terça-feira, 26 de julho de 2016

Profissões de antanho: (o)varina

A mais curiosa população desta cidade


As ovarinas (o 'o' etimológico perdeu-se na pronuncia) (peixeiras) formam com seus pais, maridos e irmãos a mais curiosa população desta cidade; população inteiramente à parte e com carácter e feição própria. São esses rudes operários do mar que fornecem peixe à capital do país; os homens embarcam para ir pescá-lo, as mulheres percorrem para vendê-lo as ruas da cidade, os homens embarcam para ir pescá-lo, as mulheres percorrem para vendê-lo as ruas da cidade, levando à cabeça uma canastra de fundo chato, equilibrada com graça e habilidade. 

Varina descarregando o peixe das fragatas, na Ribeira Nova [c. 1900]
 Tente-não-caias
Colecção Seixas, in AML

As ovarinas têm um fraseado e expressão peculiares; falam uma algaravia, que é necessário ter o ouvido afeito para perceber. No mais, como todas as peixeiras do mundo — parece condão do ofício — , berram espantosamente e são corajosas e destemidas. Uma ovarina de 12 ou 15 anos é capaz de responder sem se perturbar às provocações impertinentes de muitos homens, ficando sempre senhora do terreno. 

Varina no Mercado do Peixe [c. 1890]
 Varinas no terreiro da Ribeira Nova, junto ao Mercado do Peixe, local onde se preparava, encanastrava e vendia o peixe por grosso, defronte do Mercado 24 de Julho
Louis Levy, in AML

Os que cortejam as ovarinas não só demonstram que não receiam o cheiro do peixe, como provam que são susceptíveis de arrostarem qualquer revés: virtudes ferozes, respondem habitualmente a uma galanteria com uma bofetada. É brutal, mas enfim a virtude pode escolher as armas que lhe convenham e servir-se até do soco e do  pontapé.
Maria Rattazzi (1833-1902). Portugal de Relance, [c. 1879]

Varinas esperando o peixe [c. 1912]
Cais da Ribeira Nova

Joshua Benoliel, in AML

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