sábado, 25 de junho de 2016

Transportes de antanho

Lisboa, ao entrar o século XIX, continuava uma cidade mal equipada no domínio dos transportes populares onde nada se havia inovado ainda. Enquanto as classes mais abastadas, além dos coches, berlindas liteiras que lhe vinham do século anterior, passaram a dispor de novos modelos, mais funcionais, de origem francesa e inglesa, como o phaeton ou o coupé de ville, e a utilizar viaturas de aluguer, seges, traquitanas, trens e calèches, o povo continuaria, ainda por muito tempo, a percorrer diariamente, descalço ou mal calçado, as íngremes ruelas sujas e grosseiramente pavimentadas da capital.

Caleche Manton [1912]
Hipódromo de Belém; ao fundo a Capela de S. Jerómino ou Ermida do Restelo

Filmarte, in AML

 Docker-Phaeton (faetonnte) [Início séc. XX]
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)
Alberto Calo Lima, in AML

 Trem de aluguer da empresa de Eduardo Augusto de Oliveira [c. 1910
Largo da Graça
Joshua Benoliel, in AML

Para distâncias maiores serviam-se dos jumentos, próprios  ou alugados aos burriqueiros que tinham praça de aluguer de burros, no Campo de Sant'Ana e no Poço do Borratém.  Para cargas mais pesadas continuavam a utilizar, como já o faziam os seus antepassados longínquos, carroças de tipo arcaico, com rodas em D e eixo móvel, puxadas por muares; ou carros de bois, com quatro rodas, as populares galeras que transportavam lavadeiras e as suas trouxas de roupa suja.

Carro «chora» durante a greve dos eléctricos [1912]
Praça do Comércio (Terreiro do Paço)

Joshua Benoliel, in AML

Transporte de Belas para Lisboa [c. 1900]
Augusto Bobone, in AML

São, efectivamente, posteriores ao triunfo do liberalismo em Portugal, os primeiros transportes colectivos urbanos que cruzaram as ruas de Lisboa. Data de 1803 o aparecimento do omnibus, puxado a muares, para a exploração dos quais se constituiu uma Empresa de Transportes com sede na Praça do Pelourinho. No entanto, incómodos, caros e raros, o povo miúdo pouco beneficiou com eles. Verdadeiramente populares e servindo já vastas zonas da cidade foram os seus sucessores, os carros americanos, inaugurados em Lisboa em 1874.

O povo utilizava, de preferência, os carros mais baratos e também mais incómodos, como o Carro do Jacintho, o Chora da Empreza Eduardo Jorge ou o Lusitânia, enorme carroção, onde se apinhavam, como sardinha em canastra. Com eles carregavam gaiolas com pássaros, capoeiras de galináceos, trouxas de roupa, transformando os carros em folclóricas feiras ambulantes.

Carro do Jacintho durante a greve dos eléctricos [1912]
Rua 5 de Abril, Alcântara

Joshua Benoliel, in AML

Carro «chora» da empresa Joaquim Simplício (Lisbaa-Belas) durante a greve dos eléctricos [1912]
Largo de São Domingos

Joshua Benoliel, in AML

Carros «chora» a reabastecerem no chafariz do Intendente [ant. 1917]
Largo do
Intendente
Fotógrafo não identificado, in AML

Os carros americanos primeiro, depois os eléctricos, e a inauguração do comboio de Cascais, permitindo um escoamento mais rápido de pessoas e mercadorias, levaram ao abandono progressivo deste meio de deslocação alfacinha.
A aplicação da tracção eléctrica aos carros americanos que leva ao aparecimento dos carros eléctricos, cuja primeira linha é inaugurada em Lisboa em 1901 e a aplicação do motor de explosão que levará à invenção do automóvel e do camião de carga, facilitando o transportes de passageiros e de cargas, vão introduzir uma verdadeira revolução nos transportes urbanos (...) [1]

Carro «Americano» [séc. XIX]
Avenida 24 de Julho, antigo Aterro da Boa Vista

Chaves Cruz, in AML

Carros «chora» e «americano» [1909]
Largo do Conde Barão; à esq., o Palácio Alvito

Joshua Benoliel, in AML

[1] (in O Povo de Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, p. XVIII, 1979)

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