sábado, 25 de fevereiro de 2017

Palácio Beau Séjour

A visita ao jardim e palácio Beau Séjour (“Boa Estadia”) é gratuita, mas deve-se ter muito cuidado porque dizem que está mal-assombrado e por lá andam as almas penadas dos antigos proprietários apoquentando os pobres mortais. 


Esta antiga Quinta das Louras ou das Loureiras, foi adquirida em 1849 por D. Ermelinda Allen de Almeida, viscondessa da Regaleira, e passou a ser conhecida por Quinta Beau Séjour, imitando o estilo francês. Com o passar do tempo ficou conhecida como Quinta das Campainhas, devido ao tilintar de umas campainhas de vidro de várias cores pendentes da cobertura metálica do coreto no jardim que se faziam ouvir á mais leve brisa. Em 1859 a baronesa da Regaleira, D. Isabel Allen Palmeiro, sobrinha e herdeira da viscondessa, vendeu esta quinta a António José Leite Guimarães (Guimarães, Pencelo, 21.8.1806 – Lisboa, 29.10.1876), primeiro barão de Glória, capitalista emigrado no Rio de Janeiro que faleceu solteiro sem deixar geração.

Palácio Beau Séjour [1968]
Estrada de Benfica, 368
Armando Serôdio, in AML

Finalmente, na década de 80 a Câmara Municipal de Lisboa adquiriu o imóvel e desde 1992 serve de instalação ao Gabinete de Estudos Olisiponenses. Pois bem, desde que o Gabinete de Estudos Olisiponenses se instalou neste palacete que os funcionários andam desesperados com a aparição inquietante da alma defunta do barão de Glória que por aqui anda a arrastar grossos volumes de livros e caixotes de documentos, mudando-os de sítio, para dias depois os mesmos funcionários encontrarem-nos no exacto lugar onde haviam procurado. O barão também é culpado, acusam, pelo deslizar e tilintar das chávenas em cima das mesas sem ninguém as tocar e pelo soar das campainhas que já não existem nesta quinta. Na cave, onde estão os arquivos, é onde se regista maior actividade dessa e outras andam mal-assombradas que se arrastam por aqui, um delas a própria viscondessa da Regaleira, dizem.

Palácio do Beau Séjour, no século XIX(?) na quinta do mesmo nome (ou Quinta das Campainhas). Ao longe, a Serra do Monsanto.
Entre a quinta e Monsanto, passa o comboio (ainda a vapor) da linha de Sintra.

Aliás, conto a seguinte história que muitos têm por absolutamente verídica e até juram pela sua honra que assim aconteceu:
Certa noite a campainha da porta tocou e o funcionário de serviço foi abrir. Não viu ninguém. Tornou a fechar a porta e a campainha voltou a tocar. Novamente não viu ninguém. A campainha voltou a tocar e o funcionário, aborrecido e contrariado, gritou: 
— Quem está aí? 
Então, ouviu-se uma voz rouca do outro lado da porta: 
— É o barão de Glória! 
E mais atrás uma outra voz, tíbia e tímida, acrescentou:
— E a viscondessa da Regaleira também! 
O homem apanhou um susto de morte e nessa mesma noite despediu-se do emprego. Enfim, fábulas urbanas que enriquecem o imaginário fantástico lisboeta. Mas vale muito bem a visita a este palacete que conta com uma das maiores colecções de arte romântica e naturalista portuguesa, cujas peças restauradas estão expostas ao público. É notável o denominado Salão Dourado ocupando a zona nobre do edifício e ostenta no tecto a grande tela de Columbano Bordalo Pinheiro, Carnaval de Veneza. Também na chamada Sala de Música, igualmente transformada em sala de leitura, Francisco Vilaça executou magníficos estuques figurando instrumentos musicais. Merece a visita demorada este singelo palacete oitocentista, e pode muito bem acontecer que o visitante seja recebido à entrada pelo fantasma do próprio barão de Glória e a alma penada da viscondessa da Regaleira lhe seja guia nestes seus antigos aposentos.
  
Bibliografia
(Mistérios de Lisboa, lendas e factos, por Vitor Manuel Adrião)

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