Wednesday, 30 August 2017

Igreja do Menino Deus

Estamos no Menino de Deus. Êste lugarzinho — no dizer de Norberto de Araújo —, com suas redondezas, teve desde o seu principio, e recuado é êle, o destino de ficar agachado, pelo nascente, à cinta do Castelo de Lisboa. Mas tomemos a decisão de marcharmos para junto do templo, senão perdemo-nos em divagações do pitoresco. 


Eis a Igreja do "Menino Deus" — em rigor assim se devia dizer — considerada monumento nacional, e que é sem dúvida um dos melhores espécimes da arquitectura italiana de setecentos. Foi o seu arquitecto principal, segundo é de crer, Frederico Ludovice, o autor do projecto do Convento de Mafra, mas certo é que outro artista, Custódio Vieira, colaborou nesta obra.

Igreja do Menino Deus, panorâmica de Alfama [c. 1900]
Ao centro encontra-se a Igreja do Menino Deus e, à direita, a Igreja de Santa Cruz do Castelo (a ela voltaremos em breve)
Largo e Calçada do Menino Deus; Largo Rodrigues de Freitas, antigo de Santo André
José Artur Leitão Bárcia, in AML

Neste sítio existira, anteriormente, uma pequena ermida; D. João V, no seu fervor piedoso projectou fazê-la substituir por um grande templo, que e êste, cuja primeira pedra foi lançada em 4 de Julho de 1711, segundo se lê na legenda do escudo sôbre a porta principal. A sagração do templo realizou-se na presença do Rei, dos Infantes e da Côrte em 21 de Março de 1737, e nesse dia foi conduzida do Convento da Madre de Deus para esta nova Igreja a imagem do Menino Jesus [ainda hoje se conserva no interior da Igreja], oferecida por uma madre, em religião Cecília de Jesus, às Mantelatas da Ordem Terceira de S. Francisco [de Xabregas], às quais o edifício anexo, Recolhimento e Hospício, se destinou desde logo.

Como observas, a fachada principal, e única, do monumento é de um belo equilíbrio na sua forma quadrada, manifestamente por concluir, pois faltam-lhe as tôrres ; é formada por duas ordens arquitectónicas, a inferior dórica e a superior jónica. Para o patim de entrada sobe-se por dois lanços de escadaria; o pórtico é de ordem corintia, sendo o entablamento dos extremos rematados por volutas. A interessante fachada não tem propriamente janelas, mas frestas rectangulares quadradas, que de certo modo singularizam a composição. Na parte superior notas a ausência de estátuas nos nichos, o que se pode atribuir ao facto de o templo não estar concluído a quando do Terramoto, o qual, poupando bastante a Igreja, quási inteiramente arrazou o Recolhimento e Hospício anexo, êsse adjacente que vês aí com sua entrada característica. 
Entremos no templo. 

Igreja do Menino Deus,  Recolhimento e Hospício anexo [1905]
Largo do Menino Deus, Calçada do Menino Deus, 15-27
A escada de acesso ao interior é da autoria de Custódio Vieira
Machado & Souza, in AML

O corpo da Igreja, revestido de mármores de várias origens, é de ordem coríntia com pilastras e caneluras e com arcos de cantaria de volta inteira nos lados do polígono. São oito as capelas, além da principal, revestida de talha dourada, e, de uma maneira geral, bem conservadas. As capelas têm boa pintura, com retábulos nos altares, todos originais de André Gonçalves, excepto os dois que atribuo a seus autores, na descriminação que faço, mas trabalhados, sem dúvida, sôbre desenhos e inspiração de Vieira Lusitano: do lado direito, S. Miguel, S. José (de Rubira, artista espanhol auxiliar de Vieira), Sant'Ana e S. Francisco; do lado esquerdo: Santa Clara, de Inácio de Oliveira, Santa Isabel, Santo António (êste desaparecido há muito) e Assunção. Na Capela-Mór, de curiosa abóbada de aresta, existem S. Francisco despejado das hábitos seculares, de Vieira Lusitano, e Trânsito de S. Francisco, do espanhol Rubira; houve um outro retábulo de assunto franciscano, e que desapareceu.
O tecto da Igreja é do risco e desenho de Victorino Serra, e a factura pictural de João Nunes de Abreu, auxiliado por Jerónimo Silva. Estas identificações aliás lógicas, e fundadas em referências eruditas conjugadas, pertencem ao estudioso de arte Cruz Cerqueira.
Nas faces laterais do corpo da Igreja podemos notar ainda os dois belos púlpitos de madeira e oito elegantes tribunas.
A sacristia quadrangular tem de interessante apenas uma lavabo de mármore da Arrábida e de lioz, e é coroada por um zimbório alto a meio da abóbada semi-circular.

Igreja do Menino Deus, Capela-Mór, púlpitos [1905]
Largo do Menino Deus, Calçada do Menino Deus, 15-27
Machado & Souza, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 74-75)

Sunday, 27 August 2017

Os alfacinhas vão a banhos: praia do Tamariz

Aberta sobre os rochedos, ampla, soberba na sua amplidão e largueza, a Avenida Marginal, cortada entre palacetes, chalés e jardins, passa no Estoril onde existiram dois fortins: o de S. Roque, hoje o Tamariz, e que foi propriedade do Conselheiro Schrõeter, sua moradia de verão, com o parque junto da praia (próximo da casa chamada da Serra), e o de Santo António d'Assubida ou Forte da Cruz, sobre as quais, em 1896, foi construída a Casa (Chalet) Barros,


Praia do Tamariz [1930]
À direita, uma vigia do Chalet Barros; ao fundo, a Casa Schroeter
Em 1929, Fausto Figueiredo adquiriria esta habitação para a instalação de um salão de chá, que, desde então, se popularizaria por TamarizColecção José Santos Fernandes, in Câmara Municipal de Cascais

Estamos na região dos Estoris — escreve Raúl Proença no Guia de Portugal — estações balneares e estações de inverno, já com pretensões a paragens civilizadas e com mimos de conforto e vegetação, e cuja fiada de vivendas, hotéis, casinhas rústicas ou palácios constitui a única estância cosmopolita que temos entre nós. Começa aqui, propriamente, a Riviera portuguesa – a Enseada azul. De facto, os olhos mergulham num deslumbramento azul e o mar toma a cada momento tonalidades incomparáveis.

Praia do Tamariz [1965]
Praia do Estoril e, ao fundo, a Casa (Chalet) Barros erguido em 1896; paredão
Armando Serôdio, in  Arquivo Municipal Lisboa

O Estoril é, antes de mais, a praia do Tamariz – que já Henrique Galvão, no seu romance escrito para cantar a glória e a urgência de salvar Portugal pela saga colonizadora das nossas Áfricas, Velo d’Oiro (1932) celebrava como o mais chic dos cosmopolitismos do Portugal de então –, aqui documentado com fotografias que nos mostram a praia famosa e os banhistas que nela se regalam, à sombra das suas duas elegantes vivendas totémicas que são o ex-libris desta praia, cada qual num extremo do Tamariz, a antiga Casa Schröter – um nome ligado ao mundo financeiro e, ainda, à aventura ditatorial de João Franco, já que no seu gabinete foi ministro da Fazenda Ernesto Driesel Schröter –, que Fausto de Figueiredo compraria e acabaria em restaurante, com uma concorrida piscina anexa, e a Casa (Chalet) Barros, com o seu torreão florentino e o seu ar de casa assombrada, 

Banhistas na Praia do Tamariz [primeiro quartel do séc. XX] 
Paulo Guedes, in  Arquivo Municipal Lisboa

A Praia do Tamariz é considerada a praia por excelência da Costa do Estoril. Localizada em frente aos Jardins do Casino Estoril, esta praia dispõe de bons acessos uma vez que se encontra junto à estação de comboios e autocarros e à Estrada Marginal. O passeio marítimo (Paredão), os apoios de praia e a restauração associada a grandes palacetes complementam o enquadramento equilibrado. Esta praia dispõe, ainda, de uma Piscina Oceânica de acesso gratuito.

Piscina do Tamariz, junto à Casa Schröter [1960]
Colecção José Santos Fernandes, in Câmara Municipal de Cascais

Bibliografia
MARTINS, Rocha, Lisboa de ontem e de hoje: as colinas da cidade, p. 226, 1945
Guia de Portugal: v. Generalidades. Lisboa e arredores, coord. Raúl Proença, pp. 594-598, BNL, 1924-1927
FERNANDES, AJosé Santos, O passado nunca passa, CMC

Friday, 25 August 2017

Escola Eugénio dos Santos

A Escola Técnica Elementar de Eugénio dos Santos foi criada em Agosto de 1948, a primeira das 18 escolas do Ensino Técnico Elementar promovidas pelo Decreto de 11 de Julho de 1947, nº 30.406. Ficou concluída no tempo recorde de 18 meses (15/11/1950 ) e foi inaugurada a 6/12/1951. O seu primeiro director foi António Gonçalves Mattoso, pai de José Mattoso. Em 1968 passou a chamar-se Escola Preparatória de Eugénio dos Santos e, em 1993, Escola EB 2+3 Eugénio dos Santos.

Escola Eugénio dos Santos [1968]
Rua Luís Augusto Palmeirim esquina com a Avenida de Roma
João Brito Geraldes, in AML
 
Eugénio dos Santos e Carvalho (1711-1760) foi engenheiro militar e arquitecto responsável pela reconstrução da Baixa Pombalina de Lisboa após o terramoto de 1755.

Wednesday, 23 August 2017

Cinema de Alvalade

Projectado pelos arquitectos Lima Franco e Filipe de Figueiredo em 1945, foi inaugurado no dia 8 de Dezembro de 1953 com o filme brasileiro de Lima Barreto, «O Cangaceiro», sessão a que esteve presente o embaixador do Brasil em Portugal.
O Cinema de Alvalade, com capacidade para 1262 espectadores, distribuídos por uma plateia e dois balcões, foi durante décadas um dos símbolos do bairro de Alvalade. Desde que foi encerrado, em 1985 foi arrendado pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) até ao ano 2000. Depois de três anos votado ao abandono, foi iniciada a sua demolição em 2003. No seu lugar viria a ser erguido um edifício (Hollywood Residence) de oito pisos destinado a habitação, escritórios e uma zona de lazer onde existem 4 mini-salas de cinema.

Cinema de Alvalade [c. 1953]
Avenida de Roma

Salvador de Almeida Fernandes. in AML

Sunday, 20 August 2017

Profissões de antanho: o calceteiro, uma arte a preto e branco


Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
      Vibra uma imensa claridade crua.
      De cócoras, em linha, os calceteiros,
      Com lentidão, terrosos e grosseiros,
      Calçam de lado a lado a longa rua.
Como as elevações secaram do relento,
      E o descoberto sol abafa e cria!
      A frialdade exige o movimento;
      E as poças de água, como em chão vidrento,
      Reflectem a molhada casaria.

Avenida da Liberdade [1907]De cócoras. em linha, os  calceteiros
Em segundo plano vê-se o Palacete Seixas
Joshua Benoliel, in AML
Avenida da Liberdade [1907]
E o ferro e a pedra — que união sonora!

Em último plano vê-se a «Rotunda», actual Praça do  do Marquês de Pombal
Joshua Benoliel, in AML

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
      Disseminadas, gritam as peixeiras;
      Luzem, aquecem na manhã bonita,
      Uns barracões de gente pobrezita
      E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
      Tomam por outra parte os viandantes;
      E o ferro e a pedra — que união sonora! —
      Retinem alto pelo espaço fora,
      Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Praça Dom João da Câmara [1907]
Com lentidão, terrosos e grosseiros
Ao fundo, à esq., o "Café Suisso" e à dir. o afamado "Café Martinho"
Joshua Benoliel, in AML

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
      Cuja coluna nunca se endireita,
      Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
      Pesam enormemente os grossos maços,
      Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
      Que espessos forros! Numa das regueiras
      Acamam-se as japonas, os coletes;
      E eles descalçam com os picaretes,
      Que ferem lume sobre pederneiras.

Praça Dom João da Câmara [1907]
Pesam enormemente os grossos maços
Com que outros batem a calçada feita

Ao fundo, à esq., o "Café Suisso", a Rua 1.º de Dezembro e a Praça dos Restauradores
Joshua Benoliel, in AML

E nesse rude mês, que não consente as flores,
      Fundeiam, como esquadra em fria paz,
      As árvores despidas. Sóbrias cores!
      Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
      Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! —
      Carros de mão, que chiam carregados,
      Conduzem saibro, vagarosamente;
      Vê-se a cidade, mercantil, contente:
      Madeiras, águas, multidões, telhados!

Avenida da Liberdade [1907]
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente

Ao fundo vê-se a «cavalariça», do Palacete Sabrosa na esquina com a Av. Duque de Loulé
Joshua Benoliel, in AML

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
      Em arco, sem as nuvens flutuantes,
      O céu renova a tinta corredia;
      E os charcos brilham tanto, que eu diria
      Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
      Eu tudo encontro alegremente exacto.
      Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
      E tangem-me, excitados, sacudidos,
      O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Avenida da Liberdade [1907]
Que vida tão custosa! Que diabo!

Ao fundo vê-se o Palacete Sabrosa
Joshua Benoliel, in AML
Avenida da Liberdade [1907]
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos

Em último plano vê-se a «Rotunda», actual Praça do  do Marquês de Pombal e o começo da Av. Fontes Pereira de Melo
 Joshua Benoliel, in AML

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
      De tão lavada e igual temperatura!
      Os ares, o caminho, a luz reagem;
      Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
      Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
      Dois assobiam, altas as marretas
      Possantes, grossas, temperadas de aço;
      E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
      E manso, tira o nível das valetas.

Praça Dom João da Câmara [1907]
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas

Ao fundo, a Rua 1.º de Dezembro, o "Café Suisso"  e o "Café Martinho"
 Joshua Benoliel, in AML

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
      Que vida tão custosa! Que diabo!
      E os cavadores pousam as enxadas,
      E cospem nas calosas mãos gretadas,
      Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
      Uma bandeira penso que transluz!
      Com ela sofres, bebes, agonizas;
      Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
      E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

Praça do Marquês de Pombal [1933]
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras

Ao fundo, o estaleiro do Monumento ao Marquês de Pombal e o antigo Palacete Lencastre (depois Clube Militar Naval
Ferreira da Cunhal, in AML

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
      Surge um perfil direito que se aguça;
      E ar matinal de quem saiu da toca,
      Uma figura fina, desemboca,
      Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
      E a quem, à noite na plateia, atraio
      Os olhos lisos como polimento!
      Com seu rostinho estreito, friorento,
      Caminha agora para o seu ensaio.

Rua Doutor Nicolau de Bettencourt [1957]
E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços

Muro do Parque José Maria Eugénio, actual Fundação Gulbenkiam
Judah Benoliel, in AML

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
      Como lajões. Os bons trabalhadores!
      Os filhos das lezírias, dos montados:
      Os das planícies, altos, aprumados;
      Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
      Furtiva a tiritar em suas peles,
      Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
      Neste Dezembro enérgico, sucinto,
      E nestes sítios suburbanos, reles!

Avenida da Liberdade [entre 1906 e 1908]
Os calceteiros usam moldes para marcar as zonas de diferentes cores, repetindo esses motivos em sequência linear (frisos) ou nas duas dimensões do plano (padrões).
Charles Chusseau-Flaviens, in GEH*
*Local da fotografia não  está identificado no arquivo

Como animais comuns, que uma picada esquente,
      Eles, bovinos, másculos, ossudos,
      Encaram-na sanguínea, brutamente:
      E ela vacila, hesita, impaciente
      Sobre as botinhas de tacões agudos.
Porém, desempenhando o seu papel na peça,
      Sem que inda o público a passagem abra,
      O demonico arrisca-se, atravessa
      Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
      Com seus pezinhos rápidos, de cabra!
Lisboa, Inverno de 1878
Cesário Verde (1855-1886)  in «Cristalizações»


Os calceteiros tiram partido do sistema de diáclases do calcário para, com o auxílio de um martelo, fazerem pequenos ajustes na forma da pedra. As diáclases ocorrem em todos os tipos de rochas, em particular nas rochas duras, e não são mais do que fracturas ao longo das quais não existiu movimento considerável. Estas fracturas formam-se por ruptura, como resultado de um campo de tensões aplicado ao material rochoso. Intersectam-se em diversas direcções, sendo algumas principais, originando uma rede de fracturas que facilita a separação da rocha em blocos. 

Praça Marquês de Pombal [entre 1906 e 1908]
Estes mosaicos (já cortados) situavam-se entre as avenidas Duque de Loulé (em último plano à esq.) e da Liberdade
Charles Chusseau-Flaviens, in GEH*
*Local das fotografias não  está identificado no arquivo

Os calceteiros usam moldes para marcar as zonas de diferentes cores, repetindo esses motivos em sequência linear (frisos) ou nas duas dimensões do plano (padrões). A geometria do séc. XX prova que há um número limitado de simetrias possíveis no plano: 7 para os frisos e 17 para os padrões. Um trabalho de jovens estudantes portugueses, incentivado pela Sociedade Portuguesa de Matemática, registou nas calçadas de Lisboa 5 tipos de frisos e 11 tipos de padrões. Está em curso um projecto entre a C.M.L. e a S.P.M. que pretende aumentar a riqueza geométrica da calçada de Lisboa, completando-a com os tipos de simetrias em falta.

Friday, 18 August 2017

Fonte S. João Baptista vulgo Chafariz do Boneco

A Fonte S. João Baptista, entre 1885 e 1909, (período em que permaneceu no adro da igreja matriz do Lumiar) é uma fonte de traço revivalista neoclássico, com duas bicas e dois tanques destinados aos animais. Era encimada por uma escultura. A figura alegórica do jovem encontrava-se virada para Palácio Angeja/Palmela, numa posição em que o parecia contemplar. 


Em 1885 a Câmara mandou construir para a população um chafariz no adro da Igreja de São João Baptista no Lumiar, o chafariz era abastecido por uma mina que a Câmara mandou explorar no sítio dos Pinheiros, em terras que pertenciam ao Duque de Palmela e a João Pisani da Cruz, para as despesas de construção concorreram estes proprietários e outros, concedendo-se à quinta daquele titular o recebimento das sobras. Apesar do chafariz ter sido construído para o adro da Igreja de São João Baptista, (foi transferido para a localização actual, em 1909) enquadra-se perfeitamente na escala e ambiente do Largo Júlio de Castilho (Erudito, Escritor e Historiador, 1840-1919), contribuindo para a dignificação da entrada do Palácio Angeja-Palmela na Quinta do Monteiro-Mor. 

Fonte S. João Baptista vulgo Chafariz do Boneco ou do Lumiar [c. 1900]
Largo (Igreja) de São João Baptista
José Leitão Bárcia , in Arquivo Municipal Lisboa

O sentido da verticalidade representado pelo jovem guerreiro trajado à maneira romana, com um cálice na mão esquerda encostada ao peito e, na mão direita, uma cornucópia a transbordar de frutos. Esta imagem representaria a abundância (elemento simbólico associado às cornucópias com frutos) e a vitalidade essencial da água, garantia de vida e fertilidade. A serenidade da figura induz uma sensação de segurança e tranquilidade associada à generosa disponibilidade de água no Lumiar. Porventura poderá ter-se desejado afirmar estes atributos de abundância à própria Casa de Palmela, que tinha aqui três palácios (os actuais museus do traje, do teatro e o que encerra o lado do nascente do largo da igreja). Conjunto arquitectónico e fonte eram uma marcante e incontornável presença no espaço público, quer no adro, quer depois no largo.

Fonte S. João Baptista vulgo Chafariz do Boneco ou do Lumiar [c. 1900]
Largo de São João Baptista
José Leitão Bárcia , in Arquivo Municipal Lisboa

Trata-se de um chafariz algo monumental, numa época em que o critério de construção era estritamente funcional. Possui um soco de base, onde se integram tanques de pequena dimensão, encimado por plinto almofadado, com duas bicas de forma zoomórfica, possuindo inscrições, que permitem datar a sua construção. Está encimado por figura alegoria, perfeitamente clássica, disposta em contraponto, com o vulgar elemento de apoio, que caracterizava a escultura clássica grega.
O chafariz encontra-se desfigurado  por ter sido amputado da escultura que o coroava.

Fonte S. João Baptista vulgo Chafariz do Boneco ou do Lumiar [1939]
Ao fundo vê-se a Casa Júlio de Castilho; Largo Júlio de Castilho, antigo da Duquesa
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
MECO, José, Sítio do Lumiar, in Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa
monumentos.pt

Wednesday, 16 August 2017

Travessa do Cidadão João Gonçalves

O edital da CML, datado de 14 de Outubro de 1915, substituiu vários topónimos anteriores à República. O único topónimo atribuído a um arruamento novo foi o da Travessa do Cidadão João Gonçalves, atribuído “à parte da Rua Antero de Quental, entre a Rua dos Anjos e a Avenida Almirante Reis”. Rocha Martins refere-se à origem que deste curioso dístico na sua obra Lisboa de ontem e de hoje, publicada em 1945:

"Existe na antiga Rua dos Anjos, uma travessa que tinha, outrora, a mesma designação da via e passou a chamar-se do Cidadão João Gonçalves quando se proclamou o novo regime. Várias vezes me tem perguntado, alguns leitores, porque se fez aquela mudança e quem era aquele cidadão, que mereceu as atenções dos edis. 

Travessa do Cidadão João Gonçalves com a Rua dos Anjos [1907]
Troço compreendido entre a Rua dos Anjos e a Avenida Almirante Reis
Machado & Souza, in Arquivo Municipal Lisboa

Era um desses prestantes e activos obreiros que lutavam pela proclamação do seu ideal, que devia ser de paz e de fraternidade no entender dos obscuros combatentes. Foi presidente do Centro Eleitoral Republicano, das freguesias dos Anjos e S. Jorge, instalado na Rua dos Anjos, 162, 1.º, no ano de 1890. Possuía um estabelecimento de víveres na Calçada de Agostinho de Carvalho, em cuja tabuleta se lia: Mercearia do cidadão João Gonçalves. No carimbos dos pagamentos também marcava aquela dignidade cívica.
Tem pois justificação aquele nome dado à travessa."
O Cidadão João Gonçalves morreu pouco antes da implantação da república.

Travessa do Cidadão João Gonçalves [1907]
Troço compreendido entre a Avenida Almirante Reis
Ao fundo, à esq., a Rua dos Anjos; em frente, a Tv. do Maldonado;
à dir., o começo do Largo do Intendente
Alberto Carlos Lima, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
MARTINS, Rocha, Lisboa de ontem e de hoje: as colinas da cidade, pp. 30-31, 1945
cm-lisboa/toponímia

Sunday, 13 August 2017

Palacete Sabrosa

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitui o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. (...) Quando em 1898 se celebrou o Centenário da Índia, (...) já então a Praça estava desenhada em rotunda, mas erguiam-se então apenas dois prédios-palacetes: aquêle da esquina poente da Avenida, onde começa, para acabar na esquina da Rua Braamcamp [Palacete do Dr. António Lencastre e futuro Clube Militar], o arco de circulo da «Rotunda», e o que, com área de jardins, pertenceu ao Conde de Sabrosa, à esquina da Avenida Fontes Pereira de Melo (que não existia, é claro), demolido o ano passado [em 1938] pela Companhia do Gaz [actual EDP]. (...)

Em 1910, (...) a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje. É entre a década de 1899-1909 que se pode colocar a data da edificação formal da Praça. [1]


Palacete do Conde de Sabrosa, entrada principal [1930]
Avenida Fostes Pereira de Melo tornejando com a
Praça do Marquês de Pombal
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O Palacete Sabrosa impressionava pela área da sua implantação distribuída por um quarteirão inteiro: Rotunda do Marquês, Avenida Fontes Pereira de Melo, Rua Camilo Castelo Branco e Avenida Duque de Loulé.
Perfilava-se a residência no gaveto do Marquês com a Fontes Pereira de Melo com duas fachadas extensas, mas a principal projectava-se nesta avenida ou, como se dizia na altura, gozava de vista para o Parque. Na esquina com a Duque de Loulé via-se uma grande construção de apoio à habitação e que serviu durante a revolta republicana do 5 de Outubro de 1910, como hospital de sangue [vd. 3ª foto]. Escala que denota a grande dimensão da residência, onde o arvoredo dos seus jardins se destacava dos restantes parques dos palacetes da cidade de Lisboa, que veio a ser semeado de pequenas construções.
Confirma-se que no final do século XIX a residência principal estava construída e isso poderá explicar a opção por colocar a fachada principal na Fontes Pereira de Melo, que no fundo constituía como que a primeira pedra neste novo eixo, o arrastamento da definição urbana da praça era assim pragmaticamente ultrapassado. Assim, já em 1889, o proprietário Frederico Davidson apresenta um projecto para a reedificação da moradia, o que faz pressupor um imóvel pré-existente.

Fotografia aérea da Praça Marquês de Pombal [1934]
Implantação urbana do Palacete Sabrosa, parque e cavalariças (vermelho)

Pinheiro Correia, in AML

Logo em 1903 a Construção Moderna (26.06.2003, n.º 99) publica o que designa de construções rústicas, executadas pelo arquitecto Norte Júnior. Tratava-se de uma cavalariça e aposentos para pessoal, um galinheiro e um pombal [vd. foto acima], em versão cottage popularizada e alguma robustez neo-românica. Constituíam adições pontuais a uma habitação de edificação já consolidada de anos. Reportando a alguns traços estilísticos, terá sido este arquitecto o autor do risco da residência principal ou pelo menos das adaptações promovidas pelo Conde de Sabrosa em 1901. A instalação provisória do já referido hospital de sangue no palácio durante o 5 de Outubro mereceu um louvor do Ministro da Guerra do governo provisório ao seu proprietário, o 1º Conde de Sabrosa (1855-1937), que é quem o mandou reconstruir no final do século XX.

Palacete do Conde de Sabrosa, cavalariças [1910] 
Praça do Marquês de Pombal com a Avenida Duque de Loulé
 As cavalariças funcionaram como hospital de sangue durante o 5 de Outubro
Alberto Carlos Lima, in AML

A fachada denota uma influência de gramática neo-maneirista com os seus cunhais, pseudo-pilastras, embasamento rusticado e o friso na cirnalha muito pronunciado, que é produto desta adaptação. No interior, socorrendo-nos da magnífica descrição de Santos Tavares e do conjunto de fotografias publicadas na Ilustração Portuguesa (25 de Janeiro de 1904), confirma-se aquela opção de linguagem artística. Vêem-se arcos de volta abatida, colunas jónicas e tectos de caixotões rectangulares na casa de jantar e no escritório do proprietário. Uma das salas, designada de Luís XVI, era toda mobilada com as aquisições obtidas pelo senhor Conde de Sabrosa, considerado um grande coleccionador na época, no leilão do Marquês da Foz oriunda do Palácio dos Restauradores. Pintura e objectos da colecção Daupiás, outros da colecção Fernando Palha recheavam a grande diversidade de salas, num ecletismo fim de século, que tipificava o ambiente das grandes moradas deste período, por influência do gosto que as colecções Foz e outras espalhavam no meio alfacinha.

Palacete Sabrosa [c. 1910]
Perspectiva tirada do Parque Eduardo VII, vendo-se, ao centro, o Palácio Sabrosa; à esquerda, um esboço da Rua Camilo Castelo Branco; atrás a Av. Duque de Loulé; à direita a «Rotunda», hoje «do Marquês» e a Av. da Liberdade

Joshua Benoliel, in AML

Em 1929 o prédio viria a ser alienado «ao activo e confiado industrial hoteleiro», Alexandre Almeida, dono da Companhia dos Grandes Hotéis de Portugal, que já possuía nos Restauradores, o superlativo Hotel Avenida Palace (1890-92) projectado pelo arquitecto José Luís Monteiro (1849--1942). O Concelho de Arte e Arquitectura deu mesmo um parecer positivo e incentivou a construção de um Palace Hotel. Esta ideia não veio a ser concretizada e, em 1937, o hoteleiro vendeu--a com todos os seus terrenos à Companhia do Gás (Araújo, 1939).
E vai iniciar-se um novo ciclo na vida deste espaço com a abertura da sua demolição dois anos depois que se concretiza em 1940. [2]

Palacete Sabrosa [ant. 1940]
Avenida Duque de Loulé com a Rua Camilo Castelo Branco; Praça do Marquês de Pombal

Kurl Pinto, in AML

Bibliografia

[1] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 43-44)

[2] TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível

Friday, 11 August 2017

Cinema Belém-Jardim

O Cinema Belém-Jardim foi inaugurado em 1925 e teve após a demolição do Belém Cinema, um dos primeiros animatógrafos permanentes da zona localizado na desaparecida Rua Paulo da Gama. Durante a II Grande Guerra viu a sua actividade cultural interrompida para funcionar como depósito de cereais com destino à Suíça. Reabriu como cinema no pós-guerra acabando por encerrar definitivamente na década de 1960

Cinema Belém-Jardim [1953]
Rua Bartolomeu Dias, 25-27 (ao centro e à direita do poste de catenária)
Belém Cinema, também designado por Belém-Jardim (situado primeiro na Rua Paulo da Gama e. depois, na Rua Bartolomeu Dias)
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa

Nesta artéria funcionavam a «Fábrica de Borracha e Calçado Repenicado & Bengala» (1º edifício na foto, nºs 21 e 23 e 29 a 33). O cinema ocupava os nºs 25 e 27.
Estes edifícios foram demolidos em 1989/90 por ocasião das obras para a construção do Centro Cultural de Belém.

Cinema Belém-Jardim [1938]
Rua Bartolomeu Dias, 25-27
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Wednesday, 9 August 2017

Rua de São Boaventura, esquina com a Calçada do Cabra

Ora cá estamos, tomando pela estreita Calçada do Cabra — escreve mestre Norberto de Araújo —, na tão socegada Rua de S. Boaventura. Aqui temos a fachada do prédio digno de ver-se. É puro de feitio setecentista, mas anterior ao Terramoto, talvez mesmo do final do século XVII. Em 1746 já existia, mas transformado de melhor tempo, e – não sabemos porquê – entre tantas evoluções da fisionomia bairrista por aqui ficou, sem que os restauros lhe afrontassem sensivelmente as cans da primitiva construção, que aliás, e como observas, não se afecta de pitoresco teatral. [1]

Rua de São Boaventura, esquina com a Calçada do Cabra [c. 1900]
Machado & Souza, in AML

Sobre a Calçada do Cabra, o olisipógrafo Júlio Castilho refere o seguinte: Por aí, era no século XVIII, sabe Deus desde quando, a Horta do Cabra. Hoje a Travessa da Horta, comunicando o do Areu com a dos Cardais (modernamente denominada Eduardo Coelho) é o vestígio derradeiro do campo de nabiças e feijoais do antigo Cabra, sujeito cuja personalidade se sumiu na voragem dos Invernos.. [2]

Bibliografia
[1] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol.VI, p. 31)
[2]CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga: O Bairro Alto, p. 303)

Sunday, 6 August 2017

A Bemposta: o Paço da Rainha

Eis-nos, Dilecto, deante do Paço da Bemposta. Observa-me a fachada desta casa paçã e palaciana; tem um certo ar mais aristocrático que fidalgo, mas, no seu conjunto, oferece um indiscutível interesse de arquitectura civil, com indicações puras seiscentistas na frontaria.


   Duas noticias te dou já: o adro, com sua escadaria, nem sempre foi como agora se apresenta; era mais avançado, e a sua redução ao espaço e configuração actuais datam de 1860. Quanto ao sítio, onde estamos, êle constituía um pátio do Palácio, fechado nos topos, com muros, onde rasgavam arcos ou portões, mas por onde aliás se fazia passagem pública, e demolidos em 1849.
    Foi aqui que uma Rainha, fatigada de pousadas estranhas, se recolheu um belo dia do ano de 1702. D. Catarina de Bragança regressara ao seu país em 1693, trazendo havia já oito anos sobre a sua cabeça, cortida por desgostos e resignações, o véu da viuvez que Carlos II de Inglaterra lhe legara. Filha e irmã de reis — porque não ter na sua pátria casa sua? Um paço próprio?

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Paço da Rainha; ao fundo,
a Penha de França
 Joshua Benoliel, in AML

    D. Catarina, fiiha de D. João IV, que casara com Carlos II de Inglaterra — a que levou aos ingleses Tânger e Bombaim — enviuvara em 1685 e aborrecida da côrte de Inglaterra, voltou a Portugal em 1693, habitando sucessivamente os Paços Reais do Calvário, o Palácio dos Condes do Redondo, em Santa Marta, os do Conde de Soure, no Bairro Alto, os dos Condes de Âveiras, em Be1ém. E acabou por resolver — construir casa sua.
   Achamos que fêz muito bem.
   Entrou a Rainha a comprar terrenos a quantos proprietários, que por aqui desfrutavam quintas, hortas e azinhagas, os punham à disposição real. Do Matadouro [actual Praça José Fontana], Estefânia, Gomes Freire, Santa Bárbara e Bemposta de hoje — tudo passou a D. Catarina, que começou a erguer a sua casa neste lugar do Campo da Bemposta em 1694, e já nela habitava em 1702, ainda o edifício não estava concluído. A Carreira dos Cavalos [actual Rua Gomes Freire], ficava-lhe a Norte, acompanhando cêrca e jardins. O Paço não seria sumptuoso, mas merecer cuidados à viúva de Carlos II, que conhecia castelos e palácios de Inglaterra; a Capela, sobretudo, foi enriquecida de obras de arte, algumas trazidas na sua bagagem de rainha-viúva.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1900]
Paço da Rainha, 31;
portas brasonadas com as armas da Rainha D. Catarina de Bragança; entre as duas ergue-se, desde 2002, um busto em bronze da Rainha assente sobre pedestal em pedra, obra da autoria do escultor britânico Tim Fargher, foi oferecida à cidade de Lisboa pela British Historical Society of Portugal, por ocasião da visita da rainha Isabel II a Portugal.
Fotógrafo não identificado, in AML

   Morreu D. Catarina em 1705, e a propriedade passou a seu irmão D. Pedro II, que só lhe sobreviveu um ano. O Paço tornado bem da Corôa foi por D. João V, em1707, doado à Casa do Infantado, tomando dele posse o Infante D. Francisco, falecido em 1752, e passando então a Bemposta para D. Pedro, irmão daquele, depois D. Pedro III. Veio o Terramoto. O Paço da Rainha ou Paço da Bemposta, como indistintamente era conhecido, sofreu bastante; a Capela, que era da invocação de Jesus Maria José, foi quási completamente arruinada. A Casa do Infantado, muito rica, reedificou o Paço com certa largueza, modificando:se sensivelmente a sua aparência. A Bemposta, abandonada, em certos períodos, já antes vinha reclamando obras.

Capela e Paço Real da Bemposta [1863]
Largo do Paço da Rainha
Gravura, in Archivo pittoresco

   Beneficiado o Paço, pôde vir habitá-lo D. Joáo VI, quando regressou do Brasil (1821). Foi aqui que se desenrolou parte das cenas da famosa «Abrilada», em 30 de Abril de 1824, conjura à frente da qual se colocou o irrequieto Infante D. Miguel, e que se malogrou pela intervenção do corpo diplomático, animado pelo embaixador de Luiz XVIII, o Barão Hyde de Neuville.
   (Neuville foi distinguido, logo quinze dias depois, com o título de Conde da Bemposta; um sobrinho de Neuville, que serviu D. Pedro IV nas lutas liberais e casou com uma dama portuguesa, da Casa Subserra, foi, depois, por D. María II, feito Marquês da Bemposta, e o título perdurou em três vidas, extinguindo-se na Casa Rio Maior).
   Depois de D. João VI viveram aqui D. Miguel (1828) e D. Pedro IV (1833). Em 1834 a Casa do Infantado foi abolida, e a Bemposta passou para a Corôa, rras D. Maria II apressou-se a doá-la ao Estado, quere dizer: à Nação.
   Eis porque eu te dizia que por ter comprado e feito, a Bemposta, andou bem a rainha D. Catarina de Bragança. Os ermos povoararn-se, o sítio animou-se, e a Nação ficou com mais um palácio útil.

Capela e Paço Real da Bemposta [c. 1910]
Largo do Paço da Rainha, 31 

Fotógrafo não identificado, in AML

Não podíamos, Dilecto, fugir a esta divagação, e pena tenho eu — de que tu talvez comparticipes — de não te poder resumir certas cenas da «Abrilada» descritas para França pelo próprio Embaixador Barão de Neuville em relatórios ao seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, que era, nem mais nem menos, o grande escritor René de Chateaubriand, e pela Embaixatriz, Maria Roger de Neuville, num diário íntimo. Mas dêsses papéis se apura, e eis o que nos interessa, que êste sítio há cem anos era descampado e, de noite, «lúgubre e medonho».

Ele — o Paço — era a testa coroada de Sant'Ana toda. Perto, campo de ciganos, a Carreira dos Cavalos, o solar dos Mitelos de Meneses, nascidos em Santo Estêvão de Alfama.

Hoje — e desde 1851, por mercê de D. Maria II — é a Escola do Exército [actual Academia Militar]. A frontaria, de linhas aristocráticas da arquitectura de setecentos — eis tudo. Tudo e a Bemposta, a mais linda designação de Lisboa de há duzentos anos.


E fez o Paço Real da Bemposta [risco do arq.º João Antunes], um dos mais lindos espaldares arquitectónicos de Lisboa.
É vê-lo no seu alçado setecentista, recomposto depois do Terramoto [arq. Manuel Caetano de Sousa]. Na sua varanda nobre, no seu pórtico de capela real, no seu duplo escadório decorativo, cortinado de acrotérios. 
É senti-lo na evocação opulenta da Casa do Infantado, nas sombras do Infante D. Francisco, de D. João VI, do irrequieto Infante D. Miguel, que chegou a ser por algumas horas dono de Lisboa, mas que não sabia bem o que queria. 

Capela do Paço Real da Bemposta [c. 1910] 
Paço da Rainha
Na fachada imponente destaca-se o coroamento de platibanda e balaústres, pelo
remate com frontão triangular, decorado no tímpano, encimado por cruz sobre plinto,
e pela varanda central, de balaustrada contracurvada, para a qual se abrem três janelões,
sendo o central rematado por frontão tripartido ostentando as armas reais.
Joshua Benoliel, in AML

No interior a Capela organiza-se dentro de um rectângulo de ângulos arredondados, a nave, com seis capelas laterais, constituindo a do Santíssimo Sacramento [vd. foto abaixo (dir)], pela sua profundidade, uma unidade espacial autónoma, à qual se justapõe a capela-mor. O programa decorativo é inspirado na obra prima do barroco joanino, a Capela de S. João Baptista, da Igreja de S. Roque, mas atribuindo-lhe já um certo gosto rococó tardio, que se abre a manifestações neoclássicas. Merecem, ainda, destaque as pinturas em «trompe l'oeil» de Pedro Alexandrino de Carvalho e a tela do altar-mor, figurando a padroeira (N. S. da Conceição, vd. foto abaixo à esq), atribuída ao pintor italiano José Troni, sob a qual foi colocado um friso de retratos de elementos da família real.
A Capela está classificada como Monumento Nacional. O Paço Real da Bemposta integra a classificação do Campo dos Mártires da Pátria como Imóvel de Interesse Público.

Capela do Paço Real da Bemposta, nave, capela e altar-mor (esq) e Capela do Santíssimo, retábulo [1790-95] (dir) [c. 1962] 
Paço da Rainha
Robert Chester Smith, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

Bibliografi.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 47-48, 1938)
(idem, Legendas de Lisboa, p. 87, 1943)
Archivo pittoresco: semanario illustrado - Vol. 6, 1863.
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