Wednesday, 31 August 2016

Cine-Oriente: o Piolho da Penha

O Cine Oriente abriu portas ao público em 1931, no Caminho de Baixo da Penha (hoje Av. Gen. Roçadas). Uma sala "a preços populares", com "os melhores confortos e comodidades para o público". [1]


Em 1931, a revista «Cinéfilo» — suplemento semanal do jornal «O Século» — dedicava um artigo a uma nova sala de cinema da capital: o Cine-Oriente. Rezava assim:
Lisboa conta com uma nova sala de espectáculos cinematográficos, Cine-Oriente, assim se chama o cinema inaugurado. Fica situado na Penha de França.
É, quanto ao seu aspecto, um modesto salão, de construção simples mas alegre, comportando cerca de quinhentos lugares, cómodos e espaçosos e todos eles com excelentes condições de visibilidade, incluindo os do balcão. A cabina está apetrechada com uma máquina Pathé, o que garante uma boa projecção. A cabina está apetrechada com uma máquina Pathé, o que garante uma boa projecção.
Um quartêto musical, constituído por artistas de comprovado mérito, acompanhará todos os filmes que na sua tela forem apresentados.
Agora, que o populoso bairro da Penha de França possui um cinema para satisfazer as exigências dos admiradores da arte do silencio, é justo que eles avaliem os encargos provenientes da sua construção, que só podem ser compensa dos com uma assídua frequência. [2]

Cine-Oriente, Caminho de Baixo da Penha [c. 1950] 
Liga a Avenida General Roçadas à Rua da Penha de França; ao fundo, o Regimento de Transmissões à Rua dos Sapadores
Judah Benoliel, in AML

A história do Cine-Oriente começa em 1928 com António Joaquim Gonçalves, que pretendia adaptar para cinema um armazém que possuía no Caminho de Baixo da Penha. O projecto seria da responsabilidade do construtor civil João Tomás de Sousa. A obra ficaria concluída em 1930.
Era um típico cinema de bairro histórico, modesto mas bem construído, suportado por uma estrutura de aço e com o tecto forrado a chapa de ferro. As cadeiras eram de madeira e a sua  lotação era de 496 lugares distribuídos por 132 fauteuils, 168 nos balcões e 196 de geral.

Cine-Oriente, Caminho de Baixo da Penha [1963] 
Liga a Avenida General Roçadas à Rua da Penha de França
Artur João Goulart, in AML

Em 1934, tendo Alfredo Bernardo Lucas como empresário e proprietário do terreno, seriam realizadas obras que tornariam este espaço mais acolhedor e mais cómodo para o seu novo público. No ano seguinte este cinema passou a ter como arrendatário António Ferrão Lopes, (empresário cinematográfico ligado à produção, distribuição e exibição de filmes), posição que ocupou até 1977, ano em que este espaço encerrou devido à falta de público originada pela febre dos centros comerciais.[3]

Cine-Oriente, Caminho de Baixo da Penha [c. 1970] 
Liga a Avenida General Roçadas à Rua da Penha de França
Artur Inácio Bastos, in AML


Bibliografia:
[1] (CRUZ, José de Matos, Cinema português: o dia do século, p. 14, 1998)

[2] (CINÉFILO, Vol. 4, Edições 124-149 p.25, 1931,)

[3] (cinemasparaiso.blogspot.com)

Sunday, 28 August 2016

Chafariz das Necessidades

Já agora observaremos neste pequeno Jardim das Necessidades, sobranceiro a Alcântara, o obelisco de mármore rosa, encimado por uma cruz de bronze, sobre esfera de espinhos, e que se eleva dum chafariz gracioso, num conjunto que se ajusta ao local, tendo por fundo a fachada da Igreja. Data de 1747 e é também obra de mandado de D. João V; as magníficas carrancas de pedra completam a singela decoração do chafariz e de seu tanque, muito século XVIII. [1]


Chafariz das Necessidades [1928]
Largo das Necessidades, Jardim Olavo Bilac

Eduardo Portugal, in AML

Localizado no Largo das Necessidades no Jardim Olavo Bilac, fronteiro à Capela de Nossa Senhora das Necessidades, integra o conjunto do Palácio das Necessidades, classificado como Imóvel de Interesse Público. Este equipamento, datado de 1747, não foi construído com o objectivo de abastecer de água a população do local, mas sim, como resultado de um voto de D. João V, que em 1747 o consagrou à Virgem. A sua autoria tem sido atribuída a Caetano Tomás de Sousa, um dos mestres que acompanhou de forma continuada a construção do conjunto do Palácio das Necessidades.

Chafariz das Necessidades [1967]
Largo das Necessidades, Jardim Olavo Bilac; Capela de Nossa Senhora das Necessidades; pormenor das carrancas e golfinhos em pedra lióz

Artur Inácio Bastos, in AML

Entre 1772 e 1791 foi objecto de transformações, possivelmente sob a orientação do arq.º Reinaldo Manuel dos Santos, que lhe conferiram a utilidade de fonte pública. O elemento central deste conjunto é um obelisco aquático, de mármore, assente num pedestal quadrangular e rematado por uma custódia de espinhos e uma cruz de bronze, evidenciando o sentido religioso da obra. Obelisco este, que se eleva do centro de um tanque quadrilobado, assente sobre três degraus, o qual recebe a água que jorra de quatro elementos escultóricos, de inspiração barroca, compostos por carrancas exteriores e por golfinhos em pedra lióz no verso, colocados por cada lóbulo do tanque, entre a borda deste e cada uma das faces do pedestal do obelisco. [cm-lisboa.pt]

Chafariz das Necessidades [s.d.]
Largo das Necessidades, Jardim Olavo Bilac
 in AML

[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 20)

 

Nota(s): Infelizmente, as imagens deste chafariz disponibilizadas pelo AML são de baixa qualidade/resolução.

Saturday, 27 August 2016

Rua de S. Sebastião da Pedreira: Viaduto de Andaluz

"Ora eis-nos sob o viaduto da Avenida Fontes Pereira de Melo. É, como vês, um túnel, ou arco de passagem com certo interêsse de construção. Começado a construir em 1898 concluiu-se em 1900: desenhou--o e executou-o o condutor de obras públicas, ao serviço da Câmara Municipal, Henrique Sabino dos Santos.
Passado o Viaduto acaba S. Sebastião, e começa Andaluz." [1]

Viaduto de Andaluz [190-]
 Rua de S. Sebastião da Pedreira, Largo de Andaluz
Chaves Cruz, in AML

A Rua de S. Sebastião da Pedreira — tradicional estrada seiscentista — é um topónimo que advém do padroeiro do local, S. Sebastião.
D. João IV, no seu reinado, dedicou uma igreja no largo do mesmo nome a S. Sebastião da Pedreira, em 1652. Nesta freguesia, desde 1590 denominada de S. Sebastião da Pedreira, já existia uma pequena ermida de invocação ao santo que naquela sitio tinham construído os moradores da Rua das Arcas da freguesia de S. Nicolau, que tomaram o Santo como protector contra o mal da peste, prometendo ir lá todos os domingos com um sacerdote para celebrar missa, festejando o orago no seu dia — 20 de Janeiro — e fazendo procissão, que se realizou sempre até 1755. [2]

Viaduto de Andaluz [c. 1950]
 Rua de S. Sebastião da Pedreira; Avenida Fontes Pereira de Melo; Largo de Andaluz
Judah Benoliel, in AML

Bibliografia:
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. XIV, p. 85)
[2] (cm-lisboa.pt/toponímia)

Friday, 26 August 2016

Santa Justa

Rua de Santa Justa. Assim se denominará a sexta, e ultima das referidas travessas, e nella se alojaráõ os mercadores de lã, e seda, que naõ tiveram bastante accomodaçaõ na Rua Augusta. [1]

A remodelação paroquial de 1770 menciona esta artéria ora como Travessa ora como Rua, já que a descrição da Freguesia de Nª Srª da Conceição e a de Santa Justa a referem como «nova traveça de S. Justa» e nas plantas dessas mesmas freguesias surge como «Rua de S. Justa». E finalmente, o Edital municipal de 12 Novembro de 1892 retomou as nomenclaturas pombalinas e passou as Travessas de Santa Justa, da Assunção, de São Nicolau e da Vitória a Ruas.
Luís Pastor de Macedo sublinha ainda que «os nomes de S. Julião, da Conceição, de S. Nicolau, da Vitória e de Santa Justa, foram dados às ruas que mais perto passavam das igrejas e ermidas que com aquela invocação, segundo o plano estabelecido, se haviam de erguer ou se estavam já construindo.» [3]

Rua de Santa Justa [c. 1906]
Ao fundo, O elevador de Santa Justa
ou do Carmoinaugurado em 10 de Julho de 1902
Fotógrafo não identificado

De acordo com Norberto Araújo existiu aqui, à entrada das Escadinhas de Santa Justa na esquina da Rua dos Fanqueiros (vd. 2.ª imagem), a «paroquial de Santa Justa, uma das primeiras de Lisboa, fundada — crê-se — em l166». Por sua vez, o Pe. João Baptista de Castro escreve, em 1870, que «Uma das tres freg«ezias primitivas, que formou, e instituiu n'esla cidade o bispo D. Gilberto, logo que o inclyto D. Afonso Henriques a conquistou aos mouros, foi a de Santa Justa: e segundo consta das nossas Historias correndo o anno de 1173, a primeira igreja, para onde foi conduzido o sagrado corpo do invicto martyr S. Vicente, assim que chegou do Promontório sacro do Algarve a este porto, foi para esta de Santa Justa, para cuja lembrança permanecia na porta principal da igreja um nicho de pedra da parte do Evangelho com a imagem do santo.»  [2]

Rua de Santa Justa [c. 1930]
Ao fundo, na Rua dos Fanqueiros
antiga Nova da Princesa o prédio da «Companhia do Papel do Prado», mais tarde edifício da «Pollux», casa fundada em 1936
Paulo Guedes, in AML

A igreja sofreu um incêndio aquando do Terramoto. Pensou-se em construir outra, precisamente onde se ergueu depois o prédio da «Companhia do Papel do Prado», mais tarde edifício da «Pollux» (casa fundada em 1936),  mas com a transição da paroquial para igreja de S. Domingos a ideia gorou-se. Ainda segundo Norberto de Araújo, o edifício «converteu-se em teatro, o «Teatro de D. Fernando›, que existiu até 1860. Só depois se realizou a urbanização do local (1863-1864).» [4]

Bibliografia:
[1] (CASTRO, João Baptista, Mappa de Portugal antigo e moderno, 1870, Vol. 3, Parte V, p. 57)
[2] (idem, p. 182
[3] (cm-lisboa.pt)
[4] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 40-41)

Wednesday, 24 August 2016

Palácio Caldas

Recorda-nos o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações que «A origem do dístico "Caldas" procede dêste grande edifício, na nossa frente para nascente, cuja fachada deita para o largo entre o Chão do Loureiro e a Rua de S. Mamede, e que foi levantado no terceiro quartel do século do Terramoto por João e Luís Rodrigues Caldas, homens abastados do sítio. (...) 
   Por divagação, quero dizer-te, Dilecto, que êste sitio teve outras designações. Antes de "Caldas" se chamou algum tempo "Praça da Bela Vista", e anteriormente, um pouco antes do Terramoto, "Largo do Conde de S. Vicente", titular que por meados do século XVIII aqui perto teve prédios e casa sua. O nome histórico do sítio, e mais recuado, foi, porém, o de "Terreirinho do Ximenes". É que no local, onde depois do Terramoto assentou o prédio Caldas, possuía no comêço do século XVII, casas, chãos, e certamente moradia, uma opulenta família Ximenes, que de Castela, em 1476, tinha vindo para Portugal. Foi depois de 1755 que um Rodrigo Caetano Ximenes Pereira Coutinho Barriga e Veiga deu de aforamento ao citado João Rodrigues Caldas os terrenos onde êste edificou seu palácio.
   A designação "Largo do Caldas" data, pelo menos, de 1874e dura há século e meio. Não deve ter perdurado menos a denominação antiga de Terreirinho (ou Terreiro) do Ximenes.» [1]

Palácio Caldas [c. 1940]
Antigo Largo do Caldas; Largo Adelino Amaro da Costa, 2-7;
Rua de São Mamede; Rua do Chão do Loureiro, 8-18
Eduardo Portugal, in AML

Traduzindo uma arquitectura residencial, pombalina, este palácio urbano pós-terramoto, foi edificado por iniciativa dos irmãos Rodrigues Caldas, entre 1765 e 1775, no local onde anteriormente ao terramoto se erguera o Palácio dos Ximenes. Apresenta planta em L irregular, articulada em redor de pátio rectangular, com capela no seu extremo NE, edificada em 1766 sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição, característica do final do rococó. De concepção arquitectónica bastante simples e despojada, o edifício surge estruturado em quatro pisos e três frentes, com alçados animados pela abertura de vãos de tratamento simples, a ritmo regular, articulados, ao nível do último piso, com varanda corrida contígua a toda a frente do imóvel. No interior merece destaque o conjunto azulejar de alguma diversidade.

Palácio Caldas [1968]
Antigo Largo do Caldas; Largo Adelino Amaro da Costa, 2-7; Rua de São Mamede;
Rua do Chão do Loureiro, 8-18
Armando Serôdio, in AML

Em 22 de Dezembro de 1980, uma proposta dos vereadores da Aliança Democrática foi aprovada na Câmara, por maioria, no sentido de serem atribuídos os nomes de Adelino Amaro da Costa e o de Francisco Sá Carneiro a artérias de Lisboa. A Comissão de Toponímia em 13 de Janeiro de 1981 sugeriu para o efeito as duas alamedas interiores do Campo Grande.
E foi o então Vereador da Cultura, Dr. João Martins Vieira que designou o antigo Largo do Caldas, onde se encontra a sede do CDS/PP para se homenagear Adelino Amaro da Costa (Lisboa/18/04/1943- 04-12-1980/Camarate), licenciado em Engenharia Civil pela Universidade Técnica de Lisboa que com Freitas do Amaral foi um dos fundadores do C.D.S.- Centro Democrático Social.
Foi presidente do grupo parlamentar do CDS, Ministro de Defesa no Governo presidido por Sá Carneiro e faleceu vítima do desastre de aviação, quando ambos se deslocavam ao Porto para um comício de campanha eleitoral. [2]

 Bibliografia:
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa,, vol. II, pp. 12-13)
[2] (cm-lisboa.pt)

Sunday, 21 August 2016

Convento do Sacramento

Estamos na Rua. do Sacramento. Antecedido por um pátio, defendido da rua por uma cortina de grades, aqui tens um antigo casarão conventual, edifício dependente do Ministério da Guerra, que desde 1916 o destinou a Depósito de Material de Aquartelamento do Exército. [1]


 Perto de Alcântara, à Rua do Sacramento, encontra-se um edifício que foi convento de religiosas Dominicanas, o quarto mais antigo fundado pela Ordem. Por escritura do início do séc. XVll (1605), foram seus benfeitores D. Luís de Portugal e sua mulher, D. Joana de Castro e MendonçaCondes de Vimioso, que viriam a recolher-se à vida conventual na casa que a Ordem primeiramente possuiu em S Vicente de Fora. Foi portanto aí que em 1607, a Condessa de Vimioso e outras 6 freiras se congregaram: 4 do convento de Santa Catarina de Évora; 1 da Anunciada; 1 do convento de Jesus de Aveiro; tendo como prioresa Madre lsabel de Jesus.
Em 1612, D. Aleixo de Meneses, Primaz da Índia e de Espanha, lançou a primeira pedra do novo convento do Sacramento, mudando-se as freiras, 4 anos depois, para Alcântara. (...) Concluída a igreja em 1620, foi refeita em 1636 com arquitectura mais agradável, sob a direcção do vigário do Convento (e do Conselho Geral do Santo Ofício) Frei João de Vasconcelos.

Convento do Sacramento  (Convento do Santíssimo Sacramento/Convento dos Vimiosos) [c- 1940]
Rua do Sacramento, 51
Eduardo Portugal, in AML

Em 1614, outro casal trilhou o mesmo rumo conventual: neste Mosteiro professou  D. Madalena de Vilhena, sob o nome de Soror Madalena das Chagas, a mulher de D. João de Portugal (o Romeiro do drama «Frei Luiz de Sousa» de Almeida Garrett); D. Madalena de Vilhena, supondo seu marido morto em Alcácer Quibir, casara com D. Manuel de Sousa Coutinho, que foi depois o erudito Frei Luiz de Sousa, famoso dominicano. (ARAÚJO, 1939) Com o terramoto de 1755 sofreu o Convento do Sacramento estragos de pouca monta, segundo parace, em virtude dos «gigantes» que lhe sustentavam as paredes.
Após a extinção das Ordens Religiosas e a implantação da República, aqui se instalou a Academia das Ciências de Portugal, fundada por Teófilo Braga, passando depois para os militares, como Departamento Geral de Material de Aquartelamento.

Convento do Sacramento  (Convento do Santíssimo Sacramento/Convento dos Vimiosos) [1968]
Rua do Sacramento, 51
Arnaldo Madureira, in AML

Bibliografia:

[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 13)

[2] (CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa, p. 116)

Saturday, 20 August 2016

Mercado Geral de Gados

As acomodações deste mercado podem recolher 1000 bois, 2000 ovelhas, carneiros e cabras, 500 porcos e 200 cavalos.


Em 1888, é fundadoentre as actuais avenidas Cinco de Outubro e da Repúblicao Mercado Geral de Gados. Foi construído por uma sociedade particular de José Maria Pereira de Lima e António Vitor Reis e Sousa, em acordo com a Câmara Municipal de Lisboa. O risco foi do arq.º Parente da Silva, e sofreu modificado pelo arq.º Machado Faria e Melo. Depois de desactivado em 1952, foi, em 1962, implantado neste local o recinto da  Feira Popular.

 Em 1888, a Câmara de Lisboa rectificou a concessão, que anteriormente fizera, para a construção e exploração de um mercado permanente de gado, constituindo-se a Companhia do Mercado Geral de Gados, para a venda e exposição de toda a qualidade de animais úteis à vida doméstica,devendo os introdutores de gado pagar determinadas quotas, por cabeça, e tendo-se estabelecido que todo o o gado destinado ao consumo da cidade recebesse naquele mercado o primeiro exame de sanidade.

Mercado Geral de Gados [c. 1950]
O Mercado Geral de Gados foi instalado nos terrenos existentes entre o Campo Pequeno e o Campo Grande [entre as avenidas Cinco de Outubro e da República], numa área de 200 metros de largura por 100 metros de comprimento

Fotógrafo não identificado

 O Mercado Geral de Gados foi instalado nos terrenos existentes entre o Campo Pequeno e o Campo Grande [entre as avenidas Cinco de Outubro e da República], numa área de 200 metros de largura por 100 metros de comprimento. Na frente principal, três largos portões de ferro, formados por pilares de cantaria, ligam para os lados com duas cortinas de grades, no limite das quais há outros dois portões. Seguem-se de cada lado dois pavilhões, de dois pavimentos, destinados a secretarias, e a eles se ligam outras duas construções só de pavimento térreo para abrigo do gado caprino, lanígero e ovídeo. Nos ângulos desta frente erguem-se dois frontispícios semelhantes à frontaria dos pavilhões.

Mercado Geral de Gados [Inicio séc XX]
Avenida da República [antiga Ressano Garcia]
O edifício onde se concluem as transacções, denominado Bolsa, está no meio do Mercado, constando de dois octógonos, circunscrito e inscrito paralelamente, e coroado por grande cúpula com seu lanternim

Paulo Guedes, in AML

 Dos lados norte e sul são as abegoarias do gado bovino. Do lado ocidental fecham o mercado construções semelhantes à da frente principal, tendo ao centro uma grande cavalariça. O edifício onde se concluem as transacções, denominado Bolsa, está no meio do Mercado, constando de dois octógonos, circunscrito e inscrito paralelamente, e coroado por grande cúpula com seu lanternim; o octógono exterior tem um raio de 20 metros e o octógono interior um raio de 14 metros; a altura máxima desta construção é de 31 metros.

Mercado Geral de Gados [1944]
Avenida Cinco de Outubro; Ramal da linha de cintura para o Mercado Geral de Gados em Entrecampos;ao fundo, a actual Av. das Forças Armadas

Eduardo Portugal, in AML

 O espaço de 6 metros, que há entre os dois octógonos, é dividido em gabinetes para uso dos corretores ou negociantes de gado. Há ainda telheiros para exposições e uma enfermaria para tratamento dos animais que ali adoeçam.As acomodações deste mercado podem recolher 1000 bois, 2000 ovelhas, carneiros e cabras, 500 porcos e 200 cavalos. Pelo desenvolvimento que têm tomado os mercados de Lisboa se pode também aquilatar o aumento da sua população nos últimos cem anos. [1]

Mercado Geral de Gados [ant. 1952]
Gado pastando no recinto do Mercado Geral de Gados; ao fundo, a Avenida Cinco de Outubro

Judah Benoliel, in AML

[1](MESQUITA, Alfredo, Lisboa: Perspectivas & Realidades, p. 583, 1903)

Friday, 19 August 2016

Palacete da Avenida Fontes Pereira de Melo, 28

Esta Avenida Fontes Pereira de Melojá o tens notadoostenta propriedades de certo sentido aristocrático de arquitectura; lembro-te o palacete do capitalista José Maria Marques, n.° 28, arquitecto Norte Júnior (Prémio Valmor de 1925 1914) (...) ¹


Este palacetena Avenida Fontes Pereira de Melo, formando gaveto com a Rua Andrade Corvo foi construído no início do século XX, para residência de José Maria Marques, com projecto do arqº Norte Júnior. Congrega elementos barrocos, neo-românicos, neo-árabes e Arte Nova num estilo ecléctico característico da época. Congrega elementos barrocos, neo-românicos, neo-árabes e Arte Nova num estilo ecléctico característico da época. A escolha deste prémio impôs-se pela «originalidade e disposição engenhosa da fachada principal e pela exuberância da decoração».

Palacete da Avenida Fontes Pereira de Melo, 28, gaveto com a Rua Andrade Corvo [c. 1914]
Paulo Guedes, in AML

No ano de 1911 José Maria Moreira Marques, capitalista com negócios no Brasil, apresentou à Câmara de Lisboa um pedido para a construção de uma casa no seu terreno na Avenida Fontes Pereira de Melo, apresentando um projecto assinado pelo arq.º Manuel Joaquim Norte Júnior. O conjunto, que incluía sala de ginástica na cave, casa para capoeira e casa de tanques, foi construído entre 1911 e 1915, data da última licença para a edificação da marquise de ferro do jardim. O projecto foi vencedor do Prémio Valmor no ano de 1914 (erradamente esculpido na fachada com a data 1915).
Não sendo o maior palacete projectado por Norte Júnior, é seguramente o que apresenta o programa decorativo mais exuberante, embora a profusão de motivos ornamentais em nada altere o equilíbrio do projecto. A inserção num gaveto rectangular, no qual a casa ocupa apenas metade da área, denota a perícia do arquitecto como projectista, apresentando uma planimetria distinta das que nos anos imediatamente anteriores criara para edifícios congéneres nas Avenidas Novas.

Palacete da Avenida Fontes Pereira de Melo, 28, gaveto com a Rua Andrade Corvo [1967]
Actual Sede do Metropolitano de Lisboa; contíguo ao palacete vê-se o prédio que alberga o Teatro Villaret

Augusto de Jesus Fernandes, in AML

No interior, os espaços dispõem-se de forma simétrica em torno da escada e do vestíbulo, elementos centrais da casa que conferem monumentalidade ao edifício. Inclui um sumptuoso programa decorativo, com madeiras exóticas, estuques pintados e dourados, frescos, e um elevador, à época um elemento funcional de luxo. 
Em 1950 a Câmara de Lisboa comprou aos herdeiros de José Marques o edifício, e quatro anos depois alugava o espaço ao Metropolitano de Lisboa, que o ocupa até hoje. ²

Palacete da Avenida Fontes Pereira de Melo, 28, gaveto com a Rua Andrade Corvo [1971]
Sede do Metropolitano de Lisboa

Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 81, 1939.
² DGPC

Wednesday, 17 August 2016

Palácio de Alvor-Pombal

Janelas Verdes — por quê? Talvez pelas varandas do que foi o seiscentista Palácio Alvor, e, de há meio século, é o Museu Nacional de Arte Antiga. E lá estão, ainda, as janelas verdes, de varões grossos, numa fileira simétrica corrida, dominando os portais armoriados. [1]


O Palácio das Janelas Verdes foi edificado em 1690 pelo Conde de Alvor, D. Francisco de Távora, que foi vice-rei da Índia. Com o pretexto da conspiração contra D. José, o palácio foi confiscado aos Távoras herdeiros e, pouco depois. foi adquirido por Matias Aires Ramos da Silva, naturalista e letrado, que foi provedor da Casa da Moeda. Em 1760 passou às mãos de Paulo de Carvalho, irmão do Marquês de Pombal; em 1770 o grande Ministro herdou-o do irmão. O Palácio na transposição da posse dos Alvores sofreu modificações na sua fisionomia seiscentista, com restauros e sobreposições ostensivas de nobreza, e fazendo-o cair no rococó, sem todavia o fazer amesquinhar até à trivialidade. (Neste Palácio morreu em 26 de Janeiro de 1873 a Imperatriz [do Brasil] Maria Amélia de Beauharnais, segunda mulher de D. Pedro IV [1.° imperador daquele império].
O Museu Nacional de Arte Antiga, denominação que data de 1911, foi inaugurado neste Palácio em 12 de Junho[?] de 1884, com a presença do Rei D. Luiz (...).[2]

Palácio de Alvor-Pombal [1858]
Rua das Janelas Verdes; à esquerda, o Chafariz das Janelas Verdes
no Largo Doutor José de Figueiredo

Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF


[1] (ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 88)

[2] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 64-65)

Tuesday, 16 August 2016

Café Suisso

O Café-Restaurante Suisso, com outra clientela mais estoira-vergas, de «marialvas» e de toureiros, foi fundado em 1848 por João Líeng Meng, um suíço. [1]

 

Café Suisso [c. 1910]
Praça Dom João da Câmara (Antigo Largo de Camões); Rua 1º de Dezembro 
(Encerrado c. 1950 aquando da demolição do prédio onde estava instalado)
Joshua Benoliel, in AML

Porta adiante, o Suisso. O Suisso é mais difícil de descrever pela flutuação dos seus frequentadores. Parece um porto de mar de larga escala. Ali param todos os estrangeiros e todos os estranhos. Toureiros e carteiristas espanhóis, viajantes de vapores surtos no Tejo, artistas de circo, cançonetistas de cinematógrafos, jornalistas, homens de teatro, todos ali passam ou param. Não chega a ter clientes certos, porque a multidão dos que circulam não deixa criar hábitos. Não há uma mesa que se possa considerar como certa e onde se possa passar aquelas horas de cavaco ameno em face dum copo de água, que são o ideal quási meia Lisboa. Ouvem-se ali as línguas mais variadas e o Suíço é uma redução ínfima da Babel da Lenda, com a diferença que em Babel trabalhava-se e no Suisso preguiça-se. 
André Brun (1881-1926). A Baixa às 4 da tarde [1910]

Café Suisso [1949]
Praça Dom João da Câmara (Antigo Largo de Camões); Rua 1º de Dezembro 
(Encerrado c. 1950 aquando da demolição do prédio onde estava instalado)
Eduardo Portugal, in AML

[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 85)

Monday, 15 August 2016

Rua do Carmo que foi Calçada do Rubim

Espreita-me a Rua Nova do Carmo, a nossos pés, e a pique



"Vamos entrar na Rua do Carmo, que principiou por se chamar Rua Nova do Carmo", escreve Norberto de Araújo nas suas Peregrinações, recordando que "esta Rua Nova do Carmo — o princípio do «Chiado», que hoje por extensão designativa começa logo à saída do Rossio — é relativamente moderna. Ela não existia até ao Terramoto, nem assenta sôbre qualquer caminho ou traçado de pé pôsto, que houvesse antes de 1755." [1]

Rua do Carmo [1903]
O ascensor foi construído entre 1898 e 1901 pelo engenheiro Mesnier du Ponsard, 
e inaugurado em Setembro de 1901, funcionando nos dois primeiros anos a vapor.[1]
Fotógrafo não identificado

Por sua vez, Luís Pastor de Macedo na sua Lisboa de Lés a Lés, defende que esta artéria também teria sido a Calçada do Rubim, que viu mencionada no Almanaque de Lisboa de 1800 e acrescenta «Podemos dizer onde era: nos limites das freguesias do Sacramento e da Conceição Nova; e podemos dizer que nome tem hoje: Rua do Carmo " [2]

Rua do Carmo [post. 1910]
O ascensor foi construído entre 1898 e 1901 pelo engenheiro Mesnier du Ponsard, 
e inaugurado em Setembro de 1901, funcionando nos dois primeiros anos a vapor.[1]
Alexandre Cunha, in AML

[1](Norberto de Araújo, «Peregrinações em Lisboa», vol. VI, p. 82)
[2](Toponímia de Lisboa)

Sunday, 14 August 2016

Capela (Igreja) da Ascenção de Cristo

Situada na Calçada do Combro, foi fundada por António Simões de Pina, em 1500, o que se testemunha pelo ritmo da fachada alta e estreita, a pequena torre sineira, e frontão em chaveta certamente muito transformados no século XVIII.
Segundo Norberto de Araújo «Foi reconstruída no século XVII, segundo se lê na legenda sôbre o pórtico: «Esta obra se fêz à custa dos irmãos de Nª. Sª. do «Emparo» no ano de 1673». Esta ermidinha, que tem apenas três capelas, é uma relíquia do sítio, e muito mais antiga do que a importanteigreja dos Paulistas.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 31)

Capela (Igreja) da Ascenção de Cristo [1941]
Calçada do Combro, 74 

Eduardo Portugal, in AML


De acordo com Júlio de Castilho, este pequeno templo «Gosava muita notoriedade já nos fins do século XVI a ermida da Ascensão. Em 21 de Maio de 1692 determinou o Senado da Camara, que toda a pessoa que achasse menino perdido, o levasse ahi, e o entregasse à ermitôa.»
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga,, 1902, vol. III, p. 188)

Saturday, 13 August 2016

Calçada da Cruz da Pedra: Palacete Pereira Forjaz e Palacete Manique

A Calçada das Lajes abre, nesta Cruz da Pedra que Estrada foi, por dois palacetes, solares antigos, situados na esquina dos ângulos exteriores nascente e poente; êles constituíram na mancha solarenga arrabaldina, a que já aludi atrás, como que uma espécie de porta flanqueada. 
O palacete do nascente [Palacete Manique, o 2.º edifício ao fundo)], n.° 34,  e sôbre cuja verga do portal se vê, em pedra de letra de setecentos, o n.° 2 antigo, pertencia no meado do século passado ao Visconde de Manique (Pedro António de Pina Manique Nogueira Matos de Andrade), filho do famoso Intendente Diogo Inácio de Pina Manique. Passou mais tarde, por compra, a um dos Condes de S. Vicente.
 Os herdeiros do último Conde que aqui residiu resolveram desfazer-se desta peça do património da sua Casa, e, então, adquiriu, em hasta pública, o bloco urbano do palacete, com seus amplos terrenos, o industrial de bolachas Eduardo da Conceição e Silva. (...)
[Demolido na década de 1950 para dar lugar a uma escola] 

Palacete Pereira Forjaz e Palacete do Visconde de Manique [c. 1940]
O Palacete do Visconde de Manique foi demolido na década de 1950 para dar lugar a uma escola
Eduardo Portugal, in AML

Do palacete Manique, para o lado marginal da Rua, saía antigamente um passadiço, ou arco muito decorativoo Arco da Cruz da Pedra, demolido para benefício do trânsito em 1837.
O palacete do lado poente, n.° 58 [36-40], pertencia ao Conde da Feira, D. Miguel Pereira Forjaz, no começo de oitocentos, sendo herdado depois por um seu sobrinho, Visconde de Souto de El-Rei ; em 1873 comprou-o judicialmente um tal José Joaquim de Oliveira, e logo em 1875 o adquiriu a Condessa da Foz, já viúva, senhora da família Palha de Faria e Lacerda, que em 1884 o vendeu ao 3.° Conde de Bertiandos, D. Gonçalo Pereira da Silva de Sousa e Menezes, casado com D. Ana de Bragança, da casa de Lafões. O Palacete, que possue alguma história e interêsse artístico, está ainda em posse da familia Bertiandos. [1]

[1](ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, pp. 37-38)

Thursday, 11 August 2016

Eden Cinema, o Piolho de Alcântara

Um dos primeiros jornalistas de cinema a comentar a importância das novas salas foi José Gomes Ferreira numa crónica de Março de 1931 que se juntava a um pequeno (mas crescente) conjunto de reportagens dedicadas especificamente aos cinemas de bairro que vinham sendo publicadas nas principais revistas de cinema desde o ano anterior. Numa viagem de táxi pelos “cinemas dos bairros afastados” (“o Oriental, o Europa, o Max Cine, o Imperial, todos”), Gomes Ferreira encontrou sempre lotações esgotadas e sessões animadamente ruidosas. “Dentro das salas”, escreveu, “ouviam-se gritos, assobios, sussurros. Algumas pareciam-me enormes: oitocentos lugares de carne humana, desejos de gozar a vida e suor. Depois, perguntava aos porteiros:
– Então?
– Ah, meu senhor! É isto todas as noites! O fim do mundo!
 (…) Em toda a parte encontrava a mesma paisagem, a mesma ânsia de arrombar as portas daquelas casas donde saíam gargalhadas pelas frinchas!
(José Gomes Ferreira, «Crónica», Kino, nº48, 1931)

Eden Cinema, Rua do Alvito, 4 [c. 1940]
Eden Cinema (prédio de cor branca, no n.º 4 da Rua do Alvito); Rua da Cruz a Alcântara

Eduardo Portugal, in AML

O Eden Cinema foi inaugurado em Março de 1921, em Alcântara, na Rua do Alvito, 4, com a exibição do filme “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, estreado meses antes no Cinema Condes, nos Restauradores.
Este cinema piolho servia o público do bairro industrial e fabril do bairro de Alcântara, muito antes da zona se tornar centro de atracção nocturna com os seus bares e discotecas. Os apelidados cinemas piolho (ou de reprise) eram caracterizados por ter sessões contínuas, um público muito jovem de classes sociais mais baixas e claro, com condições de higiene precárias, não sendo incomum sair da sala com um incomodativo passageiro achatado.
A sua lotação era de 568 lugares distribuídos por 219 lugares na 1ª Plateia; 90 na 2ª Plateia; 168 no 1º Balcão e 91 no 2º Balcão. A sua exploração esteve durante muito tempo confiada à empresa J. Castello Lopes e Luciano Marques foi o seu gerente, representando a firma "Empresa Eden Cinema, Lda." que suportou este espaço.
No inicio da década de 1950, este cinema sofreria importantes obras de remodelação, principalmente na plateia, o que fez reduzir a sua lotação para 327 lugares. O Éden encerrou portas em 1971.
(JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias,cinemasparaiso.blogspot.pt)


Eden Cinema, Rua do Alvito, 4 [1966]
Augusto de Jesus Fernandes, in AML

Tuesday, 9 August 2016

A Rua Larga de S. Roque

A Rua é «da Misericórdia» — que fica no Largo, que não é da Misericórdia; foi do «Mundo», que já não há. E foi Rua de S. Roque.


A imprensa, que fêz do Bairro Alto o seu quartel general, não poupou o Largo de S. Roque, tal como ainda hoje povôa a Rua da Misericórdia, que assim se chama, desde o ano passado [1937], a antiga Rua de S. Roque (Rua Larga de S. Roque), já por sua vez crismada, depois da República, em Rua do Mundo. [1]

Rua da Misericórdia, 95 [29 de Novembro de.1915]
Redacção do jornal O «Mundo» (1890-1922), funeral de António França Borges (1871-1915), jornalista e director do jornal
Joshua Benoliel, in AML

Leva os nossos olhos, por aí acima, depois do eirado ribeirinho do Cais do Sodré — esta Rua de S. Roque. Pertence à meia idade de Lisboa — o tempo de quinhentos. Goza de tantos anos como S. Roque, Ermida, com o adro da peste, antes de surgir o templo actual. 
A Rua é «da Misericórdia» — que fica no Largo, que não é da Misericórdia; foi do «Mundo», que já não há. E foi Rua de S. Roque. Mas como ela começou, por invenção do Senhor Rei D. Sebastião, foi Rua Larga de S. Roque. Da estreita vereda do começo do século XVI se alargou, enfunando de prédios e de possibilidades. E «de S. Roque» ficará para sempre. Vizinha da Trindade e do Carmo, do Loreto e do Bairro Alto — é lisboeta da gema. [2]

Rua da Misericórdia, 95 [post 1901 e ant. 1908]
Redacção do jornal O «Mundo» (1890-1922)

Fotógrafo não identificado, in AML

[1]  (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 86)
[2] (ARAÚJO, Norberto de, Legendas Lisboa, vol. XV, p. 195)

Sunday, 7 August 2016

Rua da Saudade

Os paquetes atracam logo em baixo, no cais, e a rua deve talvez o nome à saudade que para sempre ficou flutuando no sítio: a saudade dos que ficam, e a dos que partem e querem prender-se à terra, de braços, olhos e almas alongadas.
José Rodrigues Miguéis (1901-1980) A Escola do Paraíso

Em Agosto de 1938, afirma Antonio Tabucchi que um jornalista solitário, de nome Pereira, tomava o eléctrico que ia até ao Terreiro do Paço. E da janela «via desfilar lentamente a sua Lisboa, olhava a Avenida da Liberdade com os seus belos edifícios, e depois o Rossio, de estilo inglês; e no Terreiro do Paço desceu e apanhou o eléctrico que subia para o Castelo. Desceu junto da Sé, pois morava ali perto, na Rua da Saudade.
Antonio Tabucchi, Afirma Pereira, [1938]

Rua Augusto Rosa e Rua da Saudade (dir.) [c. 1930]
 Seis anos após o falecimento do actor Augusto Rosa (1850-1918) a artéria onde ele viveu e faleceu, a Rua do Arco do Limoeiro (no nº 50), passou a ter o seu nome, consagrado por Edital municipal de 1924.
Fotógrafo não identificado (E. Portugal?)

A Rua da Saudade, situada nas freguesias da Sé e Santiago, é uma artéria secular cujo nome terá a seguinte explicação, de acordo com Luís Pastor de Macedo («Lisboa de Lés-a Lés», vol. V):

« Diz G. de B. [refere-se ao olisipógrafo Gomes de Brito] : 'Não é por agora possível dar informação alguma, que não tenha o cunho de vaga conjectura acerca, das razões que determinariam à denominação dade à nova rua'. Mas na mesma página, um pouco mais abaixo, adiciona: 'Esta denominação, rua da Saudade, é influência da duração da capela feita fora do corpo da igreja de S. Jorge dedicada a N. Sª da Soledade'. Assim parece ser na verdade. Pelos menos, embora em 1775, conforme viu G. de B., a artéria seja já designada por rua Nova das Saudades, em 1786 é apontada como o nome de rua da Soledade, nome que aliás só lhe vemos dar esta vez. Além deste, os livros paroquiais de S. Martinho dão-lhe os de rua nova q vai pª os Loios (1779), rua da Saudade (1787), rua Larga dos Loios (1790) e rua Nova da Saudade (1796). A igreja de S. Jorge, citada por G. de B., era paroquial, e erguia-se pouco mais ou menos no sítio onde hoje vemos o edifício das Merceeiras de D. Afonso IV, na rua Augusto Rosa.»  [cm-lisboa.pt]

Rua da Saudade, 31-43 [1902]
 Prédio construído no local onde existiu o Palácio dos Mira
Fotógrafo não identificado, in AML

Saturday, 6 August 2016

A história da Ponte Salazar sobre o Rio Tejo

Após o 25 de Abril de 1974, é rebaptizada com a designação da data da queda do regime fundado por Salazar

Às 15H00 do dia 6 de Agosto de 1966 a ponte é aberta ao público. «Um Austin-Seven verde, com a matrícula DC-72-48, foi o primeiro automóvel a entrar no tabuleiro da ponte na sua saída de Lisboa para a Outra Banda”, num ambiente em que “todos os automobilistas, desconhecendo a prioridade, tentaram a todo o custo, num atropelo de direitos que chegou a traduzir-se em barafunda, ultrapassar todos os veículos que circulassem à sua frente(in DN)


Em 1962 o governo adjudica a obra à «United States Steel Export Company». A obra compreendia a construção da ponte sobre o rio, a realização de um complexo rodoviário que incluía 15 km de auto-estrada, trinta e duas estruturas de betão armado e pré-esforçado, o Viaduto Norte sobre Alcântara (com 945,11 m de extensão e catorze vãos, cujo tabuleiro de betão pré-esforçado é apoiado em pilares gémeos de betão armado, ligados por uma travessa horizontal a 10 m do topo, destinada a suportar o tabuleiro ferroviário), um túnel sob a Praça da Portagem (com cerca de 600 m de comprimento e destinado a receber a plataforma ferroviária do eixo de ligação da rede a Norte com a rede a Sul do rio Tejo), a sinalização e iluminação de toda a obra.
Em Novembro é iniciada a obra, uma ponte constituída por uma estrutura metálica, suspensa, com cerca de 2300 m de comprimento entre ancoragens, dos quais 1013 m vencem o vão central.
As duas torres principais de aço carbono, atingem uma altura de 190,5 m acima do nível da água e estão situadas a cerca de meio quilómetro de cada margem. A construção das suas fundações, sobretudo as da torre Sul, constituiu um dos aspectos mais interessantes da obra. Implantada em pleno rio, a fundação em betão armado, realizada empregando o método do caixão aberto, assenta na rocha basáltica a 82,5 m abaixo do nível da preia-mar de águas vivas.


No topo de cada torre foram fixadas duas grandes selas de aço fundido, que dão apoio aos dois cabos principais de suspensão, constituídos por fios de aço paralelos, organizados em 37 feixes com 304 fios cada um, cintados e apertados de modo a formar, em todo o percurso suspenso, um cabo com 58,6 cm de diâmetro. A viga de rigidez e o tabuleiro são suspensos desses grandes cabos que amarram a dois maciços de betão, localizados nas margens. A grande viga de rigidez, com 21 m de largura e 10,65 m de altura, contínua em toda a sua extensão, é constituída por elementos soldados que foram depois fixados com parafusos de alta resistência. Sobre ela assenta o tabuleiro, constituído por um conjunto de longarinas e carlingas de aço sobre as quais assentam painéis formados por uma grelha do mesmo material.
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Produção do filme: Laboratórios Tobis Portuguesa para o Min. Obras Públicas
Realização: Leitão de Barros
Duração: aprox. 20 min.

Thursday, 4 August 2016

Largo da Graça: Regimento de Sapadores Bombeiros

"Os mouros, que seus arredores ocupavam antes da conquista cristã, chamavam a êste sítio «Almafala» recorda Norberto de Araújo, «e foi aqui que pousaram, para o cêrco de Aschbounaa Lisboa mouriscaas gentes portuguesas de Afonso Henriques. A designação «de Graça» data precisamente de 1305, nem mais ano nem menos ano."


Largo da Graça  [1935]
Rua da Verónica; Regimento de Sapadores Bombeiros, 4ª Companhia, Quartel da Graça
Eduardo Portugal, in AML

« Aí  temos o quartel n.º 5 dos Bombeiros. Foi construido em 1890-1891, ao tempo em que era Inspector dos Incendios o Chefe Ferreira, o animador destas edificações municipais, e cuja obra está patente no Quartel da Avenida Presidente Wilson [hoje Av. D. Carlos]. Antes havia uma pequena estação,  a «Bomba 15», no Largo da Graça, a oitenta passos do actual Quartel, onde está hoje [em 1939], n.º 44, uma pequena marcenaria.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 41-51)

Largo da Graça  [1935]
Regimento de Sapadores Bombeiros, 4ª Companhia, Quartel da Graça; Rua da Voz do Operário
Eduardo Portugal, in AML


Largo da Graça  [1935]
Regimento de Sapadores Bombeiros, 4ª Companhia, Quartel da Graça
  Casa esqueleto destinada aos treinos
Eduardo Portugal, in AML
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