundadas em referências eruditas conjugadas, pertencem ao estudioso de arte Cruz Cerqueira.
Nas faces laterais do corpo da Igreja podemos notar ainda os dois belos púlpitos de madeira e oito elegantes tribunas.
A sacristia quadrangular tem de interessante apenas uma lavabo de mármore da Arrábida e de lioz, e é coroada por um zimbório alto a meio da abóbada semi-circular.

Igreja do Menino Deus, Capela-Mór, púlpitos [1905]
Largo do Menino Deus, Calçada do Menino Deus, 15-27
Machado & Souza, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 74-75)

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