Tuesday, 29 November 2016

Lactários da Associação Protectora da Primeira Infância

«Em Lisboa morrem por anno, em média, 9 mil  pessoas. N'este numero vao incluidas perto de 2 mil creanças com menos de um anno de edade. De 0 a 2 anos morrem de diarreias e enterites, em media por anno, 750 creanças na capital e mais de 8:000 em todo o reino.»afirmava em 1907, num jornal de carácter médicoo dr. Jorge Cid, director clínico do Lactario,


Foi fundada, logo no início do século (1901), uma instituição particular, a Associação Protectora da Primeira Infância, pelo Coronel Rodrigo António Aboim de Ascensão, com o apoio da rainha D. Amélia, após ter visitado, em Paris, uma Gota-de-Leite do Dr. Léon Dufour, em 1900, e ter estudado a sua organização. Deve-se igualmente à rainha D. Amélia a criação, em 1903, do primeiro lactário, situado no Largo do Museu da Artilharia.

Largo do Museu de Artilharia [c. 1902]
Lactário da Associação Protectora da Primeira Infância, risco do arquitecto Miguel Ventura Terra
Fotógrafo não identificado, in AML

Largo do Museu de Artilharia [c. 1910]
Lactário da Associação Protectora da Primeira Infância, risco do arquitecto Miguel Ventura Terra
Alberto Carlos Lima, in AML

Este lactário — sob projecto do arquitecto Miguel Ventura Terra (na altura vereador da Camara Municipal de Lisboa) — tinha uma vacaria em anexo, com capacidade para dezoito cabeças de gado. Além da vacaria, o edifício era  constituído por uma série de pequenos pavilhões, cada um deles destinado a uma actividade específica, como os serviços administrativos e os gabinetes médicos. O seu o primeiro director clínico foi o Dr. Gomes Resende.

Largo do Museu de Artilharia [c. 190-]
Vacaria do Lactário n.º 1, risco do arquitecto Miguel Ventura Terra
Ao fundo, a torre sineira da Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova
Paulo Guedes, in AML

Obs.: local não identificado no AML

Largo do Museu de Artilharia [1927]
Crianças amamentadas a cargo da Associação Protectora da Primeira Infância.
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Posteriormente, a Associação fundaria mais três lactários. O lactário nº 2, no Largo da Esperança, em Santos-o-Velho, inaugurado pela rainha D. Amélia em 29 de Dezembro de 1907. O lactário nº 3, no Largo do Calvário, em Alcântara, começou a distribuir leite a 30 de Julho de 1927. O lactário nº 4 foi implantado no bairro do Beato e terá iniciado funções em 1929.

Largo da Esperança, Av. D. Carlos I [post. 1907]
Lactário n.º 2
José Artur Bárcia, in AML

Largo do Calvário [1930]
Ao centro, o Lactário n.º 3
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

A Associação Protectora da Primeira Infância (APPI) desenvolveu um serviço de distribuição diária de leite para bebés lactantes cujas mães não podiam amamentar. O leite era distribuído gratuitamente duas vezes por dia, em doses recomendadas pelo pediatra, sendo transportado em garrafas-biberão esterilizados em autoclave.
Consciente das principais causas da mortalidade infantil na primeira infância, a APPI direccionou os seus Serviços e recursos para o apoio alimentar e pediátrico, para a assistência das crianças no domicílio (0 aos 3 anos) e para o auxílio à maternidade e à família, numa actuação global no plano da assistência.
A inscrição na APPI era realizada em boletim próprio, onde se anotava toda a informação sobre o agregado familiar e, posteriormente, os registos das consultas de pediatria. Até 2011, a APPI contou com mais de 14 000 crianças auxiliadas.



Bibliografia
(Lactário, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XIV)
(+ info: appinfancia.org)

Saturday, 26 November 2016

Palácios do Calhariz: Palácio Calhariz-Palmela e Palácio Sobral

O Largo do Calhariz é um troço da seiscentista Estrada da Horta Navia, também denominada Estrada de Santos e este topónimo deriva da existência no local da residência dos Morgados do Calhariz, conforme relata Norberto Araújo:

   Encontramo-nos na artéria conhecida em tôda a Lisboa pelo «Calhariz», rua e sítio dêste título, e que tem origem no Palácio dos «Sousas Calharizes», como diz o vulgo e como se encontra em livros antigos. É este edifício, à direita, com um pequeno jardim adjacente, e que ocupa todo o quarteirão confinado entre as Ruas do Calhariz, da Atalaia, Travessa das Mercês e Rua da Rosa.
   Oferece, como vês, um certo ar nobre, de transição do estilo solarengo velho para o tipo palaciano do século XVIII. É elegante o portão ladeado por duas colunas dóricas, cujo entablamento suporta a varanda de balaústres, única sacada do primeiro andar. As sete janelas de sacada de cornija saliente do andar nobre, que é o segundo, dão ao prédio uma harmonia e distinção invulgares aos edifícios desta construção. O pequeno jardim é gracioso e foi construido depois de edificado o palácio, ocupando o lugar de uma serventia que daqui saía, e que erra o prolongamento da Rua da Trombeta, que ainda se continua nas traseiras até a Fiéis de Deus, serventia vendida pela Câmara de Lisboa a D. Pedro de Sousa Holstein. por um conto de réis...

Palácio Calhariz-Palmela [ant. 1900]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz;Rua da Rosa (ao fundo à dir.)

Fotógrafo não identificado, in AML

O palácio foi mandado erigir em 1703 pelo Morgado do Calhariz, D. Francisco de Sousa (1631- 1711). O edifício, além de moradia ducal — relembra Norberto de Araújo (1938) — tem sido de tudo um pouco: aqui esteve a Academia Real de Fortificações que precedeu a Escola do Exército e Escola Militar, em 1796 e em 1811, a Câmara Eclesiástica até 1830, a Contadoria Greal das Tropas, o Ministério dos Estrangeiros (em 1882), a Liga Naval até há poucos anos [o autor escreve em 1938], etc., ocupando quaisquer destas instituições parte do edifício, ou, por vezes, talvez todo.
Festas deslumbrantes viu o Palácio desenrolar-se nos salões, cujo recheio de arte era precioso.

Palácio Calhariz-Palmela [1929]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz;Rua da Rosa (ao fundo à dir.)

Ferreira da Cunha, in AML

Sofreu restauros e ampliações em 1843-44 dirigidas pelos artistas italianos Rambois e Cinatti,  e uma anexação ao Palácio Sobral em 1956, destruindo as obras oitocentistas (jardim e pavilhão), prolongando o corpo principal do edifício até á Rua da Atalaia, depois de em 1947 os Morgados do Calhariz, entretanto criados Duques de Palmela, o terem vendido à Caixa Geral de Depósitos para lhe servir de sede. Em 1969 está em curso a obra do passadiço sobre arco (sobre a Rua da Rosa) de ligação entre os dois palácios.
Sofreu obras de recuperação em 1997 com projecto dos arqs. Dante Macedo, Conceição Macedo e José Afonso, para albergar a Companhia de Seguros Fidelidade, o que lhe valeu a atribuição do Prémio Eugénio dos Santos referente a esse ano.

Palácio Calhariz-Palmela onde está a Caixa Geral de Depósitos,  e, ao fundo, o Palácio Sobral [1966]
Largo do Calhariz; Rua da Atalaia; Travessa das Mercês; Rua da Rosa; Rua Luz Soriano

Armando Serôdio, in AML

Acerca da história do primitivo Palácio Sobral [vd. 4ª imagem] diz Norberto de Araújo: «Reconstruído modernamente — fôra levantado entre 1770 e 1780, por Joaquim Inácio da Cruz Sobral, de quem descenderam os Condes de Sobral, que, para erguer o palácio, comprou o velho prédio aqui existente, pertencente a Lázaro Leitão Aranha, rico e erudito Principal da Sé, que nele fêz reünir a famosa Arcádia em 1764.»
Outro ilustre olisipógrafo — mestre Júlio Castilho — apresenta uma descrição pormenorizada do antigo palácio do século XVIII na sua Lisboa Antiga (1903):

   Formava o palácio um vasto paralellogrammo, com a frente principal de 130 palmos (uns 29 metros e tanto) sobre a Rua Direita, ou Largo do Calhariz, a opposta sobre a Travessa das Mercês, a occidental sobre a Rua do Carvalho [hoje Luz Soriano], e a oriental sobre a [Rua] da Rosa.
   A fachada sobre o Calhariz era dividida em tres corpos, sendo os lateraes separados do central por pilastras correspondentes ás dos cunhaes, e terminando ambos em feitio de torres sobrepojadas de mirantes elegantíssimos.
   No corpo central dois grandes portões de entrada ornamentados, e por cima duas filas de sacadas, sendo mais nobres e altas as do andar superior.
Na aresta dos dois cunhaes viam-se as Armas, que eram: escudo cortado; o i.° de azul, cinco estreitas de seis pontas, de oiro, postas em cruz; o 2.º de prata ondado de azul; bordadura de vermelho, com as palavras Nomen honorque meis em lettras de oiro. Elmo; timbre: cão de prata com colleira de vermelho, e chave de oiro na bocca.
   Os portões abriam para duas vastas lojas em forma de corredores, que ambas desembocavam no grande pateo, onde as carroagens davam volta, entrando por um portão e sahindo pelo outro.
   Ao fundo d'esse pateo, no interior da parte do edifício que deitava para as Mercês, ficava a entrada monumental de quatro degraus conduzindo aos vinte e dois da escadaria, bifurcada para a direita e para a esquerda em dois outros lanços, que levavam ao andar nobre, onde eram as salas.

Gravura do Palácio Sobral, no Calhariz [séc. XVIII]
in Lisboa Antiga (1903)

Em 1887, o Palácio Sobral é adquirido «por 50 contos e pico» pelo Estado para instalação da Caixa Geral de Depósitos, e de imediato, se iniciam obras de recuperação e remodelação. Em 1969, depois de uma reconstrução total, procede-se à uniformização das fachadas e efectua-se a ligação por arco dos dois palácios — Calhariz-Palmela e  Sobralhoje Edifício da Caixa Geral de Depósitos, CGD, do Calhariz.

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26)
 (Lisboa antiga, Júlio de Castilho, 1903, vol. III, p. 26)
 (cm-lisboa.pt/toponimia; monumentos.pt)

Thursday, 24 November 2016

Chafariz da Esperança

Dilecto, podes observar o mais belo chafariz de tôda a Lisboa, pela sua graça e harmonia que não pela sua grandeza. O Chafariz integra-se na grande obra das Águas Livres, e para o erguer houve que comprar às freiras do Mosteiro da Esperança (então aqui ao lado, e senhoras desta parte do sítio) o terreno necessário, por 297 mil réis, e não se pode dizer que houvesse ficado caro.


Convento da Esperança e chafariz da Esperança, no bairro da Madragoa, gravura
Largo da Esperança; Avenida D. Carlos I
in AML

Localizado no antigo Largo da Esperança, viu alterada a sua envolvência com o arranjo urbanístico resultante da abertura da Av. D. Carlos I, em 1889, ficando encostado a um prédio, construído por essa altura, cuja fachada foi concebida como pano de fundo para o chafariz. Traduzindo uma arquitectura civil, de equipamento, barroca e rococó, é um dos mais interessantes, cenográficos e monumentais de Lisboa, que fazia parte de uma das principais linhas de abastecimento de água à cidade alimentadas pelo Aqueduto das Águas Livres.

Chafariz da Esperança [c. 1940]
Largo da Esperança; Avenida D. Carlos I
Eduardo Portugal, in AML

Projectado pelo arquitecto húngaro Carlos Mardel em 1752, a sua obra teve início no ano seguinte, sob orientação do mesmo, sendo terminada, em 1768, já por Miguel Ângelo Blasco.
Classificado como Monumento Nacional, obedece a um esquema vertical, apresentando, num plano inferior, um tanque largo, destinado a bebedouro dos animais, que recebe a água de carrancas de cantaria. Através de 2 lanços de escada laterais acede-se a um largo balcão, do tipo «varanda de pavilhão solene», onde um segundo tanque recebe a água de carrancas de bronze.

Chafariz da Esperança [c. 1900]
Largo da Esperança; Avenida D. Carlos I
in AML

Neste balcão destaca-se o corpo central do chafariz, ladeado por 2 pilastras dóricas, cujo espelho central, definido por 2 colunas, sustenta um pequeno frontão curvo aberto, onde avulta em estilo «rocaille» o escudo de D. João V, mutilado na coroa. A rematar este volume surgem, ao meio e nos cantos, 3 pináculos em forma de vaso, com decorações folhosas, terminando em alcachofra.
José Sérgio de Andrade refere, em 1851, que o cano que levava a água ao chafariz tinha 1433 palmos, e os sobejos corriam para um tanque-lavadouro, existente na Rua Nova do Cais do Tojo, com acesso pelo n.º 29; tinha 3 Companhias de Aguadeiros, 3 Capatazes e Cabos, 99 Aguadeiros e 1 Ligeiro.

Chafariz da Esperança [entre 1903 e 1908]
Largo da Esperança; Avenida D. Carlos I
Charles Chusseau-Flaviens, in GEH

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII
(ANDRADE, Velloso, Memoria sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa, Belem e muitos logares do termo, 1851)
(cm-lisboa.pt; monumentos.pt)

Tuesday, 22 November 2016

Antiga casa dos Marqueses de Minas

Observa-me agora, Dilecto, do lado oposto, estes dois edifícios ligados num só, n.ºª 199 a 211 os mais velhos de aspecto de tôda a rua, mas com ar nobre vulgaríssimo de setecentos.
Foi velha casa dos Marqueses das Minas; do remoto da edificação podes fazer idéia pela lápide foreira «Andrada F. 1600», o que dá expressão bairrista ao casarão. Nota êsses cunhais, com cornija, e que desigualados do grosso da edificação, indicam estragos do Terramoto.
   No tempo das invasões francesas, comêço do século passado [séc. XIX], uma senhora, D. Ana de Oliveira, a cujas mãos o prédio veio, instituiu ali um recolhimento para orfãs de militares mortos em defeza da Pátria. Foi depois integrado rios «Recolhimentos do Reino», como outros ainda dependentes do Ministério do Interior, e de que te falei quando passamos pelas Merceeiras, à Sé. 
   Em 1928 passou a instituição a cargo da Santa Casa, que aqui recolhe 32 meninas, entre os 13 e 17 anos, freqüentando os cursos secundários em regime de externato, e recolhendo ao «Pensionato da Rua da Rosa» — tal é sua designação — como se recolhessem a casa de família. (...) O edifício é velho; alguns pormenoresazulejos sobretudoatestam o seu ar palaciano.
Palácio dos Marqueses de Minas / Lar Nossa Senhora do Amparo [1944]
Rua da Rosa, 199-211; Rua de São Boaventura, 2
Estúdio Mário Novais, in AML

No interior, destaca-se uma colecção de silhares de azulejos azuis e brancos dos finais do séc. XVIII, que vão desde o átrio de entrada ao andar nobre, e que podem ser observados no filme da autoria da SCML que reproduzimos abaixo.

Palácio dos Marqueses de Minas
Filme da autoria da SCML (dur.aprox. 4 min.)
(clicar para reproduzir)

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, pp. 45-46)

Saturday, 19 November 2016

Mercado do Forno do Tijolo

Esta Rua Maria da Fonte, que abre à nossa esquerda, é designação post-República (1917), e constituía antes a Calçada do Forno do Tijolo.


O Mercado do Forno do Tijolo, com projecto vanguardista do arq.º Eduardo dos Reis,  construído pelo construtor António Veiga, foi inaugurado em 1956. O nome advém de dos antigos fornos de tijolo e telha que aqui existiam. O acesso à Rua Damasceno Monteiro faz-se por uma escadaria engalanada por diversos painéis que representam os comerciantes típicos do século XIXcomo os vendedores de galinhas, de castanhas assadas, de hortaliças, e até o ardina vendendo A Paróquia — a revista municipal da freguesia. Com o intuito de revitalizar o mercado e capacitá-lo para novas funções, a Câmara lançado um concurso público de concessão de parte delimitada da Nave Central, o qual permitirá a construção de um novo espaço de co-working.

Mercado do Forno do Tijolo [1956]
Rua Maria da Fonte; Rua Damasceno Monteiro

Armando Serôdio, in Arquivo Municipal Lisboa

A Câmara Municipal de Lisboa em Julho de 2013, pretendendo estimular a inovação e a criatividade abriu neste mercado o Fab-Lab. Trata-se de um laboratório de fabricação digital que permite a criação de novos produtos de propriedade intelectual (a baixo custo) e negócios. O FabLab Lisboa pretende ser acessível ao cidadão comum, possibilitando-lhe o acesso a um espaço onde se possa fazer quase tudo, visando o desenvolvimento social e económico, seja a nível individual ou comunitário. Com este laboratório a CML pretende estimular a inovação, a criatividade e o empreendedorismo, e ajudar a tornar realidade o protótipo de uma ideia.

Mercado do Forno do Tijolo, panorâmica [1956]
Rua Maria da Fonte; Rua Damasceno Monteiro
Armando Serôdio, in Arquivo Municipal Lisboa

Neste momento já podemos encontrar associados ao Mercado, nomeadamente, a Junta de freguesia dos Anjos, uma Universidade sénior, um parque infantil, um campo de jogos,.um supermercado e um posto dos CTT.

Mercado do Forno do Tijolo [1956]
Rua Maria da Fonte; Rua Damasceno Monteiro

Armando Serôdio, in Arquivo Municipal Lisboa

Thursday, 17 November 2016

Beco da Bicha

Aí tens o Beco da Bicha —  inexistente, porque os casebres por trás dos quais a viela corria, foram demolidos há pouco tempo. Mas é de admirar-se o fundo cenográfico dêste Largo, ao alto com o panorama dos quintais, e em baixo com o apontamento da casita à esquina da Bicha, n.º 11, e da Regueira, n.º 27 e 29, cousa de presépio: dois andares minúsculos com as suas reixas cruzadas de madeira e êsse pormenor de um passadiço sôbre uma reentrância inocente. A nascente, por trás dos prédios, espreita ao alto a torre de S. Estevão. E as alfurjas acomodam-se na sua miséria, contentes da graça que as envolve.

Beco da Bicha; Rua da Regueira [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in AML

Certos pontos de Alfama parecem executados por cartões de artistas, da raça anónima de predestinados de pupila. Está por compilar um álbum de aguarelas e águafortes dêste bairro tão sugestivo. [1]

Desconhece-se a origem do topónimo deste Beco da Bicha que liga a Rua de São Miguel e a Rua da Regueira, embora com segurança se saiba que já aparecia nos registos paroquiais anteriores ao Terramoto, como «Beco da Bixa». [2]

Beco da Bicha; Rua da Regueira [post. 1933]
Estúdio Mário Novais,in Biblioteca de Arte da F.C.G..


Bibliografia
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 61, [1939])
[2] (cm-lisboa.pt/toponimia)

Tuesday, 15 November 2016

Café-Restaurante Tavares Pobre

Olhe... pode ser o Tavares Rico! Oiço falar nesse restaurante a pessoas importantes e, um dia, gostava de lá ir para ver como é! Parece que só deixam entrar de rabonas. Não... vamos antes ao Tavares Pobre! Sempre estamos mais descontraídos.


No último artigo publicado aqui no tasco, demos conta da história do antigo Café-Restaurante Tavares ou Tavares Rico. Hoje falamos do seu irmão mais novo, o Tavares Pobre — espécie de sucursal daquele — mas mais modesto e menos rico.

   O «Tavares Pobre» — relembra Norberto de Araújo — na sua fase primitiva é dos antigos restaurantes da Rua de S. Roque [actual Rua da Misericórdia], teve também o seu período de representação discreta político-literária. Foi fundado em 1852, sem ter ainda a designação actual [em 1938], por Vicente Marques Caldeira — uma simples casa de cafés e chocolates, por onde se entretinham os velhos artistas do Trindade —, e mais tarde, passado ao filho daquele, Manuel Caldeira, alindou-se, constituiu uma duplicação do Tavares célebre da Rua de S. Roque, que hoje subsiste mais abaixo.

Restaurante Tavares Pobre [c. 1940]
Rua da Misericórdia esquina com o Largo da Trindade

Eduardo Portugal, in AML

Localizado, até cerca de 1940, na esquina da Rua da Misericórdia com o Largo — que mais parece travessa — da Trindade, foi ocupado durante as décadas seguintes por uma casa de representação de bebidas. Até que, em 1983, cinco conhecidos profissionais (os irmãos José, Joaquim e Belmiro Costa, Arménio Fernandes e Antero Jacinto) inauguraram aqui o Bachus, bar e restaurante de luxo.

Prédio do antigo Restaurante Tavares Pobre [1970]
Rua da Misericórdia esquina com o Largo da Trindade

João Hermes Goulart, in AML

Bibliografia

(ROSA, Baptista, Chamava-se Júlia e fazia flores, 1984)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, p. 55 [1938])
(QUITÉRIO, José, Expresso.pt, 2011)

Saturday, 12 November 2016

Café-Restaurante Tavares Rico

Foi Manuel Tavares o primeiro dono do botequim que fêz afixar o já clássico letreiro: «O dono desta Casa não consente aqui discórdias nem conversacões e opiniões políticas». 


   O Café-Restaurante Tavares — mais singularmente Café Tavares, ou, mais vulgarmente Tavares Rico — tem princípios muito remotos que vamos colher a uma narrativa de Tinop.  O seu fundador, em 1779, com café e bilhares, foi Nicolau Massa, por alcunha o Talão, na Rua Larga de S. Roque [actual Rua da Misericórdia], perto do actual Largo Trindade Coelho. Mudou-se em 1784 para o actual domicílio, na mesma Rua Larga de S. Roque, uma loja que tem agora os n.ºs 35-37, e comunicação com a Rua da Gáveas, n.º 26. Em 1800, o café já estava na posse de Bartolomeu Ansaldo; treze anos depois o dono era José António Mateus; no ano de 1820 pertencia a Baltasar Afonso; e, finalmente, em 1823, ainda conhecido por botequim, entrou Manuel Tavares, que levou na sua companhia o irmão António Tavares, e foi este novo apelido que, definitivamente, se arreigou ao estabelecimento, que, como tal, entrou no domínio do trato e da história citadina.
   Os irmãos Tavares, excêntricos «do mais fino quilate» — apreciação de Tinop —, trajavam sempre de jaqueta e sapatos de ourelo e dirigiam-se aos fregueses, sempre em verso. E o seu café, suspeito de abrigar certos elementos do liberalismo, foi muito perseguido no tempo de D. Miguel.   
   Depois de um tal Pimenta, a casa foi tomada, em 1861, por Vicente Caldeira, o qual, dando sociedade a seu filho, adoptou a firma Vicente Caldeira & F.”, até que, em 1888, por falecimento do fundador, o filho Manuel Caldeira arcou sozinho com a gerência (...)
Vicente Caldeira, logo em 1861, com os grandes lustres, espelhos e doirados, e, mais tarde, o seu filho, que em 1901 ampliou o restaurante com o andar superior, foram os dois maiores empreendedores das profundas transformações que sofreu o velho café, dando-lhe características luxuosas, sem alterar o cunho lisboeta e tradicional.
   O Café Tavares, com a sua boa cozinha, acompanhou toda a aura do romantismo, atraiu as celebridades e elegâncias desse tempo e deu alma e magnificência a época que se lhe seguiu. (...)

Café-Restaurante Tavares [ant. 1909]
Rua da Misericórdia, 37; Rua das Gáveas, 26

Alberto Carlos Lima, in AML
   
   No botequim de Manuel Tavares, como chamaram a principio a essa casa, que era taciturna, tristonha, com uma espécie de quiosque junto à coluna central, e iluminada a azeite de peixe, vendia-se neve no Verão, carapinhadas depois das 11 horas da manhã, e sorvetes de tarde. 
    Está dito e rediito que o que havia de melhor tom, nas principais classe da Sociedade, frequentava com maior ou menor assiduidade, o salão ou os gabinetes reservados do Tavares Rico. E que horas estonteantes de alegria e de amor, se teriam vivido nesses misteriosos compartimentos! Quantas pequenas histórias se contam, e quantas ficaram só no conhecimento dos seus íntimos figurantes! Murmurava-se nos centros da má-língua, que o infante D. Afonso, acompanhado a seu gosto, ceava aqui de quando e quando, com discrição, em certo gabinete da sua preferência. (...)

Café-Restaurante Tavares, c. 1910 e 1940, respectivamente
Rua da Misericórdia, 37; Rua das Gáveas, 26

in AML

    Foi aqui, no Tavares Rico, que germinou a criação dos Vencidos da Vida. O grupo incluía, entre outros, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Bernardo Pinheiro Correia de Melo (1º Conde de Arnoso) e António Maria Vasco de Mello Silva César e Menezes (9.º conde de Sabugosa). Eça de Queirós integrou o grupo a partir de 1889.

   Antes da primeira Grande Guerra a vida era tranquila e a estabilidade de preços mantinha-se num equilíbrio que não despertava preocupações pelo futuro. Por isso tem interesse a inclusão do recorte deste anuncio publicado em 1908, quando o proprietário do café era Manuel Caldeira:

Café-Restaurante Tavares
Cozinha à Francesa
Mesa redonda
Almoços a 600 réis. Jantares a 800 réis.
Serviço à la carte
Serviço de cozinha até às 2 horas da madrugada. 
  
Café-Restaurante Tavares, interior de um gabinete [c. 1900]
Rua da Misericórdia, 37; Rua das Gáveas, 26

in AML

Café-Restaurante Tavares, salão [c. 1900]
Rua da Misericórdia, 37; Rua das Gáveas, 26

   Os tempos continuaram a rodar, e nem sempre foram propícios a este ramo da indústria. No centro da Baixa apareceram outros restaurantes chiques, mais reclamados, que entraram na  moda. Vieram épocas de crise económica. E, deste somatório de coisas, surgiu a noticia fatal. Um dos mais lidos vespertinos da Capital (Diário Popular, 4-11-1955), sob o titulo Vai desaparecer o Restaurante Tavares, de grandes tradições na vida boémia e galante de Lisboa?. veio confirmar o que andava de boca em boca, dizendo textualmente, logo no primeiro período:
«O velho restaurante Tavares, de tão grandes tradições grandes tradições na vida boémia e galante de Lisboa, vai, segundo parece, encerrar as suas portas — e mudar o ramo de negócio. Com o desaparecimento do Tavares, perde a cidade mais um dos seus característicos e tradicionais lugares de reunião dos antigos literatos e de gente divertida.»
   Não se tendo cumprido os vaticínios proclamados, o Tavares Rico reabriu em 1956 de forma brilhante.No dia seguinte os jornais embandeiraram em arco  ao fazer o noticiário da festa de que recortamos o comentário com que o redactor de O Século (15-1.1956) rematou a sua reportagem:
   «Lisboa nova tem, desde hoje, novamente o Tavares Rico.  E não é exagero pensar que pela encantadora sala vão outra vez passar figuras da sociedade lisbonense, já que não é possível ressuscitar alguns dos que tão bem sabiam conjugar o espírito boémio com a boémia do espírito.»

Café-Restaurante Tavares [c. 1900]
Entrada para os gabinetes reservados pela Rua das Gáveas, 26

Fotógrafo não identificado, in AML

   Políticos, jornalistas, escritores, artistas, diplomatas e boémios do espírito e da própria política — que também tem a sua boémiapor aqui passaram, nas fases do jornalismo literário, nos períodos humorístico-sentimentais que caracterizam as revoluções de ideias e de processos. 

Bibliografia
(COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, 1938)

Thursday, 10 November 2016

Palacete do Conde de Agrolongo

Com projecto do arq. Arnaldo Adães Bermudes (1864-1948) foi mandado construir pelo Conde de Agrolongo em 1909, tendo-lhe sido atribuída uma menção honrosa do Prémio Valmor desse ano. Palacete urbano com função residencial, de planta quadrangular, desenvolve-se em três pisos, sobressaindo do conjunto uma torre, também de planta quadrada, mas de quatro pisos, que dispõe no topo de um mirante. A sua linguagem ecléctica, perfeitamente moderna, inspira-se nas últimas fases do renascimento, lembrando a arquitectura das épocas de Henrique IV e Luís XIII, misturando, também, alguns motivos característicos da arquitectura portuguesa da mesma época. 

Palacete do Conde de Agrolongo [1909-1910]
Rua do Sacramento à Lapa, 34-38
in Anuario da Sociedade dos Architectos Portuguezes

Obras de remodelação posteriores alteraram a sua traça inicial, essencialmente ao nível da fachada, pois o terraço existente foi suprimido, assim como os motivos decorativos mais expressivos de uma linguagem ecléctica da época (molduras, frontões das janelas e portas, balcões com balaústres, pormenores escultóricos, entre outros).
Localiza-se numa artéria da zona da Lapa que divide dois vastos quarteirões integralmente preenchidos por palacetes urbanos e respectivas áreas ajardinadas. O imóvel apresenta a fachada alinhada com a rua, encontrando-se os jardins ocultos pelos muros contíguos, que sobem até à altura do segundo piso da casa e se apresentam rematados por balaustrada.

Palacete do Conde de Agrolongo [1974]
Obras posteriores alteraram, com grande significado, a fachada principal
Rua do Sacramento à Lapa, 34-38
in Arquivo Municipal Lisboa

Tuesday, 8 November 2016

Rua da Regueira esquina do Beco das Cruzes

   E agora, Dilecto, temos que parar, com enlêvo justificado. Estamos em presença do mais delicado especime pitoresco lavado de todo o Bairro, esquina da Rua Beco das Cruzes, porta n.º 1, e da Rua da Regueira n.º 37.
   Só para o ver merecia a pena andar neste jôgo de escondidas de ruas e ruelas, de escadinhas e de cunhais.
   Os ressaltos seiscentistas das casas de dois andares, da melhor construção no seu tipo popular, assentam sobre fortes cachorros de pedra, em qualquer das suas faces, tão decorativos quanto característicos. Do lado das Cruzes rasgam-se duas janelas, xadresadas por além das grades da sacada ou varanda, num adorável conjunto; a porta é de boa guarnição de setecentos. Do lado da Regueira mais avulta o interesse desta pequena edificação, com uma janela do tipo já citado sob o ressalto, e duas sobrepostas nos andares.

Rua da Regueira: esquina do Beco das Cruzes [c. 1952]
Casa de ressalto
António Passaporte, in AML


Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 61)

Saturday, 5 November 2016

E Tudo o Terramoto Levou: a Grande Capela ou Igreja Patriarcal de D. João V

Já disse que o edifício municipal ocupa o espaço que era o do Pátio da Capela Real, pátio com suas arcadas e galerias, nas quais se ostentavam «capelas e tendas, ou tendas da Capela.


   A primeira Capela Real do Paço — que tinha a invocação de S. Miguel, e que fazia parte do Paço da Ribeira —, ficaria neste lado sul do Pátio, que olha para a Rua do Arsenal defronte dos Correios. Só em 1531 passou mais para Norte — onde está o abandonado templo de S. Julião, vendido pela Aqui-confraria ao Banco de Portugal [actual Museu do Dinheiro] em 7 de Julho de 1933 —; foi ampliada em 1610 e 1619.
   Em 1716 a Capela Real foi elevada, por esforços de D. João V, a Catedral Metropolitana e Patriarcal de Lisboa Ocidental, e logo o rei pensou na sua reedificação; em 1746 estava de pé a Grande Capela ou Igreja Patriarcal, do orago de N. Senhora da Assunção.
   O pequeno Largo fronteiro, antepassado dêste. onde estamos, chamou-se por isso «da Patriarcal».
   O Terramoto reduziu tudo a cinzas; a riqueza da Patriarcal desapareceu, e tudo em redor, incluindo o vasto e imponente Paço da Ribeira.

Maqueta de reconstituição da cidade de Lisboa antes do Terramoto de 1755
Planta da primeira Igreja Patriarcal a vermelho (clicar para ampliar)
in Museu de Lisboa, núcleo instalado no Palácio Pimenta ao Campo Grand

D. João V, O Magnânimo — cuja corte beneficiava de excepcional desafogo financeiro, graças ao ouro do Brasil — engrandeceu bizarramente a Capela Real. Sob a orientação de João Frederico Ludovice, o arquitecto e ourives alemão ao serviço do rei, inicia-se a transformação da capela adjacente ao Paço da Ribeira em  Patriarcal, uma das mais magníficas igrejas de então, réplica miniatural do Vaticano, cujo esplendor era alimentado por constantes encomendas a artistas estrangeiros, sobretudo romanos, uma vez que Roma era o mais conceituado centro de produção artística da Europa. 

Ruínas da  Igreja Patriarcal de D. João V [1755]
Antiga Praça (Largo) da Patriarcal, actual Praça do Município

Jacques Philippe Le Bas (1707-1783), gravura

As prodigalidades deste monarca eram extraordinárias; enriqueceu os conventos, deu dinheiro ilimitado aos fidalgos; nos últimos anos da sua vida mandou rezar para cima de 700.000 missas; por urna imagem que o papa benzeu, de prata dourada, deu 120.000 cruzados; para Jerusalém mandou 1.377 cruzados; fundou o convento do Louriçal dotando-o com 6.000 cruzados, e deu-lhe muitas alfaias e pratas; ceou dois bispados no Brasil; mandou para diferentes igrejas do estrangeiro alfaias e adornos de incalculável valor; em indulgências e canonizações enviou para Roma perto de 1,38 milhões de cruzados; na missão que foi a Roma assistir a um conclave gastou-se para cima de dois milhões de cruzados; ao núncio Bichi, quando se retirou de Lisboa, mandou dar-lhe 1.000 moedas para ajuda da viagem; ao cardeal Oddi deu-lhe uma caixa de brilhantes no valor de 20.000 cruzados, etc. Apesar da sua exagerada devoção, não tinha escrúpulo em profanar a clausura das virgens do Senhor, o que lhe adquiriu o titulo de rei freirático, transformando, por exemplo, o convento de Odivelas, sustentando escandalosamente os seus amores com a madre Paula, freira sua predilecta.

Planta da Igreja Patriarcal [c. 1775?]
Planta feita depois do terramoto de 1755, mostrando o local onde se encontrava a Patriarcal ao lado do Paço da Ribeira, assim como todas as acomodacôes do Patriarca, os Principais, o tribunal da Congregaçao Camarária, etc., que se encontram descriminados à margem da planta.
Título: «Planta Geometrica pella qual se mostra a formalidade e grandeza, que tinha a S.ta Igreja Patriarchal, abrazada junto aos Passos da Ribeira das Naos; (...)»
in BNP

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 13-14 [1939])
(arqnet.pt)

Thursday, 3 November 2016

E Tudo o Terramoto Levou: a Real Ópera do Tejo ou Casa da Ópera

Ora em 1755 aqui, onde se ergue o edifício da Câmara Municipal, existia o pátio esplendoroso da Capela Real (…). Da porta do Arsenal, para poente (Rua do Arsenal fora, então Rua do Arco dos Cobertos) ficava a Casa da Ópera, construída dois anos antes do Terramoto; defronte do Pátio citado da Capela, do lado sul, isto é, na Rua hoje do Arsenal, entre a face do edifício onde estão repartições dos Correios, e a face lateral da Câmara, rasgava-se um não grande Largo do Relógio ou das Tendas da Capela. [1]

 

O palco da Ópera do Tejo no dia da sua inauguração, 31 de Março de 1755.
A ópera era Alessandro nell'Indie, de Perez.

Obra de Giovanni Carlo Sicinio Gali Bibiena, membro de uma prestigiada família de arquitectos e cenógrafos teatrais, a Real Ópera do Tejo, segundo os escassos testemunhos, seria um sumptuoso edifício com decorações a branco e dourado. Teria uma lotação de 600 lugares.
Na Primavera de 1755, pelo aniversário da Rainha Dona Mariana Vitória, é inaugurado o Teatro Real da Ópera, ou Ópera do Tejo, por iniciativa régia. A estreia recaíria em libretos de Pietro Mestatasio, musicadas por David Perez: Alexandro nell`Indie.
Numa sequência da ópera Alexandre na Índia apresentar-se-iam em cena, simultaneamente, 25 cavalos, demonstrando a capacidade do palco. A monumentalidade dos cenários foi complementada por ricos efeitos espectaculares, a cargo do maquinista Petronio Mazzoni. O elenco contou com duas das maiores estrelas internacionais da época, os castrati Anton Raaff, no papel principal, Alessandro, e Caffarelli no papel do antagonista, Poro.
O terramoto de 1 de Novembro de 1755, destruiria, por completo, aquele que era considerado um dos mais grandiosos teatros europeus. 

As ruínas da Ópera do Tejo após o Terramoto de 1755, por Jacques Philippe Le Bas (1757)

Embora não se conheça um registo exaustivo de todas as récitas (nem todas são mencionadas na Gazeta de Lisboa, pelo que não se sabe ao certo quantas de cada ópera foram apresentadas), sabe-se que tinham lugar às Segundas e Quintas-feiras. [2]

Bibliografia
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 12)
[2] (FARIA, Miguel Figueira de; A Ópera do Tejo e a sua ligação ao Paço Real: possíveis vestígios arquitectónicos, p. 93-99)

Tuesday, 1 November 2016

Retiro O Tanoeiro na antiga Estr. de Sacavém

As hortas que marcavam o seu dia grande em quarta-feira de Cinzas, tinham características  próprias, como o jogo do chinquilho, os cegos e respectivos moços a cantarem modinhas acompanhadas à guitarra e à viola, o canjirão e as inseparáveis canecas, o esforço vagaroso do boizinho, movendo a nora, o perfume natural das emanações do campo, propício ao veraneio de fidalgos. que tinham suas residências de verão para as bandas do Areeiro, e ar é à cura da tosse convulsa que exigia mudança de ares e fumo do combóio ... E que bons são os ares desces sítios!


Na Estrada de Sacavém, que começava junto da igreja paroquial de Arroios, existiam quintas célebres como a da Maria José, com a sua épica nora (no local hoje ocupado por parte da Alameda D. Afonso Henriques), e a do Filipe (entre a Praça do Chile e a Alameda D. Afonso Henriques), e retiros como o «Papagaio», o dos «Pacatos», o «Mexe. Mexe», a «Perna de Pau».
A Estrada de Sacavém, mercê da sua privilegiada situação, tornou-se preferida tanto pelas camadas populares, como pelas élites, e as suas hortas apetecíveis, acarinhadas pelos seus frequentadores, triunfaram brilhantemente.

Estr. de Sacavém [1947]
Em cima vê-se o Casal Vistoso (Areeiro)
Eduardo Portugal, in AML

O poeta Bulhão Pato dedica-lhes significativas palavras. Diz: Vamos para as bandas de Arroios; vamos para as hortas que estão a desaparecer. Ali há alguma coisa mais do que o desenho e a luz: a nora gemendo, m bordões e as primas da guitarra nacional, na mórbida cadência, acompanhando a letra onde há versos que rebentam do coração, como estes:
Puz um pé na sepultura
Uma voz me respondeu:
Ah! cruel, que estás pisando
Um amor que já foi teu!
E Gomes Leal pudera exteriorizar:
Apraz-me ir ver os alecrins das hortas,
risonhas, festivais, com seu matiz.
Vou, qual boémio lirico e feliz,
que busca o sonho para além das portas!...

Continuando pela Estr. de Sacavém, Já no Areeiro, ficava o «Retiro da Basalisa», onde havia grandes sessões de fado. O nome passou a ser mais tarde — «Tanoeiro».
Por detrás do Tanoeiro» encontrava-se o Casal Vistoso ou Quinta das Ameias, que data do século XVII e era dos Abreus e Castros, sendo considerado um local de ares lavados e privilegiada situação.

Estr. de Sacavém [1966]
Em cima vê-se o Casal Vistoso (Areeiro)
Augusto de Jesus Fernandes in AML

Bibliografia
MONTEIRO, João, Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», 1947.
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