sábado, 10 de dezembro de 2016

Jardim da Estrêla

Ora eis-nos no Jardim da Estrêla [ou Guerra Junqueiro], um dos maiores e mais formosos de Lisboa central, e seguramente — desaparecido que foi o velho Passeio Público — o de mais tradições alfacinhas, e que se envolve, pela sua característica infantil, numa atmosfera de ternura. 

   
   Na segunda década do século passado os chãos, onde veio a construir-se êste Jardim, eram de cultivo, com alguns casebres, pertencentes a um António José Rodrigues. A idéia do Jardim neste logar deve-se ao Marquês de Tomar e a sua realização a um donativo inicial de quatro. contos feito por um português do Brasil, Joaquim Manuel Monteiro. A obra começou em 1842, mas esteve interrompida, por motivo de lutas políticas, de 1844 a 1850. Finalmente a plantação começou naquele ano, sob a orientação dos jardineiros Bonard e João Francisco em Abril de 1852 foi aberto ao público.

Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela [1911]
Jardim da Estrela; Estufa do Jardim da Estrêea; Igreja de Santa Isabel, à esq. em último plano

Joshua Benoliel, in AML

Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela [1911]
Jardim da Estrela; Palacio Sotto-Mayor (ao centro); Liceu Pedro Nunes; Av. Álvares Cabral

Joshua Benoliel, in AML

Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela [1911]
Jardim da Estrela; Igreja e Antigo Convento de Nossa Senhora da Estrela [Hospital Militar Principal

Joshua Benoliel, in AML
   
   O Jardim da Estrêla esteve na moda durante toda a metade do século passado: era então o «Passeio da Estrela» das nossas românticas avós, ainda meninas. Neste Jardim existiu, aí por 1876, o famoso «Leão da Estrêla», lindo animal que fora doado pelo colonial Paiva Raposo, e esteve exposto, em sua jaula própria, no alto do parque. Demos uma volta por êste encantador recinto.
   Como vês «está-se aqui bem». Devia haver nesta Lisboa, privada de parques centrais, meia dúzia de jardins como êste.  

Jardim da Estrela, garden party [c. 1911]
Joshua Benoliel, in Arquivo do Jornal O Século
A rainha Dona Amélia no Jardim da Estrela [ant. 1908]
in AML
 
   Frondosa vegetação, bem disposta em paisagem — dragoeiros, plátanos, álamos, tílias, araucárias, abundância de rosas na primavera e verão — , canteiros, cascatas, lagos onde vogam cisnes, grutas artificiais, estufas com exemplares raros, alameda, ondulações de terreno habilmente aproveitadas — o Jardim da Estrêla honra a Câmara Municipal. 
   Aqui temos a embelezar as placas de verdura, algumas peças de arte, que merecem citação: «A Filha do Rei Guardando Patos», por Costa Mota, sobrinho, o «Despertar» por Simões de Almeida, sobrinho, «O Cavador», por Costa Mota, tio, estes preciosos bichos, em faiança das Caldas, por Rafael Bordalo, «A Fonte» por Maria Glória Ribeiro da Cruz, ainda êsse busto em bronze do Actor Taborda — ajudam a compor no ambiente paisagista um vinco de espírito puro, que sempre da obra de arte irradia. 

Jardim da Estrela [c. 1960]
«A Filha do Rei Guardando Patos», Costa Mota, sobrinho
Artur Inácio Bastos, in AML
Jardim da Estrela [post. 1911]
«Despertar», Simões de Almeida
Artur, in AML


   Lisboa foi sempre, Dilecto, uma cidade de eirados e miradouros. Não se poderá dizer que houvesse sido algum dia uma urbe ajardinada, na qual se rasgassem parques centrais. 
   As quintas dos velhos palácios foram desaparecendo com êles, retalhadas e aforadas pelo improviso urbano. 
   Daí o carinho que de mim transparece ao falar-te de um «Passeio» tão gracioso como o da Estrêla.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 47-48)

Jardim da Estrela [post. 1914]
«O Cavador», por Costa Mota, tio
Artur Bárcia, in AML
Jardim da Estrela [post. 1912]
«Busto do Actor Taborda», Mota, sobrinho
Artur Bárcia, in AML










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