Wednesday, 31 May 2017

Igreja de São João de Brito

A 1 de Março de 1647 nasce em Lisboa, João Heitor de Brito, filho de D. Salvador Brito Pereira, Governador do Rio de Janeiro. Foi missionário jesuíta e mártir, frequentemente chamado de "O Francisco Xavier Português". Morre na Índia a 4 de Fevereiro de 1693. Foi canonizado em 22 de Junho de 1947, pelo Papa Pio XII.
A Igreja de S. João de Brito foi inaugurada a 2 de Outubro de 1955. O projecto, de 1951, é do risco do arquitecto Vasco Regaleira, majestosa e monumental, uma igreja para 1500 pessoas.

Igreja de São João de Brito [c. 1959]
Largo de Frei Heitor Pinto

O topónimo homenageia o religioso Jerónimo, nascido na Covilhã nos começos do segundo quartel de século XVI, morreu em Toledo em 1584. Foi um dos mais notáveis escritores do seu tempo, hoje considerado um dos clássicos portugueses
António Passaporte, in AML

A construção iniciou-se em 1952, dirigida pelos engenheiros Pinheiro da Silva e Marques da Silva e pelo construtor Diamantino Tojal. O templo foi idealizado pessoalmente na parte funcional pelo Cardeal Patriarca de. Lisboa, que a mandou construir com os resultados da demolição da igreja da Conceição Nova. O arquitecto «salvou» do entulho o soberbo altar-mor construído no século XVIII, os dois altares laterais, algumas portadas e a pia baptismal da velha igreja e  integrou estas peças de assinalado valor artístico e material no ambiente moderno da igreja nova.
A fachada principal, em forma de empena muito pronunciada, com beiral de telhado à portuguesa, tem no cimo a torre sineira e uma cruz de ferro forjado, com 5 metros de altura. Ao centro apresenta uma grande janela com vidros em losango, que tem à sua frente a estátua de orago (patrono da freguesia), de granito, esculpida por Joaquim Correia. No cimo desta janela estão as armas do Cardeal Patriarca de Lisboa.

Igreja de São João de Brito, traseiras [c. 1959]
Largo de Frei Heitor Pinto; perspectiva tirada da Av. Santa Joana Princesa

Judah Benoliel, in AML

Sunday, 28 May 2017

Estátua equestre d'el-rei D. José I na Praça do Cavalo Preto

A estatua equestre d'el-rei D. José I — noticiava o semanário illustrado Archivo Pittoresco em 1859 —, erigida na vasta praça do Commercio, é incontestavelmente, em que peze a estrangeiros e estrangeirados, um monumento de que Portugal se pôde ufanar, que poucos ou, talvez, nenhum rival, neste genero, tem no mundo, e que honra altamente o talento dos que a conceberam e executaram, acreditando os nossos progressos nas artes.  [1]


E surgiu então — relembra-nos Norberto de Araújo — um Terreiro do Paço novo. Espalmou-se aqui, no chão que fôra o «espalmadeiro» dos séculos XIV e XV — a mão de Pombal. E Eugénio dos Santos delineou a praça nova, ordenada por decreto de 16 de Janeiro de 1758. (...)
A «Black Horse Square» (Praça do Cavalo Preto), como dizem os ingleses, é, talvez, a mais imponente praça pública da Europa. Quanto à Estátua Eqüestre data de 1775.
Estamos deante do mais belo monumento consagratório de todo o país — prossegue o ilustre olisipógrafo, glórianão de D. José ou do Marquês de Pombalmas de Joaquim Machado de Castro.

Estátua equestre d'el-rei D. José I  [c. 1870] 
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio; Castelo de S. Jorge e a Sé em fundo
Francesco Rocchini, in BNP

Joaquim Machado de Castro, lente de escultura e estatuária, que já tinha cinqüenta anos quando realizou esta notável obra — êle, o barrista peregrino dos presépios — foi um artista de intuição, desenvolvido na escola de Mafra, onde, ajudante do escultor Alexandre Giusti, revigorou a sua cultura, preparando-se para maiores destinos.
O monumento não lhe saiu de um jacto, como o bronze liquido da Estátua; o artista estudou, duvidou, trabalhou, persistiu. O primeiro modêlo fê-lo [em gesso] em fins de Dezembro de 1770, e, depois, mais dois em Março de 1771; foi encarregado da obra em Julho dêsse ano, e em Outubro lançou-se à emprêsa. Dois anos depois, precisamente, começaram os trabalhos de fundição, concluídos na manhã de 15 de Outubro de 1774; a Estátua fôra fundida em oito minutos, nas oficinas da Fundição de Cima (antiga Fundição de Canhões).
Estátua equestre d'el-rei D. José I, face norte, baixo-relevo  [c. 1895] 
Grupo escultórico do lado direito do monumento, representa O Triunfo.
Praça do Comércio (Antigo Terreiro do Paço)
Fotógrafo não identificado, in AMLv

Na madrugada de 22 de Maio de 1775 começou a condução da estátua colossal desde Santa Engrácia, pela Rua do Paraíso, pela Rua (aberta de propósito) do Museu de Artilharia e pela Rua da Alfândega até êste Terreiro do Paço; organizou-se um imponente cortejo que desfilou entre alas de tropas de linha, cortejo que teve qualquer cousa de medieval pela grandeza, pelo brilho, até pela originalidade. A zorra conduzindo a Estátua chegou aqui no princípio da tarde de 25 — levou três dias e meio no trajecto —, e a admirável obra de Machado de Castro foi colocada, onde a estás vendo, na manhã do dia 27, ficando coberta por um invólucro de seda carmezim. A inauguração efectuou-se a 6 de Junho de 1775, e as solenidades, espectáculos e festas que se realizaram então foram das de maior esplendor da história de todos os tempos. 

Zorra, Museu Militar [1927] 
A zorra concebida por Bartolomeu da Costa que transportou para o Terreiro do Paço a estátua de D. josé I
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Coloquemo-nos em frente do monumento, que muito se valoriza no ambiente da Praça. O fundo natural norte é-lhe dado pelo Arco Triunfal, num cenário a que o Castelo, no alto longínquo, e a Sé, na sua silhueta superior, imprimem semblante histórico; defronte desenrola-se o estuário azul do Tejo, desafogado e alegre. 
O monumento favorecido pela situação ganha assim imenso, orgulhoso na vastidão do Terreiro.
A proporção nos elementos é, como facilmente anotas, um dos méritos dêste monumento. Não se dirá que o bloco de bronze de uma patina glauca que o enobrece, tem sete metros menos sete centímetros de altura e 29.371 quilos de bronze útil. Seria necessário colocarem-se quatro homens uns sôbre os outros em vertical para darem o tamanho da Estátua. O monumento mede 14 metros de altura.

Estátua equestre d'el-rei D José I e o Arco da rua Augusta [Início séc.. XX]
Praça do Comércio (Antigo Terreiro do Paço)
Grupo escultórico do lado esquerdo do monumento, representa A Fama.
Augusto Bobonee, in AML

Na frente do fuste, e sob uma escultura com as armas reais de D. José, ali vês o medalhão do Marquês de Pombal, que foi retirado dêste lugar logo em 1777 para só ser repasto novamente em 1833.
Por tal sinal-conta-se-que o grande Marquês, ao darem-lhe a noticia, observou entre irónico e resignado: «Ainda bem; o retrato não se parecia nada comigo...». A inscrição latina na base do pedestal exalta as virtudes do Rei.
Agora dêmos volta ao monumento, pela direita; ali tens a alegoria escultórica «O Triunfo› representado num grupo, em vulto, no qual se marcam uma figura que conduz um cavalo pisando aos pés os inimigos, avançando outra que conduz a palma da vitória; a alegoria, em baixo relêvo, na face norte do pedestal, em frente ao Arco da Praça, representa a «Generosidade Régia» erguendo a Cidade dos escombros do Terramoto, ou, segundo outras divisas, «Lisia desmaiada», ou seja Lisboa vencida pelo Terramoto, enquanto o govêmo da Nação a ajuda a erguer-se da ruína; o grupo escultórico da esquerda do monumento não é menos belo que os seus similares: dâ-nos a «Fama», com a sua tuba sonora, vendo-se as figuras de um homem prostrado e de um elefante.

Estátua equestre, em bronze, do rei D. José I
Gravura em cobre de Carneiro da Silva, 1774, executada antes da inauguração
Na frente do fuste, as armas reais de D. José  e o medalhão do Marquês de Pombal
reposto em 1833 conforme se lê na inscrição abaixo do busto
Museu de Lisboa

Se, peça por peça, desde a figura do Rei a cavalo, até ao pedestal, com seus grupos e esculturas, o monumento realça como uma grande peça de arte-é o seu conjunto, equilíbrio e nobre simplicidade que constituem o seu mérito. [3]

Baixo relevo de Machado de Castro, que está colocado no monumento do lado Norte (2ª foto)
Gravura, 1795

O monumento exibe na face oposta do pedestal (face Norte, vd. 2ª foto) uma alegoria de Machado de Castro em baixo-relevo à Generosidade régia (vd. Gravura, 1795), traduzindo o empenho do monarca na reconstrução da cidade destruída pela Terramoto.

Nota(s): Para saber mais sobre este magnifico monumento e o o seu autor, mestre Joaquim Machado de Castro, pode assistir a pequeno filme no n/ sítio do Facebook apresentado pelo escultor Lagoa Henriques e produzido pela RTP em 1971.

Bibliografia
[1] Archivo Pittoresc: semanario illustrado, p. 41, 1859) 
[2] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 23-25, 1939)
[3] (cm-lisboa.pt)

Friday, 26 May 2017

Avenida do Aeroporto, actual Avenida Almirante Gago Coutinho

Esta artéria quando da sua construção foi designada por prolongamento da Avenida Almirante Reis (Edital de 17/02/1947). Depois, como consta na informação municipal datada de 23/07/1956, passou a ser conhecida como Avenida do Aeroporto.

Avenida do Aeroporto, actual  Avenida Almirante Gago Coutinho [c. 1940]
 Panorâmica, de Sul para Norte (Portela)
Eduardo Portugal, in AML

O Aero-Club de Portugal sugeriu em 23/07/1956 a atribuição do nome «Avenida Gago Coutinho-Sacadura Cabral» à Avenida do Aeroporto, mas a Comissão Municipal de Toponímia discordou porque «deverá seguir-se a orientação até agora adoptada de só se consagrarem na toponímia da cidade nomes de individualidades que tenham falecido há alguns anos, lembrando, entretanto, que o nome de Sacadura já se encontra atribuído a uma avenida da capital». Assim, desde 2 de Janeiro de 1960, esta via pública que detêm a legenda «Sábio e Herói da Navegação Aérea», homenageia Carlos Alberto Viegas Gago Coutinho (1869-1959), alfacinha que viveu na Rua da Esperança e foi um almirante pioneiro da aviação.  
 
Avenida do Aeroporto, actual  Avenida Almirante Gago Coutinho [1945]
 Panorâmica, de Sul para Norte
Ferreira da Cunha, in AML

Por edital de 09/12/1989, o troço desta Avenida compreendido entre a Praça do Aeroporto (vulgo Rotunda do Relógio) e o Edifício do Aeroporto de Lisboa, passou a denominar-se Alameda das Comunidades Portuguesas. [cm-lisboa.pt]

Avenida do Aeroporto, actual  Avenida Almirante Gago Coutinho [c. 1940]
 Panorâmica, de Norte para Sul (Areeiro)
Eduardo Portugal, in AML

Wednesday, 24 May 2017

Palácio dos Marqueses de Lavradio

É êsse edifício que ai vês entre as Travessas do Conde de Avintes e das Freiras, artèriazinhas cheias de notas populares e pitorescas, que remontam ao tempo da construção do palácio, e envelheceram mais depressa. [1]
 

Em 1745, D. Tomás de Almeida, 1º Cardeal Patriarca de Lisboa, em terrenos que adquirira a seu irmão, mandou demolir a residência familiar que neles existia e edificar este palácio ao estilo da época, segundo projecto do arqº. João Frederico Ludovice. Concluída a obra, doou o palácio a seu sobrinho, D. António de Almeida Soares Portugal de Alarcão Eça, 1º Marquês do Lavradio, 4º Conde de Avintes e Vice-Rei do Brasil.
Pouco afectado pelo Terramoto de 1755, manteve-se na posse da família até que, em 1875, foi adquirido pelo Estado (por 15.300$000 réis), tendo conhecido obras de adaptação para acolher os tribunais militares (designadamente a transformação da capela em vestíbulo para as dependências do Supremo Tribunal Militar).

Palácio dos Marqueses de Lavradio [1930]
Campo de Santa Clara; Travessa das Freiras; Travessa do Conde de Avintes

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
 
Traduzindo uma arquitectura barroca joanina, o palácio organiza-se dentro de um quadrilátero trapezoidal, em torno de um pátio rectangular, desenvolvendo-se em três pisos.
A fachada principal, estruturada em três corpos separados por pilastras de cantaria, é rasgada ao centro, no piso térreo, pelo portal, ao qual se acede por curta escadaria de lanço único. O piso nobre é rasgado por três janelões rectangulares, rematados por cornijas curvas, onde o central, de sacada, abre para uma varanda com guardas de ferro. O remate do edifício é feito por platibanda de balaústres ritmada por plintos, interrompida no corpo central, que surge rematado por frontão triangular, ostentando as armas reais, e encimado por uma estátua figurando a «Justiça».
No interior merecem referência: o átrio, pelo revestimento azulejar polícromo setecentista dos muros, em torno da representação das armas dos marqueses de Lavradio; a escada, pelos painéis de azulejos representando cenas galantes e de caçadas e pelo tecto com decoração em estuque; e algumas salas, pela componente decorativa que evidenciam, lambris de azulejos e trabalhos de estuque nos tectos. [2]

Bibliografia
[1] (ARAÚJO, Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 77)
[2] (cm-lisboa.pt; monumentos.pt)

Sunday, 21 May 2017

Chafariz(es) do Campo Grande

Ora agora se abre o Campo Grande — desde 1937 denominado Campo 28 de Maio [até 1948]. Era por ai fora o famoso Campo ou Campos de Alvalade, cuja história remonta ao século XIII.

Foi o Campo de Alvalade, pelo decorrer dos séculos, sitio escolhido para edificação de solares nobres arrabaldinos, e algumas vezes destinado a concentração de exércitos; os têrços que D. Sebastião arrastou a Alcácer Quibir por aqui se exercitaram. (...) A plantação do Parque. do Campo Grande deve-se a D. Rodrigo de Sousa Coutinho, Ministro de D. Maria I. (Araújo, 1939)

 

Campo Grande, lado oriental [c. 1941]
Ao centro, o Chafariz do Campo Grande
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa

primeiro chafariz [vd. 2ª imagem] que existiu no Campo Grande terá sido construído entre 1813-1816. Sérgio Veloso de Andrade, em «Memória sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa, Belém, e muitos logares do termo» refere um chafariz no Campo Grande que, segundo afirma, pertencia ao sistema inaugurado em 1816, do qual também fazia parte o Chafariz das Mouras, na Alameda das Linhas de Torres, provavelmente da autoria do arquitecto José Therésio Michelotti
Conforme descreve, a água que abastecia os dois provinha do “Sítio das Mouras e escasseava frequentemente, obrigando a obras adicionais para procura de novos mananciais. Veloso de Andrade não dá contudo indicações suficientes para uma localização mais precisa do chafariz do Campo Grande. Contudo, conjugando esta descrição com o referido projecto, é possível supor que aí estará indicado o que viria a ser o primeiro chafariz que existiu no Campo Grande e a linha do respectivo canal de abastecimento. Luis Gonzaga Pereira (1796-1868) inclui, na colecção de desenhos de chafarizes de Lisboa que efectua entre 1820 e 1840, um com a legenda “Nº 28. Chafaris do Campo Grande”. Logicamente, este será o chafariz a que se refere Veloso de Andrade, até porque consta no desenho uma lápide no seu espaldar onde está inscrito “REAL OBRA DE AGOA LIVRE ANNO D 1816”, o que concorda com o que Veloso de Andrade afirma acerca do seu ano de inauguração. Este autor também representa, no cimo deste chafariz, a estátua de uma figura humana masculina de barba, empunhando um tridente, com uma coroa na cabeça e um panejamento envolvendo parte do corpo.
Nas notas que acrescentou no final da sua obra em Dezembro de 1851, Veloso de Andrade refere que este chafariz estava em vias de ser demolido, para ser substituído por um novo, alimentado por outra água, proveniente da mesma nascente do Chafariz de Entrecampos, cuja inauguração foi nesse mesmo ano. Este autor afirma também que “O Neptuno, que se achava no sobredito Chafariz, (e já tinha servido no antigo Chafariz do Rocio) foi d'ali deslocado, para hir servir de remate no Chafariz d'Alcantara”(Andrade, 1851).

Nº 28.Chafariz do Campo Grande [1821]
Demolido em 1851

Desenho aguarelado, Luiz Gonzaga Pereira

Demolido o primeiro, será o segundo chafariz, que ao sobreviver até à década de 1940, ainda foi a tempo de ser fotografado, nas suas duas frentes, por Eduardo Portugal. Tendo por base a planta de Silva Pinto de 1907, (e o Google Street View) é possível localizar o chafariz defronte do actual impasse entre os nºs 286-B e 292 (actual Rua José Santa Camarão).

Chafariz do Campo Grande, frente Este [séc. XIX]
Fotógrafo não identificado, in Arquivo Municipal Lisboa
Chafariz do Campo Grande, frente Oeste [c. 1941]
A casa de pasto (no nº. 272), atrás à direita, ainda lá está, ajudando à localização exacta do antigo chafariz

Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 65)
(rossio.estudos de lisboa n.º 02, CML, 2013)
(monumentos.pt)

Friday, 19 May 2017

Palácio Pancas, Palha ou Van-Zeller

Aqui, na esquina dos Barbadinhos e da Rua de Santa Apolónia — recorda-nos o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújoergue-se um magnífico Palácio, cujos amplos jardins, a norte, encostam ao muro de uma rua, antiga, sem saída que separa a muralha de sustentação do adro de Santa Engrácia dos terrenos do aludido palácio.


No meado do século XVIII era êste o solar — creio-o bem — de D. Luiz de Menezes, Senhor de Pancas e da Ponte da Barca.  
Pertencia no final do século passado [séc. XIX] a Fernando Palha, da familia Pereira Palha Faria de Lacerda, da qual em linha direita faziam parte o ilustre homem do teatro português, Francisco Palha, e uma senhora, irmã dêste, D. Maria Georgina, que casou com o 1.° Conde da Foz.
Pertence hoje [em 1939] o prédio a D. Maria Luiza Graça Van-Zeller, da família ainda dos Pereira Palhas, que habita na parte principal, ao poente, portal n.° 20, sôbre Santa Apolónia; na parte nascente habitava quando faleceu, há poucos meses, Júlio Wemans, que foi director de fabrico das Companhias dos Tabacos.

O palácio, armoriado no seu cunhal do lado poente [Calçada dos Barbadinhos vd. 2ª foto], [e a nascente] esquina da Travessa de Lázaro Leitão, por onde tem uma entrada por um pórtico nobre, n.° 1, adorna-se de catorze elegantes varandas do lado da Rua de Santa Apolónia e ainda de três do lado da Travessa.

Palácio Pancas, Palha ou Van-Zeller [1932]
Rua de Santa Apolónia e  Tv. do Recolhimento de Lázaro Leitão (1ª transversal)

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Legenda  da foto no arquivo: «Aspecto da enxurrada na zona dos Caminhos-de-Ferro»

A história deste edifício remontará ao séc. XVI (8e a sua traça actual datará do séc. XVII) ao reinado de D. Sebastião, altura em que Manuel Barreto Quaresma possuía uma de recreio nesta zona oriental de Lisboa. O palácio de planta composta em L [vd. 4ª imagem] é formado por  dois corpos ladeando um pequeno jardim de carácter romântico.  Já no século XX foi adquirido pela Câmara Municipal que aqui efectuou um projecto de adaptação a outras funções segundo projecto de Frederico George.


Palácio Pancas Palha [1968]
Pedra de armas dos Pereiras, Farias e Almeidas (família Palha)
que se encontra no cunhal ao nível do piso nobre do Palácio viradas
para a Rua de Sta. Apolónia e para a Calçada Dos Barbadinho
s
Armando Serôdio, in AML

Palácio Pancas Palha [1959]
Pedra de armas dos Pereiras, Farias e Almeidas (família Palha)
que se encontra no cunhal ao nível do piso nobre do Palácio viradas
para a Rua de Sta. Apolónia e para
a Tv. do Recolhimento de Lázaro Leitão

Armando Serôdio, in AML

Classificado como Imóvel de Interesse Público,são de destacar a entrada do edifício em pátio aberto para carruagens e a escadaria nobre. No interior são de realçar a sala dos frescos, decorada com pinturas de motivos campestres,o salão de música ou salão nobre, a capela com baptistério,o jardim e os espaços de lazer e estar.

Palácio Pancas, Palha ou Van-Zeller (Conjunto)
Levantamento da Planta de Lisboa [fragmento]: Vieira da Silva Pinto, 1909, in AML
Legenda (clicar para ampliar) :
Vermelho: Palácio Pancas, Palha ou Van-Zeller (Conjunto) Laranja: Frente virada à Rua de Santa Apolónia e à Tv. do Recolhimento de Lázaro Leitão (1ª foto) Verde: Rua de Santa Apolónia Azul: Calçada dos Barbadinhos Amarelo: Rua do Alviela, Muro

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 26, [1939])
(monumenros.pt)

Tuesday, 16 May 2017

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama

Do Espírito Santo é a sua verdadeira e primitiva evocação, pois ao «Santo Espírito» foi dedicada quando da sua fundação em 1551, pôsto que haja quem o suponha mais antigo. [1]


Os navegantes e pescadores da Alfama, em irmandade, tinham neste sítio um pequeno hospital para os irmãos, com capela própria, que é aquela á que estamos fazendo referência. A Irmandade, porém, era mais antiga, havendo sido instituída na paroquial de S. Miguel, antes mesmo de se criar a Misericórdia; neste local foi erigida depois a Ermida privativa, porque os empertigados homens do mar, cujo juiz era o corregedor do crime no bairro, não se quiseram sujeitar ao prior de S. Miguel, proclamando dêste modo a sua independência, e obtendo mesmo da cúria romana várias bulas de privilégios. [...]

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama  [1899]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Machado & Souza, in AML

Agora cabe perguntar, e a curiosidade admite-se: como se transmudou o orago, de Espírito Santo, em Nossa Senhora dos Remédios? Parece que foi como passo a dizer; a lenda é um subsidio irresistível.
Nesta Ermida do Espírito Santo havia um poço, onde certo dia apareceu uma imagem de Nossa Senhora, a qual, a-pesar-de ser tirada da água, vinha enxuta em sua pintura e tecido. Milagre foi! E acorriam os pescadores e famílias a implorar à Virgem remédio a seus males, e Nossa Senhora os curava. Daí a receber a imagem a invocação de Nossa Senhora dos Remédios foi um salto de barca atracada ao cais da Ribeira.
E nunca mais se falou no Espírito Santo. Ninguém como os pescadores e mariantes para realisar estes milagres. [...]

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama  [1899]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Machado & Souza, in AML

O Pórtico desta Ermida [3ª foto], considerado monumento nacional, esculpiu-se em estilo manuelino, sobrepujado por cartel onde se vê a pomba simbólica do Espírito Santo. Sôbre a porta travessa da Ermida aí tens uma data: 1757, a do restauro [foi quase totalmente destruída pelo Terramoto]. A Ermida dos Remédios é agora pobre, mas simpática; casa onde os pescadores iam orar de muito não precisava. De que precisará hoje? Uma vista de olhos nos basta.

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama  [c. 1900]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Portal manuelino, classificado como Monumento Nacional
José Artur Leitão Bárcia, in AML

O corpo da Ermida [4ª foto] ostenta dois altares apenas, o de Nossa Senhora da Conceição. com Santo António e S. José, e o de S. Joaquim, com Nossa Senhora da Piedade e S. Sebastião. No altar-mór vê-se Nossa Senhora dos Remédios, ingénua imagem de agradável semblante — pequenina, de andor de aldeia —, e ao lado S. Pedro e S. Pedro Gonçalo. A Capela-mór é de boa pedra, mas a sua modesta figuração não desdiz do abandono a que o pequeno templo tem sido votado, a-pesar-de nele, uma vez ou outra, se fazer o culto.

Ermida do Espírito Santo ou dos Remédios de Alfama, interior  [1963]
Rua dos Remédios; Rua da Regueira; Beco do Espírito Santo
Armando Serôdio, in AML


Bibliografia 
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 95 a 97)

Saturday, 13 May 2017

Estádio do Sport Lisboa e Benfica

O dia 1 de Dezembro de 1954 é a data que assinala um dos maiores feitos da história benfiquista  — a inauguração do Estádio do Sport Lisboa e Benfica, popularmente conhecido por Estádio da Luz.

Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.
("Eusébio"por Manuel Alegre)

A elaboração do projecto do "Novo Parque de Jogos" foi entregue ao arquitecto João Simões, antigo futebolista do Clube, nas categorias inferiores, entre 1925/26 e 1929/30, que teve a sabedoria de conceber um conjunto de recintos desportivos magnífico para o estádio principal e para os espaços desportivos envolventes, uma obra arquitectónica notável, que, apesar de concluída apenas 40 anos depois, seguiu as "linhas gerais" definidas em finais dos anos 40 por João Simões, o que enaltece a genialidade do projecto inicial.

Estádio da Luz [ca. 1954]
Vista do campo de jogos. Benfica (S. Domingos) - terrenos à direita da Azinhaga da Fonte, que liga o Calhariz de Benfica ao Largo da Luz, em Carnide
Estúdio Horácio Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

Finalmente, às 11 horas do dia 1 de Dezembro de 1954, o emocionado líder do Clube, e maior responsável pela passagem do sonho à realidade, Joaquim Ferreira Bogalho, abre simbolicamente uma das portas de acesso ao Estádio, inaugurando um dos mais belos recintos desportivos do mundo. O Recinto viria a acompanhar o futuro crescimento desportivo e associativo do Clube. Originalmente com "dois anéis", sem iluminação e isolado, seria mais tarde dotado de torres de iluminação (1958), de um 3º anel construído em duas fases (1960 e 1985, permitindo aumentar a sua lotação para 70 000 e 120 000 pessoas, respectivamente) e de inúmeras infraestruturas desportivas à sua volta. A 04/01/1987, por ocasião da 15.ª jornada do Campeonato Nacional de 1986/87, frente ao FC Porto, o Estádio da Luz registaria a maior assistência de sempre: 135 000 pessoas!

Bibliografia
(slbenfica.pt)

Friday, 12 May 2017

Madame Brouillard: a «bruxa do Chiado»

«Ir consultar a Madame Brouillard» — anotou Fernando Pessoa, entre outros afazeres projectados, numa folha de agenda de 1913, mas não se sabe se algum dia chegou a realizar o seu intento. Pessoa iniciara-se já nas artes da astrologia e numerologia, conversava com espíritos e andava imerso nos textos da escola teosófica da russa Madame Blavatsky


Ao longo de 1915, como nos anos anteriores e ulteriores, a quiromante e fisionomista Madame Brouillard (palavra francesa para nevoeiro) publicou semanalmente um anúncio na llustração Portugueza [, oferecendo os seus serviços. As consultas, procuradas por gente da alta-roda, tinham lugar no seu gabinete à Rua do Carmo, 43 [2ª imagem], em Lisboa, e um custo que variava entre 1$000 e 5$000 réis. Um célebre governante da Monarquia, João Franco, tinha sido seu cliente.

Madame Brouillard no seu consistório na Rua do Carmo, 43 [1909]
Madame Josefina Brouillard, a conhecida quiromante que predisse
a queda do império no Brasil

Joshua Benoliel, in Arquivo do Jornal O Século

A «bruxa do Chiado», como também era designada, era uma transmontana de Vila Real, nascida em 1852, de seu verdadeiro nome Virgínia Teixeira, que em jovem tinha corrido mundo. De Espanha, para onde teria sido levada por um marido, passara à França, à Rússia e ao Brasil, até por fim estabelecer consultório numa sobre-loja da Baixa lisboeta. Amassou boa fortuna, ao ponto de se ter tornado proprietária do prédio em que exercia a sua profissão. Dizia falar seis línguas e ter predito no Brasil a queda do Império (1889), como apregoava no seu anúncio, mas não se sabe se em Portugal foi tão certeira na ante-visão do fim da Monarquia e do que se lhe seguiu. 

Anúncio inserto na llustração Portugueza, 5 de Novembro de 1915

O êxito de Madame Brouillard contribuiu para multiplicar o número de videntes, cartomantes, sonâmbulas e quiromantes que apareceram a fazer-lhe concorrência na capital. Percorrendo os jornais e revistas daquele período, entre anúncios de médicos e advogados, elixires para a queda de cabelo, pastilhas para a virilidade, xaropes para a tosse, cremes para as hemorróidas e depurativos para a sífilis, ficamos a conhecer os nomes de algumas dessas pitonisas. Mademoiselle Rolland, à frente de um propalado «Instituto Electro-Magnético», ocupava-se exclusivamente de casamentos e amores não correspondidos. Mademoiselle Tula, uma sonâmbula, tratava de amor, negócios e doenças. Madame Virgínia, vidente cartomante, dizia o passado, o presente e o futuro, com o início da guerra, a avalanche de videntes aumentara. 
Em 1916, A Capital desencadeará uma campanha contra «magos, bruxos e nigromantes», neles incluindo astrólogos e grafólogos, toda uma «charlatanesca multidão de exploradores», que invadira a capital e cuja acção era comparada a (um veneno subtil que pouco a pouco se ia instalando no «organismo social». O clima de incerteza provocado pela guerra aumentou a procura, mas o que alimentava mais o negócio eram as questões amorosas. Como alternativa às videntes, havia os livros. Em 1915 publicou-se O Triunfo do Amor: Como se Domina a Mulher, de Octave Fardel, que além de ensinar a conquistar, também indicava o modo de conseguir que «uma pessoa nos esqueça em absoluto»[1] 

Rua do Carmo [ca. 1903]
Na s/loja do prédio nº 43, que se vê do lado esq., funcionava 

o consultório de Madame Brouillard, prédio esse 
que veio mais tarde à posse da vidente
Alexandre Cunha, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia 
[1] (BARRETO, José (2015). O ano do Orpheu em Portugal. In Steffen Dix (Org.) 1915: o ano do Orpheu, pp. 79-81)

Wednesday, 10 May 2017

Estação de Metro do Campo Pequeno

A estação do Campo Pequeno é uma das onze estações pertencentes à 1ª fase do 1º escalão da construção da rede do Metropolitano de Lisboa, abriu ao público em 1959 quando da inauguração da rede. Em termos arquitectónicos e artísticos seguiu o programa então adoptado para todas as estações desse escalão, o projecto arquitectónico é da autoria do arq.º Falcão e Cunha e o revestimento de azulejos da autoria da pintora Maria Keil.
Para esta estação, o revestimento de azulejos criado por Maria Keil é constituído por uma malha de linhas oblíquas brancas ou ocres que se entrecruzam sobre um fundo azul claro, definindo um padrão que lembra uma estrutura cristalina. Aqui e além, alguns dos elementos deste padrão são coloridos a ocre ou a branco e preto, ganhando volume, destacando-se assim do plano de fundo.

Avenida da República [196-]
Entrada da estação do Metro junto ao cruzamento da Avenida de Berna 
Estúdio Horácio Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

Em 1994 foi totalmente remodelada com projecto arquitectónico dos arq.º Duarte Nuno Simões e arq.º Nuno Simões. Para a animação plástica foi convidado o escultor Francisco Simões que seguiu uma linha temática decorrente do historial do local onde a estação se insere.
O local da estação é uma zona de Lisboa onde até durante a primeira metade do século se dava a entrada na cidade das populações das zonas rurais que a envolvem, e que vinham à cidade vender os seus produtos.
Francisco Simões com este seu trabalho vai homenagear estas figuras típicas. Escolheu como matéria prima os inúmeros e belíssimos mármores portugueses, lioz, de Pêro Pinheiro, azulino, de Maceira, encarnadão e amarelo de Negrais, rosa de Vila Viçosa, ruivina de Estremoz, brechas de Tavira, negro de Mem Martins, verde de Viana do Alentejo, cinzento de Trigaches e azul da Bahia no Brasil e ainda pedras semi-preciosas, como ágata e onix.
Nas plataformas podemos apreciar painéis alusivos à Festa Brava, construídos a partir de um minucioso trabalho de embutidos de diversos mármores, os painéis dos átrios das bilheteiras seguem a mesma temática mas são gravados.

Avenida da República [entre 1955 e 1959]
Obras da estação do Metro do Campoo Pequeno junto ao cruzamento da Avenida de Berna 
Judah Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
(Metropolitano de Lisboa, E.P.E.)

Sunday, 7 May 2017

Rua (Direita) do Lumiar

Mais para norte da cidade, na zona do actual Lumiar, existiriam, na Lisboa medieval, estruturas de tipo militar. Havia um acampamento, muito possivelmente ligado à torre de aviso ou farol que aí se levantava, que deu origem ao actual nome "Lumiar". É, no mínimo, curioso e possivelmente significativo que na zona ainda subsista o topónimo "Torre do Lumiar". Serviria esta torre ou almenara para observar movimentos militares a norte da cidade e avisá-la, quando os movimentos o justificassem.

 

Calçada de Carriche Rua do Lumiar [Inicio séc. XX]
Antiga Rua Direita do Lumiar; ao fundo vê-se o começo da Calçada de Carriche; à dir. abre-se a Rua da Castiça  antigo troço da Estr. da Ameixoeira. O topónimo Rua da Castiça
(1985) recorda uma figura muito estimada de uma comerciante que ali exerceu actividade durante muitos anos.
Eduardo Portugal Fotógrafo não identificado, in AML

Rua Direita era a designação comum usada para a rua principal de um lugar e a Rua Direita do Lumiar já aparece mencionada em documentação do séc. XVI mas só por Edital de 08/06/1889 passa a designar-se Rua do Lumiar.
Refira-se que a freguesia do Lumiar só integrou o concelho de Lisboa a partir de 1885, por via da reforma administrativa introduzida pelo Decreto de 18 de Julho, e que o Edital municipal de 8 de Junho de 1889, que contemplou perto de 60 arruamentos, procurou organizar os novos territórios que passaram a integrar Lisboa e assim mudou topónimos com vista à sua simplificação e, também, à sua diferenciação de outros idênticos existentes noutras partes da cidade.

Estrada do Desvio Rua do Lumiar [Inicio séc. XX]
Antiga Rua Direita do Lumiar; os edifícios que vêem
ao fundo, no começo da Calçada de Carriche, foram  demolidos na década de 1960
Paulo Guedes, in AML
 
Bibliografia
(CRUZ,Luís, MIRANDA, Maria Adelaidea, ALARCÃO, Miguel (org.), A Nova Lisboa Medieval, p. 35, 2005)
(cm-lisboa.pt)

Friday, 5 May 2017

Os duelos na Estr. da Ameixoeira

Os duelos em defesa da honra aparecem abundantemente mencionados na obra literária de Eça de Queiroz. Em Os Maias, por exemplo, a páginas tantas, Ega informa Carlos da Maia de que Dâmaso Salcede anda a difamá-lo a ele e a Maria Eduarda. Carlos fica furioso, querendo matá-lo e desafia-o para um duelo.  O  duelo — escreve Eça — devia  ser  à  espada  ou  ao  florete,  um  desses  ferros cujo lampejo, na sala de armas do Ramalhete, fazia empalidecer o Dâmaso. Se contra toda a verosimilhança ele se batesse, Carlos fazia-lhe algures, entre a bochecha  e  o  ventre,  um  furo  que  o  cravasse  meses  na  cama. [1]


O duelo de honra ainda era, em 1915, uma instituição social e política em Portugal. Não era legal, pois desde l852 que o código penal estipulava penas correccionais para os duelistas e suas testemunhas, mas as autoridades fechavam os olhos ou transigiam muito na aplicação da lei. Apesar da proibição do duelo e da sua condenação pela igreja, por volta de 1900 um oficial ainda podia ser expulso das fileiras militares caso recusasse bater-se pela sua honra. com a República, a instituição do duelo começaria a declinar, mas não de imediato. No passado, vários políticos republicanos, como Afonso Costa [2º foto], tinham-se batido em duelos famosos. os duelistas eram principalmente políticos, militares, advogados e jornalistas, de qualquer quadrante político. Batiam-se de florete ou sabre e, mais raramente, à pistola.

Duelo entre Cristóvão Aires de Magalhães (de costas) e Óscar Monteiro Torres [16 de Junho de 1915]
Estr. da Ameixoeira (junto a Calçada de Carriche)
Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal de Lisboa

A Ilustração Portugueza, que não falhava o relato desses combates, noticiou a 28 de Junho de 1915 dois duelos ocorridos pouco antes. O mais documentado era um duelo de sabre que teve lugar na Estrada da Ameixoeira entre Cristóvão Aires, ex-capitão de infantaria, de 34 anos, e Óscar Monteiro Torres, tenente de cavalaria, de 26 anos, à data chefe de gabinete do Ministro da Guerra. Os duelistas tinham posições contrárias quanto à participação de Portugal na guerra europeia: o republicano Monteiro Torres, era a favor dessa participação, o monárquico Cristóvão Aires era partidário da neutralidade. Ao sétimo assalto, Cristóvão Aires foi ferido no braço (Portela, s.d.). Monteiro Torres seria pouco depois o primeiro português a obter um brevet de aviador e veio a morrer num combate aéreo em França, em 19 de Novembro de 1917, depois de abater dois aviões alemães. Foi o primeiro e até hoje único piloto aviador português a morrer num combate aéreo. Além de professor do Colégio Militar, Cristóvão Aires foi também jornalista e historiador, continuando a obra História Orgânica e Política do Exército Português, do homónimo general seu Pai. [2]

Duelo entre Afonso Costa (de costas) e o Conde de Penha Garcia [14 de Julho de 1908]
Afonso Costa do Partido Republicano.e o Conde de Penha Garcia do Partido Progressista. O duelo entre republicano e monárquico foi provocado por o primeiro ter dito que o segundo, enquanto ministro da Fazenda, dera 1,8 milhões de réis ao irmão do malogrado rei D. Carlos

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/leonardo-ralha/detalhe/os_duelos_na_ameixoeira?
Estr. da Ameixoeira (junto a Calçada de Carriche)
Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal de Lisboa

Bibliografia 
[1] (QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888) 
[2] (BARRETO, José (2015). O ano do Orpheu em Portugal. In Steffen Dix (Org.) 1915: o ano do Orpheu, pp. 78-79)

Wednesday, 3 May 2017

Do Vasto e Belo Porto de Lisboa

Do outro lado da linha — relembra-nos Norberto de Araújo —, encontramos as tuas conhecidas docas, cais acostável, Pôsto Marítimo de Desinfecção, ponte giratória e oficinas navais da Administração Pôrto de Lisboa. estas arrendadas por dez anos, desde 1 de Janeiro de 1937, à Companhia de União Fabril.

É nêste sitio que se situa — pode dizer-se — o coração do Pôrto de Lisboa. A extensão do pôrto é de 25 quilómetros, e a sua área de molhes ocupa 8.736 hectares. As suas cinco docas sêcas variam em comprimento, entre 42 e 180 metros. (...) [1]

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito. 

Vista do Porto de Lisboa, Cais da  Rocha do Conde de Óbidos [1919]
Perspectiva tirada do Miradouro da Rocha do Conde de Óbidos
Autor desconhecido

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue —
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui...

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Santos  [entre 1906 e 1910] 
Posto Marítimo de Desinfecção, vendo-se o navio de passageiros Alemão "Oreana".
Fotógrafo não identificado, in AML

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Alcântara [1936]
Autor desconhecido

Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte....
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh'alma... [2]

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Alcântara [1935]
Autor desconhecido

Bibliografia
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, [1939])
[2] (Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa), Ode Marítima, 1890)
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