domingo, 25 de setembro de 2016

Palácio Nacional da Ajuda: o palácio inacabado

Ora bem, Dilecto. Chegámos ao Palácio da Ajuda, monumento nacional, enorme casarão que de quási toda a Lisboa se avista presentemente reduzido a Museu, mas que não está aberto ao público. 


   O nome de Ajuda deriva da pequena Ermida desta invocação, erecta no século de quatrocentos no alto da Ajuda, e à qual andou ligada uma graciosa lenda: um pastor que por aqui trazia seu gado entrou em certa ocasião numa gruta entre fragas que caracterizava o lugar, e viu nela uma imagem da Virgem, que logo — e porque auxiliava os que a ela recorriam — ficou sendo a Senhora «da Ajuda», construindo-se defronte a Ermida. (...)
Aí estão as origens do nome e da humilde póvoa quinhentista.

Palácio da Ajuda, fachada  [1866]
Largo da Ajuda; ao centro, a Torre da Ajuda ou «do Galo»
Francesco Rocchini, in BNP

   A planta do Palácio da Ajuda é do risco do italiano Francisco Xavier Fabri e do português José da Costa e Silva, mais tarde alterada por Manuel Caetano de Sousa, havendo as obras principiado formalmente em 1802, tempo de D. João, príncipe regente, depois D. João VI. Pararam as obras em Novembro de 1807, e recomeçaram anos depois para paralizarem de novo em 1833, mas o Palácio, na sua grande ala logo construída começou a ser habitado em 1826, após a morte de D. João VI. No fim da monarquia era residência privativa da Rainha D. Maria Pia e do Infante D. Afonso.

Palácio da Ajuda, fachada  [c. 1900]
Largo da Ajuda
Fotógrafo não identificado, in AML

   Ora, Dilecto, não vamos «viajar» pelo grande palácio, que, a-pesar-de inacabado, é o maior do país. A fachada que vês, em cujas extremas se elevam êsses torreões, coroados por troféus, é uma das quatro que a grande mole quadrada deveria ter. É elegante esse corpo central, com três janelões sobre os três pórticos, guarnecidos de colunas dóricas.

Palácio da Ajuda, fachada  [c. 1950]
Perspectiva tirada da Calçada da Ajuda sobre oa fachada poente com projecto arquitectónico que prevê a sua conclusão (remate) até 2018
Judah Benoliel, in AML

   O interior do Palácio da Ajuda — entregue à Repartição do Património Nacional — só pode ser visitado com autorização especial. 
   Sumàriamente, e de cor, te forneço alguns elementos. Mas já te aviso : sem guia peder-te-ás aqui dentro.
Entra-se pela Sala dos Archeiros (2ª ft abaixo), à nossa esquerda, contigua à Sala do Porteiro da Cana. Logo encontraremos a Sala do Dossel, depois chamada da Audiência, e mais tarde da Espera (3ª ft.). Nesta Sala há tapeçarias feitas sobre cartões de Goya, algumas estátuas, de relativo mérito, e um teto de Volkmar Machado.
Logo a Sala dos Cães, com algumas peças de arte, entre as quais um D. Sebastião, escultura de Simões de Almeida. Outra Sala do Despacho (4ª ft) apresenta inúmeros exemplares de cerâmica, mobiliário e tapeçarias. Ccntinua-se então uma série de saletas, e logo a Sala de Música (5ª ft), o antigo quarto de D. Luiz, a Sala Azul, na qual se admiram três quadros de Silva Porto: «Carro de Bois», «À porta da locanda», e uma paisagem. As Salas de Mármore, de Saxe (6ª ft), e logo as Salas Verde e a Vermelha dão prolongamento a êste desfile de aposentos palacianos, que termina no Quarto de D.Maria Pia (7ª ft), e onde esta Rainha dormiu o seu último sono em Portugal. 
(clicar nas imagens para ampliar)


   Como te disse, Dilecto, isto é um casarão enorme, que parece infindável, devendo notares que não me refiro a todas as salas, mas só às principais. 
Já agora dois apontamentos àcêrea do pavimento superior. Na Sala, que foi o antigo e pitoresco quarto do Infante D. Afonso, havia até há pouco tempo quadros de Silva Porto e de João Vaz.
Segue-se uma série de salas e saletas, entre elas a do Corpo Diplomático, recheada de bons objectos de arte, e logo as Sala do Trono, a de D. João VI, a da Aclamação, a enorme Sala de Jantar, na qual, nos últimos anos, se realizaram alguns banquetes de grande gala diplomática, e ainda a Sala dos Embaidores.

   Não quis que ficasses «em branco» àcêrea do Palácio pròpriamente dito. A Biblioteca da Ajuda é, porém, o mais importante compartimento que o Palácio nos proporciona, cheia de preciosidades bibliográficas, e sem dúvida uma das mais notáveis do país. [1]

O Palácio Nacional da Ajuda foi declarado Monumento Nacional pelo Decreto de 16 de Junho de 1910. Durante as primeiras décadas do regime republicano dependia da Fazenda Pública, mantendo-se como palco para cerimónias oficiais e recebendo os visitantes que a Fazenda autorizava.

Bibliografia:
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 94-97)

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