Tuesday, 31 January 2017

Antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste

Embarcámos de manhã cedo para o Barreiro, testa do Caminho de Ferro de Sul e Sueste, na ponte do Terreiro do Paço, em frente do Pavilhão da Marinha. Uma vez em cima das águas, eu, que nunca vira navios, por efeito da transmissão sensorial das gerações, era como se voltasse a encontrar coisas vistas e triviais. 

RIBEIRO, Aquilino (1885-1963), Um Escritor Confessa-se. [c. 1902] 


Antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste [c. 1910]
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)
Substituída em 1932 pela actual Estação Sul e Sueste no lado nascente da Praça do Comércio
Joshua Benoliel, in AML

Situada frente ao torreão poente da Praça do Comércio, junto ao Arsenal da Marinha, a «ponte do Terreiro do Paço», então um «barracão assente sobre estacaria que envergonha a capital» conforme inteirava o Guia de Portugal de Raul Proença, era a Estação dos Caminhos-de-Ferro e Vapores do Sul e Sueste (projectada para não ter comboios), da qual partiam os vapores para a estação do Barreiro, para a Aldeia Galega (Montijo) e Seixal.

Antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste [c. 1910]
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)
Substituída em 1932 pela actual Estação Sul e Sueste no lado nascente da Praça do Comércio
Joshua Benoliel, in AML

Durante mais de meio séculodiz Rodrigues Miguéiso alfacinha da gema pingou lamentos em frente do barracão que deslustrava a Praça, sala dos passos-perdidos da Europa. Era provisória e durou quase cem anos. Prestou grandes serviços que nunca lhe reconheci. E não é que não tivesse dela boas recordações... Há por esse mundo além muitas e piores fealdades que se encontram servindo, em cidades ricas e orgulhosas: Não importa, aquilo feria-me a sensibilidade ociosa. Odiei-a. Pois bem, inaugurada a estação nova, do lado oposto — mais passeios à noite, considerações urbano-estéticas, lamentos, e tal —, quem-me-acode, que aquilo ofende a melodia geométrica da Praça, a imponência da Alfândega vista do rio, e que sei eu.
MIGUÉIS, José Rodrigues (1901-1980), As Harmonias do «Canelão» - Da Mania das Grandezas, p. 72, 1974

Antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste [ant. 1908]
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)
Substituída em 1932 pela actual Estação Sul e Sueste no lado nascente da Praça do Comércio
Fotógrafo não identificado, in AML

Engalanada por diversas ocasiões, pois ela foi átrio de recepção dos mais ilustres visitantesEduardo VII, a rainha Alexandra, o Presidente Loubet, o imperador Guilherme II, Afonso XIII, constam da lista dos chefes de Estado que visitaram Lisboa no início do século XX, a Praça do Comércio foi também palco de tragédias. Foi na ponte dos Vapores do Sul e Sueste queás quatro horas e meia da tarde do dia 1 Fevereiro de 1908atracou o vapor que do Barreiro conduzia o rei D. Carlos, a rainha D. Amelia e o principe real D. Luís Filipe. Estavam a cem passos da morte.

Fotografia aérea da praça do Comércio, que ilustra o posicionamento da antiga Estação dos Caminhos-de-ferro e Vapores do Sul e Sueste (à esq.) e a  Estação Fluvial Sul e Sueste (à dir.) [1932]
Manuel Barros Marques, in AML

Sunday, 29 January 2017

Palacete Vilhena

Vamos entrar na Rua de S. Bento, que bem corrida dá pelo menos dez tostões por dia. Isto dizia-se há cinqüenta anos àcêrca dos mendigos de profissão; tão comprida é a rua que, com método e paciência, um «pobre», começando cedo, e recolhendo um óbulo de de cinco réis em cada uma das duzentas portas onde batesse, ganhava a sua jorna.


O nome do sítio de São Bento data do séc. XVI em que o topónimo do local era feito por referência ao Convento de frades beneditinos que vieram de Tibães.
Segundo o olisipógrafo Norberto Araújo, em Peregrinações em Lisboa, da Rua dos Poços dos Negros até ao Largo passado o Arco de S. Bento, o topónimo Rua de S. Bento seria antigo. Dali para cima até ao Rato, considerava ser do séc. XVIII já que eram os Olivais de S. Bento e antes Rua Nova de Colónia
Segundo outro olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo, em Lisboa de Lés-a-Lés, o troço superior da Rua de S. Bento poderia anteriormente ter sido designado como Rua de S. Bento às Trinas, por referência às Trinas do Rato.

Palacete Vilhena [entre 1901-1908]
Rua de S. Bento, 183-189
Ao fundo, a casa onde viveu a fadista Amália Rodrigues
Machado & Souza, in AML

Ora, Dilecto, observa quão delicada é, em bom gôsto português, a edificação urbana da esquina da Rua de Santo Amaro, lado norte, n.°* 183-185 189, com suas doze sacadas muito unidas, num único andar; o prédio, que foi restaurado da primitiva traça setecentista por Tertuliano Marques em 1933 (existia em 1763), pertenceu à família Leite Ribeiro Freire e no fim do século passado era do chefe político e académico Dr. Júlio de Vilhena, pertencendo hoje a seu filho Dr. Ernesto de Vilhena, que nele habita.
Esta antiga residência classificada como património do Município de Lisboa foi reabilitada em 2008 e transformada empreendimento residencial.

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 32)
(cm-lisboa.pt)

Thursday, 26 January 2017

Rua da Beneficência

Chegamos assim ao velho Largo do Rêgo, que a urbanização trivializou, junto do qual correu a pitoresca Rua das Cangalhas [actual Avenida Conde de Valbom] de que há meses restavam quatro paredes. Já agora enfiemos pela antiga Estrada do Rêgo, depois Rua de Sousa Holstein, modernamente Rua da Beneficência. [1]

Rua da Beneficência [c. 1950]
Passagem de nível do Rego
Judah Benoliel, in AML

A Rua da Beneficência foi atribuída por Edital de 18/12/1903 ao arruamento que vai ao Largo do Rego a Palma de Cima, em homenagem à Duquesa de Palmela, e às preocupações beneméritas que sempre teve ao longo da sua vida. 
Refere-se à 3ª Duquesa de Palmela, de seu nome D. Maria Luísa Domingas de Sales de Borja de Assis de Paula de Sousa Holstein (1841-11909) cuja filantropia lhe marcaram um lugar único, nomeadamente, na Assistência Nacional aos Tuberculosos, nos Socorros a Náufragos, em asilos, missões ultramarinas, institutos de proteção à infância e na fundação das Cozinhas Económicas, com sua prima Maria Isabel Saint-Lèger, tendo sido também a sua primeira presidente.
Foi também dama da Rainha D. Amélia e dedicou-se à escultura, havendo trabalhos seus no Museu do Chiado e na Sociedade de Geografia de Lisboa, assim como se interessou pela cerâmica e juntamente com a Condessa de Ficalho fundou a Fábrica do Ratinho no seu próprio palácio. Foi distinguida com a Ordem de Santiago, a Ordem de Santa Isabel, Ordem de Maria Luísa (Espanha) e Académica de Mérito da Academia Nacional de Belas-Artes. [2]

Rua da Beneficência [c. 1950]
Passagem de nível do Rego
Judah Benoliel, in AML

Bibliografia
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 58)
[2] (cm-lisboa.pt)

Tuesday, 24 January 2017

Igreja de N. S. de Fátima

Quando foi construída, a Igreja de N. S. de Fátima suscitou «bastante polémica», levando à intervenção do então cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), em defesa dos arquitectos, dirigidos por Porfírio Pardal Monteiro, e dos artistas, entre os quais Almada Negreiros.


A Igreja de Nossa Senhora de Fátima, do orago de Nossa Senhora do Rosário, começou a ser construída em 1934 em terrenos adquiridos a particulares, principalmente à família Canas, pela «Sociedade Progresso de Portugal» depois da transacção pela qual o Banco de Portugal adquiriu em Junho de 1933 à arquiconfraria de S. Julião o edifício desta igreja, para ampliação das suas instalações, sendo então aquela Sociedade encarregada de erigir um novo templo, que perdeu o tradicional e tão justificado orago de S. Julião.

Igreja de N. S. de Fátima [c. 1938]
Prémio Valmor de 1938
Avenida Marquês de Tomar com a Avenida de Berna
Uma alta tôrre, lateral, faz como que sentinela à fábrica religiosa, no jeito arquitectónico de certas construções alemãs (ARAÚJOO, 1939)
Fotógrafo desconhecido, in Arquivo Municipal Lisboa

Primeiro templo católico construído em Lisboa após a proclamação da República. Inaugurada em 1938, com projecto do arq. Porfírio Pardal Monteiro, foi-lhe atribuído o Prémio Valmor desse ano. Classificada como Imóvel de Interesse Público, traduz uma linguagem claramente moderna, e é composta por ampla nave central e duas colaterais, abside envolvida por vitrais, pequeno nartex de entrada, baptistério em corpo exterior junto à entrada e capela mortuária. Conta com peças de grandes artistas plásticos da época, destacando-se os vitrais e mosaicos atribuídos a Almada Negreiros, as esculturas de Francisco Franco Leopoldo de Almeida, as pinturas de Lino António, entre outras. 

Igreja de N. S. de Fátima [c. 1938]
Prémio Valmor de 1938
Avenida Marquês de Tomar e à dir. a Avenida de Berna 
No cunhal poente da fachada destaca-se, ao alto, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, 
quási em agulha, liierática, obra de estatuária mística de António Costa. (ARAÚJOO, 1939)
Garcia Nunes, in Arquivo Municipal Lisboa

O baptistério é uma pequena jóia —  relembra-nos  o olisipógrafo Norberto de Araújo:
À nossa direita, prolongando-se, no exterior, fora do alinhamento regular do edifício, está o baptistério, magnífica sala, revestida de mosaicos de tipo romano de piscina (Almada Negreiros), mas impregnados de espírito religioso; o tecto solucionou-se em rotunda, e o ambiente adoça-se com vitrais verde-violeta (Almada Negreiros). A pia baptismal, ao centro, é encimada por uma estátua de S. João Baptista (Leopoldo de Almeida). Anota essa porta, boa obra de Serralharia de arte (Júlio Ferry).

Igreja de N. S. de Fátima, [1956]
Baptistério
Estúdio Mário Novais, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, 1939
idem, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, 1950

Sunday, 22 January 2017

A Brasileira

Somos. agora levados por um ruído estranho que nos chama. No seu movimento constante, está a ouvir-se o moinho eléctrico, em pleno funcionamento, a moer, a moer, os grãozinhos de café, bem torrados, até que se transformem em finíssimo pó, do qual se obterá a genial bebida, universalmente apreciada. 


Sentemo-nos aqui mesmo, à entrada, nestas primeiras cadeiras, pouco cómodas, é certo, mas fortes e de grande duração, esplêndidas para dar na cabeça de qualquer parceiro, óptimas cadeiras forradas de bom coiro, no fundo e nas costas. E, enquanto esperamos que nos sirvam as bicas já pedidas, recordemos como nasceu a Brasileira do Chiado, fundada em 19 de Novembro de 1905, pela firma Teles & C.ª nesta casa que continua a ter os números 120 e 122, e que antes fora de J. Miranda Saraiva, com artigos de camisaria.

Café A Brasileira [ca. 1911]
Rua Garrett, 120-122
Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

A Brasileira abriu só para a «venda do genuíno café do Brasil, de Minas Gerais, depois de convenientemente torrado, oferecendo-se gratuitamente uma chávena a todo o comprador». Com esse sistema, fez-se um arremedo do que a mesma firma estabeleceram no Porto em 4 de Maio de 1903 na Rua Sá da Bandeira, n.º 71.
Entretanto, também em Lisboa aparecia uma edição de «A Brasileira» dedicada aos consumidores da capital e esse folheto proporciona-nos a retirada das seguintes preciosas informações:
«Está sofrendo uma completa transformação a parte baixa do edifício, à Rua Garrett (Chiado), onde se acha instalada A Brasileira, para se adaptar a uma sala de café, com todos os modernos requisitos de comodidade e de elegância, destinada às pessoas que não quiserem aproveitar-se da vantagem das nossa distribuição gratuita de chávenas de café. Ali poderão torná-lo nas melhores condições de conforto e descanso. A Brasileira continuará a oferecer, gratuitamente, uma chávena de café a todo o comprador.»

Publicidade ao café A Brasileira, 1912
Publicidade ao café A Brasileira








Publicidade ao Café A Brasileira










A Brasileira teve, no principio, como já  se disse, um nobre gesto de generosidade: servia gratuitamente, aos seus fregueses de café a peso, a chávena da deliciosa infusão. Porém, em 1915, já cobrava, indistintamente, $04 pela xícara pequena e $05 pela xícara grande..

As obras, que o proprietário Teles & C.ª realizou, poucos anos depois de o Café começar a constituir «instituição» do Chiado, foram dirigidas por Norte Júnior. A renovação com panneaux de pintura data de 1922 [...]; ostentam-se nos interiores da Brasileira pinturas de José de Almada Negreiros, Eduardo Viana, António Soares, Jorge Barradas, Stuart Carvalhais e Bernardo Marques.

Na sua fachada principal salienta-se o nome do estabelecimento desenhado acima das portas e sobre decoração em estuque, representando o símbolo da casa, cujo motivo central traduz uma figura masculina tomando café ,rodeada de motivos vegetalistas. A classificação como Imóvel de Interesse Público inclui o próprio Café e o troço de calçada fronteiro à porta.

Café A Brasileira [ca. 1966]
Rua Garrett, 120-122
Garcia Nunes, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987.
ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, 1939.

Thursday, 19 January 2017

Beco e Pátio das Canas

Esta Adiça vale um poema popular. Deixemos, por momentos, seguir a Adiça — que morre nas portas do Sol, ao alto — e enfiemos pela Galé. Em frente está o Pátio das Canas, no alto do bêco dêste distico. 

O Pátio das Canas é de um bairrismo puro, mais que modesto, e que bem se marca, garridamaente, quando das festas do Santo António e do S. João. Agora, ao sol e aos gatos, parece adormecido: também o pitoresco tem as suas horas de acalmia.

Beco e Pátio das Canas [c. 1900]
Perspectiva tirada da Rua da Adiça
Machado & Souza, in AML

Queres ver uma curiosidade? Nota nêste Pátio, na fachada do prédio, à esquerda, cujo ingresso é pela calçada de S. João da Praça — a Adiça, como venho dizendo — as janelas do segundo andar: são quinhentistas, ainda com seus desenhos simples, de aresta quebrada, cujo espírito transcende da materialidade inocente de lavores.
Não notes que eu chame tua atenção para elas: é que em tôda a Lisboa, de Algés ao Poço do Bispo, contam-se pelos dedos os elementos arquitectónicos dêste jeito e idade.

Beco e Pátio das Canas [c. 1900]
José Artur Bárcia, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 51)

Tuesday, 17 January 2017

Real Colégio Militar

Desde o seu nascimento o Colégio Militar esteve instalado em diversos locais ao longo de toda a sua vida. Inicialmente, foi seu berço a Feitoria (Oeiras), de 1803 a 1813. Por portaria de 1814 o Colégio é transferido para o edifício do Hospital de Nossa Senhora dos Prazeres, na Luz, com a designação de Real Colégio Militar, onde permanece até 1835. Depois passa para a extinta Congregação dos Missionários, denominada de Rilhafóles (o efectivo havia sofrido um aumento substancial, nesta altura), onde esteve de 1835 a 1848. Em 1848 é transferido para Mafra onde fica até 1859. Novamente na Luz até 1870, volta a Mafra até 1873, ano em que regressa para a Luz, onde se tem mantido até aos nossos dias.

Colégio Militar [séc. XIX]
Largo da Luz

António Novais, in AML

O edifício em que está instalado o Colégio Militar tem sofrido várias modificações e ampliações que transformaram um pouco a primitiva traça interior, de que conserva, porém, as linhas gerais. Com a frente voltada para o norte, na qual se notam a  Cruz de Cristo, uma imagem da Virgem e uma inscrição latina, por baixo do escudo de armas da infanta D. Maria, onde se refere o primitivo destino do edifício.

Colégio Militar [1932]
Largo da Luz

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O nicho existente no pano de muro localizado no corpo e eixo do alçado principal, apresenta-se inteiramente trabalhado com nuvens, querubins e resplendor raiado, envolvendo representação escultórica de Nossa Senhora dos Prazeres sobre peanha.

Ginástica sueca, executada pelos alunos do Colégio Militar no dia da sua festa [21-6-1927]
Largo da Luz

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Sunday, 15 January 2017

Monumento a Cristo Rei

Erguido 215 metros acima do nível do mar e oferecendo uma panorâmica de 360 graus sobre as duas margens do Rio Tejo, o Cristo Rei é um dos pontos de visita obrigatória, um monumento indissociável da imagem de Almada. 
Inaugurado no dia 17 de Maio 1959, o Cristo Rei foi construído como agradecimento por Portugal não ter entrado na II Guerra Mundial.
O arq.º António Lino e o eng.º D. Francisco de Mello e Castro assinaram este monumento, que depois de construído foi esculpido à mão num trabalho de minúcia, desenvolvido a mais de cem metros do chão, da responsabilidade do mestre Francisco Franco. Até as barbas de Jesus Cristo foram suavemente esculpidas no seu rosto.

Panorâmica sobre a zona da portagem da Ponte 25 de Abril [1967]
Artur Inácio Bastos, in Arquivo Municipal Lisboa

Na base do monumento está a capela de Nª. Sr.ª. da Paz, onde se destaca a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, criada pelo famoso escultor Leopoldo de Almeida.
Na entrada do recinto existe um edifício de acolhimento, em frente ergue-se a estátua do Redentor, voltado para Lisboa por uma razão simbólica: ao estar de braços abertos para a capital, todo o mundo português estaria dentro do abraço de Deus.
Na sua construção foram utilizadas 40 mil toneladas de betão armado e custou aos fiéis mais de 100 mil euros. 

Bibliografia
(m-almada.pt)

Thursday, 12 January 2017

As «velhas tílias do Camões»

Mas olha-me esta Praça, Dilecto, e o enfiamento do Chiado: tem a sua graça ingénua alfacinha, e uma ponta de beleza. (...) Hoje ainda possue uma certa harmonia de conjunto nos edifícios sóbrios e nas árvores que a rodeiam — uma das quais um exemplar de tília, por ventura o mais interessante da Cidade, onde se aninham às tardes os «pardais do Camões», que em revoadas chegam dos campos, num espectáculo bem curioso, de uma ternura de cidade romântica.


Praça de Luís de Camões [ca. 1950]
Poda da tílias
Judah Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Praça de Camões?, sabe? — explicava à irmã uma filhinha do Jaime Cortesão — é um grande largo onde está Camões, no meio, a ler versos e à volta os pardais a aplaudi-lo. Sim, à volta nas árvores, e principalmente naquelas duas tílias da esquina do Alecrim, que deviam ser consideradas monumento nacional, árvores na última hora da tarde tão carregadas de vida inocente que fazem parar e sonhar o lisboeta calcinado pela luta e pelo amargor de todos os dias. Árvores que aplaudem Camões e tornam os homens melhores. 

Praça de Luís de Camões [ca. 1950]
Poda da tílias
Judah Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Finalmente, em Outubro de 1963, a «formosa Praça recebeu importantes modificações» — recorda-nos Mário Costa —  desapareceram os antigos quiosques com o seu capilé e foram acrescentados novos bancos em pedra lioz da autoria de mestre José Luís Monteiro, «coincidindo esse embelezamento, com o forçoso derrubamento da bela e vetusta tília — a «velha tília do Camões» — , que os muitos anos e a doença fizeram tombarUma guarnição de pinheiros mansos, em pleno crescimento, substitui o perdido exemplar botânico e as suas desventurosas irmãs».

Praça de Luís de Camões [ca. 1950]
Poda da tílias
Judah Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa


Bibliografia:
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, 1938
BRANDÃO, Raul, ANGELINA, Maria, Os pardais de Lisboa. Portugal Pequenino, 1930
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987

Tuesday, 10 January 2017

Mercado de Belém, Rua Vieira Portuense e Tv. da Praça

Os prédios desta Rua Vieira Portuense — a poente do antigo Mercado de Belém e da Tv. da Praça — foram demolidas em 1940. O mercado foi poupado e os prédios a nascente foram «alindados para se integrarem, em 1940, na área da Exposição do Mundo Português.

Travessa da Praça [1939]
Antiga Travessa do Mercado; ao fundo, o antigo Mercado de Belém na Rua Vieira Portuense; os prédios (dir.) desta zona de Belém — onde hoje se encontram os Jardins de Belém — foram demolidos para construção da «Exposição do Mundo Português» de 1940. O mercado foi poupado e «alindado» para se integrar na referida exposição
Eduardo Portugal, in AML

O topónimo homenageia Francisco Vieira (1765-1805), pintor, lente de desenho na Academia do Porto, cognominado «Vieira Portuense», por ter nascido nessa cidade, e para se diferençar doutro seu afamado contemporâneo, conhecido pelo nome de «Vieira Lusitano», por ter nascido em Lisboa.
Figura ímpar, entre os grandes mestres da pintura setecentista, Vieira Portuense é um exemplo a seguir pela persistência da sua actividade artística e pelo estudo aturado que o levou a todos os lugares da Europa onde a arte se sacralizava, e fez dele o maior pintor do Século XVIII, com méritos reconhecidos em Itália, Alemanha e Inglaterra, bem como em Portugal, onde D.João VI o chamou à Corte, nomeando-o primeiro pintor da Real Câmara.

Rua Vieira Portuense  [1939]
Antigas ruas do Cais e da Cadeia; à esquerda, o antigo Mercado de Belém

Eduardo Portugal, in AML

O Mercado de Belém — escreve Norberto de Araújo — inaugurado em 1882, e começado a construir em Junho de 1880, substituiu um outro, que existiu em plena Rua Direita de Belém, até àquêle ano. Foi seu construtor Júlio César Viçoso. Representa um quadrilongo, com portas em cada uma das faces, contendo interiormente dois alpendrados. Nada tem de especial; tempo houve, no seu comêço, em que a chegada do peixe a êste mercado constituía um quadro tipico e animado, faina que hoje [1938] passa despercebida.

Rua Bahuto Gonçalves (hoje Jardins de Belém) [post. 1901]
Ao fundo à esq., o Mercado de Belém; do lado direito, vislumbra-se a
estátua-monumento a Afonso de Albuquerque

Alberto Carlos Lima, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa,  vol. IX, pp. 73-74)
(cm-lisboa.pt/toponimia)

Sunday, 8 January 2017

Largo e Chafariz da Princesa

Este topónimo «da Princesa» tem origem na antiga Quinta da Princesa que existiu no local. Esta quinta era propriedade da Infanta D. Maria Francisca Benedita (1746-1829), irmã da Rainha D. Maria I e princesa do Brasil, pelo seu casamento com o Prínipe D. José, seu sobrinho. Fundou em Runa o Asilo dos Inválidos Militares.

Largo da Princesa [c. 1940]
Chafariz da Princesa

Eduardo Portugal, in AML

A 17 Janeiro de 1850 na sequência de um aviso do marquês de Fronteira, então Governador Civil, sobre a necessidade de se procederem a limpezas no sítio de Pedrouços devido a um surto epidémico, a Câmara de Lisboa ordenou não só as necessárias limpezas mas também a construção de um chafariz, pela necessidade de água potável no local.
Surge assim o Chafariz da Princesa, implantado no centro do Largo da Princesa, nome que se refere à princesa D. Maria Francisca Benedita que possuiu no local uma quinta. O Chafariz foi construído sob responsabilidade camarária com pedraria oferecida pela rainha D. Maria II, a qual era a proprietária do Casal de Paio Calvo onde se localizava a mina que o abastecia.
O projecto deve-se ao arquitecto da Câmara, Malaquias Ferreira Leal, com a colaboração do Mestre Geral das Águas Livres, José Félix da Costa. É inaugurado a 19 de Junho de 1851.

Chafariz da Princesa [s.d.]
Largo da Princesa

Eduardo Portugal?, in AML


Bibliografia
(CORREA DA SILVA, Isabel, SEIXAS, Miguel Metelo de, Belém,  ed. Junta de Freguesia de Sta. Maria de Belém, 2000)

Thursday, 5 January 2017

Max Cine: o Piolho do Alto do Pina

O Max-Cine, a elegante sala da Rua Barão de Sabrosa, ao Alto do Pina — noticiava a revista  Cinéfilo em 1931 —, que recentemente inaugurou os seus espectáculos sonoros com vivo e justificado êxito, resolveu, num gesto de simpatia e apreço que muito, nos desvanece, dedicar a todos os leitores e compradores do Cinéfilo as noites das quartas-feiras, concedendo-lhes o importante desconto de cinquenta por cento em todos os lugares.
Nessas noites, os nossos sempre fieis e estimados leitores, que Sê apresentarem na bilheteira, com o cupão que noutro lugar publicamos, beneficiarão do o referido desconto em todos os espectáculos que se realizarem nas mencionadas quartas-feiras. (...)

Rua Barão Sabrosa; Rua Dr. Oliveira Ramos [1927]
Em exibição "A Fera Amansada", filme de Sam Taylor 
com Mary Pickford, Douglas Fairbanks
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

A 14 de Setembro de 1929, o bairro do Alto do Pina vê nascer o Max Cine na Rua Barão de Sabrosa. Projectada pelos engenheiros Jacinto Bettencourt e Deolindo Vieira, era uma sala sóbria mas acolhedora com capacidade para 700 pessoas. Era essencialmente um cinema de reprise que a 1 de Maio de 1968 é adquirido pela Paróquia de São Evangelista passando assim a servir a população de uma forma distinta.

Rua Barão Sabrosa; Rua Dr. Oliveira Ramos [1962]
Arnaldo Madureira. in AML

Bibliografia
(Cinéfilo, Vol. 4, 1931, p. 338)

Tuesday, 3 January 2017

Palacete Porto Côvo

Mas continuemos agora — feita esta derivante — a subir S. Domingos. A grande propriedade apalaçada de portal brazonado, e opulência arquitectónica, n.º 37, (...) é da casa dos Condes de Porto Côvo da Bandeira.

Palácio urbano construído no séc. XVIII, entre 1770 e 1790, para Jacinto Fernandes Bandeira, escrivão do Desembargo do Paço e Conselheiro Real, 1º barão de Porto Covo. Manteve-se na família até 1937, data em que o palácio e todo o seu recheio foram leiloados. O edifício principal e os jardins foram adquiridos pelo Estado Britânico, que entre 1941 e 1995 aí instalou a sua embaixada, o recheio artístico foi comprado por particulares e museus públicos e a capela — da invocação de Santo António — foi entregue ao Patriarcado. Traduzindo uma arquitectura civil residencial pombalina, este palácio surge organizado em U, integrando capela como entidade semi-autónoma e tratamento diferenciado ao nível do alçado.
A fachada principal do palácio, voltada a Este, apresenta-se ritmada por pilastras lisas de cantaria e estruturada em dois pisos, destacando-se o remate da zona central por frontão triangular onde se insere uma pedra de armas britânica, que veio substituir a primitiva dos Porto Covo da Bandeira.
No interior, merecem destaque os lambris de azulejos, a pintura ornamental e os estuques de algumas salas do andar nobre. 

Palacete Porto Covo [1944]
Rua de São Domingos, à Lapa, 35-41
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 44, [1938]))
[cm-lisboa.pt]
Web Analytics