quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Bica ou Chafariz de Arroios

Uma das mais belas curiosidades arqueológicas do sitio — desapareceu há três anos [c. 1935]. Já cá não está, e é pena. Mas vale um meio minuto de descrição.


Na velha Estrada das Amoreiras, antes da Charneca, havia voltada a Leste, uma graciosa bica ou chafariz — modesta é certo, mas histórica. Viam-se nela esculpidas as armas da cidade com seu navio, e as do Reino, com seu castelo e quinas. Tinha uma legenda que testemunhava ser a obra de 1624, mandada fazer pela «cidade à custa do Real d'Água». E por cima da vêrga que levava a mina viam-se duas inscrições, uma em letra gótica e outra em tipo corrente de inscrição, mas afirmando ambas que «na era de 1398 teve princípio esta fonte no campo de Lourenço Afonso Costas [thesoureiro do Concelho, sendo escrivão d'elle, Lourenço Duraens e mestre pedreiro do mesmo Concelho João Gialdi]»

Bica ou Chafariz de Arroios [c. 1900]
Largo de Arroios, antiga Estrada das Amoreiras hoje Rua Carlos José Barreiros
Fotógrafo não identificado, in AML

Até 1848 êsse chafariz, n.º 1, estava colocado na frente do prédio referido atrás que foi Palácio do Conde Guarda [vd. gravura]; depois mudaram-no para outro local, a poucos metros, onde a pobre bica acabou (1935) os seus dias: exactamente o sítio da porta 3-A do prédio novo da Rua Carlos José Barreiros.
E podia ter lá ficado, encravada no edifício, e a valorizá-lo, a Bica de Arroios. Era das mais velhas fontes de Lisboa. Foi pena, repito-te. Talvez que agora nos matasse a sêde, numa evocação gótica como a legenda de Arroios de há 550 anos. [1]

Largo de Arroios, gravura [c. 1813]
No último plano, a Calçada de Arroios e a antiga Estrada das Amoreiras (Rua Carlos José Barreiros) e o antigo Palácio do Conde da Guarda;  ao lado deste a Bica nº 1 ou Chafariz de Arroios; defronte ao palácio vê-se o célebre Cruzeiro de Arroios resguardado por um pavilhão envidraçado, cujo telhado piramidal descansava em pilares de cantaria. Este Cruzeiro foi erigido no reinado de D. João III, para comemorar a beatificação da Rainha Isabel de Portugal; no primeiro plano, à direita, o Palácio dos Senhores de Pancas hoje demolido.
[Sopa de Arroios] Desenho de SEQUEIRA, Domingos (1768-1837). Gravura em buril e água forte por QUEIROZ, Gregório, in  Biblioteca Nacional Digital

Por determinação camarária, de 9 de Março de 1848, passou a Bica de Arroios para o princípio da Estrada das Amoreiras (hoje Rua Carlos José Barreiros), a pedido do proprietário do Palácio do Conde da Guarda, Desembargador João Lopes Calheiros de Meneses, que contribuiu com a quantia de 48$000 réis. A primeira água veio a correr em 6 de Dezembro de 1848, sendo os sobejos concedidos ao Palácio dos Senhores de Pancas, mediante o foro anual de 50 réis. Possuía duas torneiras onde o povo e os aguadeiros se abasteciam e, da parte de baixo, uma bica [de água salobra] corria continuamente para um grande tanque, que servia de bebedouro para o gado.
Crê-se que as pedras de maior valor, tanto as inscrições como o escudo e a caravela, recolheram ao Museu das Galveias. [2]
[3]

O prédio da Rua Carlos José Barreiros, antiga Estrada das Amoreiras, que tem actualmente o n.º 3, em cuja frente estava colocada a mencionada bica ou chafariz de Arroios [c. 1950]
Judah Benoliel, in AML

Bibliografia:
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 85)
[2] (Revista Municipal, nº 50 de 1951, p. 10, in Hemeroteca Digital)
[3] (idem nº 85 de 1968, p. 20)

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