quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Eden Cinema, o Piolho de Alcântara

Um dos primeiros jornalistas de cinema a comentar a importância das novas salas foi José Gomes Ferreira numa crónica de Março de 1931 que se juntava a um pequeno (mas crescente) conjunto de reportagens dedicadas especificamente aos cinemas de bairro que vinham sendo publicadas nas principais revistas de cinema desde o ano anterior. Numa viagem de táxi pelos “cinemas dos bairros afastados” (“o Oriental, o Europa, o Max Cine, o Imperial, todos”), Gomes Ferreira encontrou sempre lotações esgotadas e sessões animadamente ruidosas. “Dentro das salas”, escreveu, “ouviam-se gritos, assobios, sussurros. Algumas pareciam-me enormes: oitocentos lugares de carne humana, desejos de gozar a vida e suor. Depois, perguntava aos porteiros:
– Então?
– Ah, meu senhor! É isto todas as noites! O fim do mundo!
 (…) Em toda a parte encontrava a mesma paisagem, a mesma ânsia de arrombar as portas daquelas casas donde saíam gargalhadas pelas frinchas!
(José Gomes Ferreira, «Crónica», Kino, nº48, 1931)

Eden Cinema, Rua do Alvito, 4 [c. 1940]
Eden Cinema (prédio de cor branca, no n.º 4 da Rua do Alvito); Rua da Cruz a Alcântara

Eduardo Portugal, in AML

O Eden Cinema foi inaugurado em Março de 1921, em Alcântara, na Rua do Alvito, 4, com a exibição do filme “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, estreado meses antes no Cinema Condes, nos Restauradores.
Este cinema piolho servia o público do bairro industrial e fabril do bairro de Alcântara, muito antes da zona se tornar centro de atracção nocturna com os seus bares e discotecas. Os apelidados cinemas piolho (ou de reprise) eram caracterizados por ter sessões contínuas, um público muito jovem de classes sociais mais baixas e claro, com condições de higiene precárias, não sendo incomum sair da sala com um incomodativo passageiro achatado.
A sua lotação era de 568 lugares distribuídos por 219 lugares na 1ª Plateia; 90 na 2ª Plateia; 168 no 1º Balcão e 91 no 2º Balcão. A sua exploração esteve durante muito tempo confiada à empresa J. Castello Lopes e Luciano Marques foi o seu gerente, representando a firma "Empresa Eden Cinema, Lda." que suportou este espaço.
No inicio da década de 1950, este cinema sofreria importantes obras de remodelação, principalmente na plateia, o que fez reduzir a sua lotação para 327 lugares. O Éden encerrou portas em 1971.
(JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias,cinemasparaiso.blogspot.pt)


Eden Cinema, Rua do Alvito, 4 [1966]
Augusto de Jesus Fernandes, in AML

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