terça-feira, 17 de maio de 2016

O Club Palace e a Associação Comercial de Lisboa

Atentemos no que o olisipógrafo Norberto Araújo tem para nos dizer sobre o  historial deste edifício sito na Rua das Portas de Santo Antão, antiga  corredoura medieval: 

  «Vejamos, já agora, nesta Rua Eugénio dos Santos [actual Rua das Portas de Santo Antão], a Associação Comercial de Lisboa, instalada num pequeno prédio n.° 89, de fachada moderna, a destoar, pela novidade relativa, do semblante urbano da artéria. 
   É esta a transformação de um prédio antigo de dois andares, pertencente a Carlos Ribeiro Ferreira, e que, arrendado em 1917 por João Rosado, negociante alentejano para um clube de recreio e de jôgo, beneficiou de obras interiores, havendo sido então construida a fachada; foi êste o Palace Clube, que durou apenas até fins de 1919 [1920?]. 
   No ano seguinte instalou-se aqui a Associação Comercial de Lisboa, (Câmara de Comércio), poucos meses depois do incêndio da parte da ala do Terreiro do Paço, e que atingiu o torreão da Bôlsa, onde a Associação tinha sua sede. A Associação Comercial de Lisboa data de 12 de Junho de 1834, intitulando-se Associação Mercantil Lisbonense, nome que persistiu até 1855, passando depois a denominar-se como ainda hoje [o autor escreve em 1939]. Desde 1903 que exerce funções de Câmara do Comércio.»[1]
Associação Comercial de Lisboa (antes Club Palace)  [1929]
Rua das Portas de Santo Antão, 89
Antiga Rua Eugénio dos Santos; perspectiva tirada do Beco de São Luís da Pena

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O Club Palace ou Palace Clube, como é acima referido por Norberto Araújo — abriu no local onde se pensara fazer um cinema, num lote que era propriedade do capitalista do Banco Lisboa & Açores, Carlos Francisco Ribeiro Ferreira, e onde havia um prédio em ruínas. O projecto para o cinema, Salão Animatográfico, fora desenhado pelo arq-º Álvaro Machado (1874-1944).
Em 1916, Machado procedeu a algumas alterações da fachada e o projecto foi aprovado em 1917. Desistindo-se da ideia de edifício comercial, fizeram-se nesse ano obras no interior, ficando o primeiro andar totalmente ocupado por um salão para festas e jogo de um night-club: o Palace. O salão foi então profusamente decorado com estuques formando grinaldas. No vestíbulo, cupidos alados encimaram as portas laterais de mármore vermelho, acompanhadas por oito baixos-relevos esculpidos por Simões de Almeida sobrinho (1880-1950), professor da Escola de Belas Artes. O clube durou três anos, até 1920. Segundo Reinaldo Ferreira (Repórter X) foi no Palace que apareceu a primeira retalhista de cocaína de Lisboa, uma francesa. Tango, jogo e cocaína deram o tom característico a este novo espaço concebido para lisboetas privilegiados. Em 1921, a Associação Comercial de Lisboa ocupou o edifício, instalando-se num lugar que a orgia construíra, como então foi dito.[2]

[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 101)
[2] (VILLAVERDE, Manuel, RUA DAS PORTAS DE SANTO ANTÃO e a singular modernidade lisboeta (1890–1925): arquitectura e práticas urbanas)

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