Tuesday, 31 May 2016

Palácio dos Condes de Redondo (Bairro Camões)

Edificado no 3º quartel do séc. XVII, por iniciativa do 7º ou 8º Conde de Redondo, este palácio, classificado como Imóvel de Interesse Público e traduzindo um exemplar de arquitectura residencial barroca, resistiu ao Terramoto de 1755 sem danos significativos. 

Palácio dos Condes de Redondo [1930]
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal 'O Século'

De planta rectangular composta por quatro alas em torno de um pátio também rectangular, apresenta volumetria paralelepipédica. A extensa fachada principal, desenvolvida em dois pisos, é constituída por sete corpos contíguos delimitados por pilastras toscanas, encontrando-se rasgada a um ritmo regular por duas ordens de 22 janelas, sendo as do andar nobre de sacada com guardas de ferro forjado e encimadas por cornija. O portal, emoldurado a cantaria e coroado por um friso com tríglifos, sobrepujado por frontão triangular interrompido no vértice, dá acesso ao pátio interior, no centro do qual existe uma cisterna seiscentista com guarda de cantaria. 

Palácio dos Condes de Redondo [193-]
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
Eduardo Portugail, in AML

No interior merecem destaque a escadaria desenvolvida a partir do átrio situado ao fundo do pátio, assim como algumas salas com tectos apainelados e estuques pintados. Tendo passado pelas mãos de vários proprietários, está ocupado actualmente pela Universidade Autónoma de Lisboa, que aí funciona desde os anos 80 do séc. XX.

Palácio dos Condes de Redondo, jardins [9 de Junho de 1880]
O Bairro Camões foi inaugurado em 9 de Junho de 1880, (compreendia as Freguesias do Coração de Jesus e de São Jorge de Arroios) por ocasião do 3º centenário da morte de Luís de Camões. Para a ocasião foi armado um coreto pavilhão nos jardins do Palácio dos Condes do Redondo.
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
José Artur Leitão Bárcia, in AML

Sunday, 29 May 2016

Salão Lisboa, o Piolho da Mouraria

Conhecido como Cinema Piolho, é o primeiro recinto especialmente construído para o espectáculo cinematográfico.Situava-se na Rua da Mouraria, entre as Escadinhas da Saúde, o Antigo Beco do Cascalho e a Rua das Fontainhas a S. Lourenço.
Propriedade da Empresa Salão de Lisboa, Lda., de Henrique O’Donnell e Victor Cunha Rosa, abre as suas portas ao público em 1916, com sessões às quintas-feiras, sábados e domingos. O público era essencialmente jovem, o que fazia com que os filmes de acção fossem o essencial da sua programação.

Cinema Salão Lisboa [1932]
 Rua da Mouraria
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Em finais de 1928, iniciam-se obras de melhoramento no seu interior, como forma de corresponder às exigências do público e ao aparecimento de novas salas. 1932 será o ano em que se introduzem novas alterações, principalmente na fachada.
Até 1972, o Salão Lisboa continua nas mãos da família O’Donnell, altura em que suspende a sua exploração cinematográfica, passando aí a funcionar um armazém de revenda que, no entanto, continuou a manter na frontaria o nome de Salão Lisboa.(cm-lisboa.pt)

Cinema Salão Lisboa [1968]  
Rua da Mouraria
Eduardo Gageiro, in AML

Saturday, 28 May 2016

Alto do Longo (à Rua de O Século)


O olisipógrafo Norberto Araújo recorda-nos a origem para o curioso topónimo deste arruamento do Bairro Alto, com início na Rua O Século e fim na Travessa do Conde de Soure:

«Porque se chama Alto do Longo? Afirma-se que um quarto avô do Alexandre Herculano, homem de grande estatura, alcunhado «O Longo» deu nome ao sitio; o povo nunca chamou «longo» a uma pessoa alta mas sim «comprido». O certo é ter existido por aqui cêrca, na Rua Formosa [actual ,Rua do Século] um homem chamado de seu apelido «Longuo», o que poderia explicar a designação se a passagem do homem pela vida não fôsse tão recuada, segunda metade do século XVII (morreu em 1669). 

Alto do Longo [1943]
Esta rua tem início na Rua O Século [entre os nºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure
Eduardo Portugal, in AML

« O Alto do Longo é, contudo, anterior ao ano do Terramoto. Devia ter principiado por ser na «Cotovia» uma espécie de «bairro pequeno das minhocas» do século XVIII (...) São estas sobreposições de urbanismo, estes vincos dispares na fisionomia dos bairros, que constituem o encanto de Lisboa.»

Alto do Longo [c. 1945]
Esta rua tem início na Rua O Século [entre os nºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de SoureFernando Martinez Pozal, in AML

« Janelas quase rentes ao chão, beirais sem flor à altura de um braço, dois pátios de presépio pobre de cartolina - eis o Alto do Longo. (...) Pois é um presépio de humildade e pobreza, aliás sem imundicie, e sem aspecto de pardieiro, como noutros sítios já vimos. (...)» [1]

Alto do Longo [1943]
Esta rua tem início na Rua O Século [entre os nºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure
Eduardo Portugal, in AML

[1](ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 63-64)

Friday, 27 May 2016

Rua Áurea, 145-149

Lojas de Antanho: Casa de Novidades [onde hoje está a Papelaria Fernandes]


O jornal diário A Capital:-Diário Republicano da Noite, na sua edição de 29 de Junho de 1916, dedicava um longo artigo às mais antigas e tradicionais lojas da Baixa, mais precisamente aquelas situadas na Rua Áurea, vulgo do Ouro. Sobre a história do estabelecimento denominado Casa de Novidades — e respeitando a grafia da época — o texto rezava assim:

« Lembram-se? Na Rua do Ouro, 145 a 149, era ha poucos annos ainda atraz, a loja das Novidades, com alguma coisa de tetrico, com alguma coisa de lugubre até, que lhe vinha d'aquellas corôas e crepes mortuarios, feitas de lindas flores artificiaes. 

Rua Áurea, 145-149 [c. 1910]
Casa das Novidades ornamentada para o IV Congresso Internacional de Turismo
[onde hoje está a Papelaria Fernandes]
Plantas| Flores para chapeos!| Corôas|

Joshua Benoliel, in AML

« Era a casa do Pinho que, esquecendo o seu labor de commerciante e abraçando de cada vez mais obececadamente a politica, veio afinal a arruinar a sua casa commercial, tendo, depois, de procurar no Brazil o pão para a sua velhice cançada e desilludida. Mas todo esse aspecto pouco sympathico da Loja das Novidades desappareceu completamente. Tapumes [o que seria de Lisboa sem eles?] muito discretos cobriram por largos mezes a feia fachaada, até que, por fim, o nosso publico estacionou maravilhado em frente de um dos mais elegantes estabecimentos de alfaiateria que tem hoje Lisboa. (...)»
(A Capital: diário republicano da noite, Guimarães, Manuel, 1868-1938, ed. com., N.º 2106, 26 Jun. 1916)

Rua Áurea, 145-149 [1911-05-12]
Casa das Novidades ornamentada para o IV Congresso Internacional de Turismo
[onde hoje está a Papelaria Fernandes]
Plantas| Flores para chapeos!| Corôas|

Joshua Benoliel, in AML

Wednesday, 25 May 2016

Avenida Fontes Pereira de Melo: obras do Metropolitano de Lisboa

O primeiro projecto de um sistema de caminhos-de-ferro subterrâneo para Lisboa data de 1888, é da autoria do engenheiro militar Henrique de Lima e Cunha. Publicado na revista Obras Públicas e Minas, previa a um traçado que ligasse Santa Apolónia a Algés, com passagem pelo Rossio, São Bento, Janelas Verdes e Alcântara. O custo do empreendimento estava orçado em 500$000 réis por metro corrente de túnel. A proposta não avançou. 
Mais tarde, nos anos 20 do século XX, dão entrada na Câmara Municipal de Lisboa dois projectos, respectivamente, de Lanoel d’Aussenac e Abel Coelho (1923) e de José Manteca Roger e Juan Luque Argenti (1924), que não tiveram seguimento.

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1955 e 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa; Palácio Sotto-Mayor
Judah Benoliel, in AML

Somente a partir da 2ª Guerra Mundial com a retoma da economia e no seguimento das políticas de electrificação e aproveitamento dos fundos do Plano Marshall, surge com plena vitalidade a decisão de se construir um Metropolitano para Lisboa. A sociedade é constituída a 26 de Janeiro de 1948 e tinha como objectivo o estudo técnico e económico, em regime de exclusivo, de um sistema de transportes colectivos fundado no aproveitamento do subsolo da cidade. A concessão para a instalação e exploração do respectivo Serviço Público veio a ser outorgada em 1 de Julho de 1949.

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1955 e 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa
Judah Benoliel, in AML

 Em Setembro de 1954, o Eng.º Francisco de Mello e Castro é nomeado presidente do Metro (cargo que desempenhou até ao final de agosto de 1972). E no dia 18 é aberto o concurso para adjudicação das obras, material circulante e instalações fixas. As propostas são abertas em Dezembro e conduzem a um encargo total de 196 mil contos. 

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1955 e 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa
Judah Benoliel, in AML

Os trabalhos de construção iniciaram-se em 7 de Agosto de 1955 e, quatro anos depois, em 29 de Dezembro de 1959, o novo sistema de transporte foi inaugurado. No dia seguinte, por volta das três horas da manhã, existiam filas intermináveis à porta das estações para utilizar o novo meio de transporte. A afluência foi tanta que algumas estações foram obrigadas, por motivos de segurança, a cancelar temporariamente a venda de bilhetes de forma a que os passageiros não invadissem o cais. Entre as principais atracções estavam as escadas rolantes da estação do Parque
A rede aberta ao público consistia numa linha em Y, com uma extensão de 6,5 quilómetros, percorridos por 24 comboios, e 11 estações, com dois troços distintos, Sete Rios (actualmente, Jardim Zoológico) – Rotunda (actualmente, Marquês de Pombal) e Entrecampos – Rotunda (Marquês de Pombal), confluindo num troço comum, Rotunda (Marquês de Pombal) – Restauradores.

Avenida Fontes Pereira de Melo [c. 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa; Praça do Duque de Saldanha
Judah Benoliel, in AML

A estação Rotunda (Marquês de Pombal) permitia a correspondência entre os dois primeiros troços. Foi um importante acontecimento para a cidade e constituiu um enorme êxito, tendo-se elevado a 15,3 milhões o número de passageiros transportados no primeiro ano de exploração. O Metropolitano de Lisboa era, ao tempo da sua inauguração, o 14.º da Europa e o 25.º no mundo. O pioneiro fora o Metropolitano de Londres, em 1863, a partir da ideia de Charles Pearson, o inventor deste meio de transporte.

Avenida Fontes Pereira de Melo [c. 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa; Palacete  Gabriel José Ramires; Rotunda  Praça Marquês de Pombal
Judah Benoliel, in AML

Monday, 23 May 2016

Mosteiro dos Jerónimos, Portal Sul

Construído entre 1516 e 1518, rasgado a Sul, ergue-se o esplendoroso portal da autoria de João de Castilho e seus oficiais, segundo o projecto de Diogo de Boitaca, constitui o centro visual da fachada do Mosteiro que se desenvolve paralelamente ao rio. Apesar da sua grande sumptuosidade é apenas uma entrada lateral.
A figura central deste pórtico é Nossa Senhora de Belém com o Menino, que é a invocação desta Igreja e Mosteiro, ostentando na mão o vaso das oferendas dos Reis Magos. Ladeando a Virgem, uma multidão de estátuas representa os Profetas, os Apóstolos, os Doutores e Padres da Igreja e algumas santas (ou talvez sibilas).
Nos tímpanos figuram duas cenas da vida de S. Jerónimo – com vestes de cardeal arrancando o espinho da pata do leão e como penitente no deserto. Sobre o tímpano estão representadas as Armas de Portugal.

Mosteiro dos Jerónimos, portal sul [1867]
Francesco Rocchini, in BNP

Mais abaixo, entre as portas geminadas da Igreja, uma estátua representa o Infante D. Henrique armado cavaleiro, em memória deste antepassado de D. Manuel I, fundador da Ermida do Restelo e grande impulsionador dos Descobrimentos. A porta, separada por um mainel, é sobreposta nos tímpanos por baixos relevos e pelas armas reais ladeados por esferas armilares. A parede sul é rasgada por amplas janelas e janelões que ladeiam o portal e deixam penetrar, no interior, a luz filtrada pelos vitrais coloridos de execução recente (séc. XIX-XX).
Dominando este conjunto, ao alto, a imagem do Arcanjo São Miguel. (mosteirojeronimos.pt)

Mosteiro dos Jerónimos, portal sul [1867]
Francesco Rocchini, in BNP

Saturday, 21 May 2016

Igreja de São Julião

A primitiva Igreja de S. Julião não se encontrava no local que ocupa hoje, mas sim a norte da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira (cruzamento da Rua de S. Julião com a Rua Augusta).
Com a destruição causada pelo terramoto de 1755 a igreja foi reconstruída no local onde outrora se erguera a Patriarcal de D. João V, igualmente arrasada pela catástrofe. A reconstrução foi concluída em 1810. Seis anos depois, um incêndio destruiu o recheio do templo, que teve de sujeitar-se a novas obras, as quais se prolongaram até 1854. Em 1910, o Conselho Geral do Banco de Portugal decidiu comprar a antiga Igreja de São Julião e os seus anexos, devido ao crescimento do Banco. De 1910 a 1933 decorreram as negociações entre o Banco de Portugal e a Arqui-confraria de São Julião. Em 7 de Junho de 1933, foi celebrada a escritura de compra e venda do edifício, altura em que foi dessacralizada. 

Igreja de São Julião [c. 1950]
Largo de São Julião; em segundo plano destaca-se a fachada dos Paços do Conselho

António Passaporte, in AML

Em 30 de Novembro de 1938, o Banco submeteu à Câmara Municipal de Lisboa (CML) um anteprojecto elaborado pelo arq.º Porfírio Pardal Monteiro, a fim de substituir por um único prédio os diversos edifícios que constituíam o conjunto da sede e da antiga Igreja de S. Julião e anexos. Todavia, esse requerimento não teve resposta favorável da edilidade.Posteriormente o Banco decidiu aproveitar os espaços disponíveis para áreas técnicas, casas fortes, arquivos e, ainda, estacionamento temporário para cargas e descargas de materiais, equipamentos e pessoas.A decisão para a reabilitação e restauro do edifício da Sede do Banco de Portugal foi tomada em 2007, tendo em conta a necessidade de reabilitação geral do edifício, incluindo o seu reforço estrutural; o cumprimento dos Euro-códigos em termos de resistência antissísmica e protecção contra incêndios; a adopção de vários dispositivos de segurança e de saídas de emergência; e a instalação do Museu do Dinheiro.

Igreja de São Julião [1961]
Largo de São Julião

Mário Costa, in AML

Friday, 20 May 2016

Corrida de automóveis e motos no Campo Grande

«Conheces, Dilecto, o Campo Grande; longe de ser um Parque moderno, atractivo, de configuração paisagista ajustada à sua extensão (1.200 metros de comprido por 200 de largo), é contudo dos mais aprazíveis locais de Lisboa, mal tratado sem dúvida, mas simpático assim mesmo.»
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 65)

Campo Grande  [1933]
 Corrida de automóveis (categoria "Sport")
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Chamado anteriormente de Campo de Alvalade e depois Campo 28 de Maio, este sítio foi escolhido, durante séculos, para a edificação de solares nobres e algumas vezes destinado a concentração de tropas, como as que D. Sebastião levou para Alcácer Quibir. O arvoredo que transformou o Campo Grande num dos parques mais aprazíveis de Lisboa foi mandado plantar no reinado de D. Maria I.

Campo Grande (Entrecampos)  [c. 1910]
Corrida de automóveis organizada pela Fiat
 Joshua Benoliel, in AML

Corridas de cavalos, de automóveis e motos, concursos de gado, constituíam alguns dos atractivos ao tempo da antiga Feira do Campo Grande, extinta cerca de 1932 aquando da sua transferência para o Lumiar.

Campo Grande  [1933]
 Corrida de motos
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Thursday, 19 May 2016

Palácio Nacional da Pena

O Palácio da Pena foi uma residência de Verão da Família Real Portuguesa desde 1838 até 1910, tendo-se transformado em casa – museu a partir de 1920, passando a estar aberto ao público com a designação de Palácio Nacional da Pena.
Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia e o Egipto, e nunca vi nada, nada, que valha a Pena. É a cousa mais bela que tenho visto. Este é o verdadeiro jardim de Klingsor – e, lá no alto, está o Castelo do Santo Graal
- Richard Strauss
Constitui o mais completo e notável exemplar de arquitectura portuguesa do Romantismo. Edificado a cerca de 500 metros de altitude, remonta a 1839, quando o rei consorte D. Fernando II de Saxe Coburgo-Gotha (1816-1885), adquiriu as ruínas do Mosteiro Jerónimo de Nossa Senhora da Pena e iniciou a sua adaptação a palacete. Para dirigir as obras, chamou o Barão de Eschwege, que se inspirou nos palácios da Baviera para construir este notável edifício.
Extremamente fantasiosa, a arquitectura da Pena utiliza os motivos mouriscos, góticos e manuelinos, mas também o espírito Wagneriano dos castelos Schinkel do centro da Europa. Situado a 4,5 Km do centro histórico.

Palácio Nacional da Pena [1868]
Álbum sobre Lisboa e Sintra

Francesco Rocchini, in BNP

O palácio e os jardins foram concebidos como um todo: as influências que conduziram à realização sublime de um, encontram-se no outro. «O Mosteiro gótico da Pena despiu-se então da simplicidade monástica para trajar as galas do século; deixou a divisa dos filhos de S. Jeronymo para se ataviar com o brasão d’armas de Portugal e Goburgo; trocou os seus dormitórios e estreitas celas por espaçosas salas; e mudou o nome humilde de habitação de monges no título pomposo de Paço Real. Depois, o augusto restaurador do monumento manuelino acrescentou às antigas obras outras novas e muito mais esplêndidas. A par do velho edifício rejuvenescido, levantou-se, como por efeito de condão mágico, um soberbo e formosíssimo palácio, uma verdadeira mansão de fadas. E uma grande extensão de Serra, em volta do paço, adquirida em diversas ocasiões pelo real fundador, foi transformada em um magnífico parque, a cuja traça e plantação tem presidido o mais apurado gosto.» (lnácio de Vilhena Barbosa, Parorama Photoqraphico de Portugal, 1873). (in serradesintra.net)

Palácio Nacional da Pena [c. 1958]
António Passaporte, in AML

– Com mil diabos! – exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintanário.
O breque parara, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silêncio de charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:
– Esqueceram-me as queijadas!
(Eça de Queirós, Os Maias, 1888)

Tuesday, 17 May 2016

O Club Palace e a Associação Comercial de Lisboa

Atentemos no que o olisipógrafo Norberto Araújo tem para nos dizer sobre o  historial deste edifício sito na Rua das Portas de Santo Antão, antiga  corredoura medieval: 

  «Vejamos, já agora, nesta Rua Eugénio dos Santos [actual Rua das Portas de Santo Antão], a Associação Comercial de Lisboa, instalada num pequeno prédio n.° 89, de fachada moderna, a destoar, pela novidade relativa, do semblante urbano da artéria. 
   É esta a transformação de um prédio antigo de dois andares, pertencente a Carlos Ribeiro Ferreira, e que, arrendado em 1917 por João Rosado, negociante alentejano para um clube de recreio e de jôgo, beneficiou de obras interiores, havendo sido então construida a fachada; foi êste o Palace Clube, que durou apenas até fins de 1919 [1920?]. 
   No ano seguinte instalou-se aqui a Associação Comercial de Lisboa, (Câmara de Comércio), poucos meses depois do incêndio da parte da ala do Terreiro do Paço, e que atingiu o torreão da Bôlsa, onde a Associação tinha sua sede. A Associação Comercial de Lisboa data de 12 de Junho de 1834, intitulando-se Associação Mercantil Lisbonense, nome que persistiu até 1855, passando depois a denominar-se como ainda hoje [o autor escreve em 1939]. Desde 1903 que exerce funções de Câmara do Comércio.»[1]
Associação Comercial de Lisboa (antes Club Palace)  [1929]
Rua das Portas de Santo Antão, 89
Antiga Rua Eugénio dos Santos; perspectiva tirada do Beco de São Luís da Pena

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O Club Palace ou Palace Clube, como é acima referido por Norberto Araújo — abriu no local onde se pensara fazer um cinema, num lote que era propriedade do capitalista do Banco Lisboa & Açores, Carlos Francisco Ribeiro Ferreira, e onde havia um prédio em ruínas. O projecto para o cinema, Salão Animatográfico, fora desenhado pelo arq-º Álvaro Machado (1874-1944).
Em 1916, Machado procedeu a algumas alterações da fachada e o projecto foi aprovado em 1917. Desistindo-se da ideia de edifício comercial, fizeram-se nesse ano obras no interior, ficando o primeiro andar totalmente ocupado por um salão para festas e jogo de um night-club: o Palace. O salão foi então profusamente decorado com estuques formando grinaldas. No vestíbulo, cupidos alados encimaram as portas laterais de mármore vermelho, acompanhadas por oito baixos-relevos esculpidos por Simões de Almeida sobrinho (1880-1950), professor da Escola de Belas Artes. O clube durou três anos, até 1920. Segundo Reinaldo Ferreira (Repórter X) foi no Palace que apareceu a primeira retalhista de cocaína de Lisboa, uma francesa. Tango, jogo e cocaína deram o tom característico a este novo espaço concebido para lisboetas privilegiados. Em 1921, a Associação Comercial de Lisboa ocupou o edifício, instalando-se num lugar que a orgia construíra, como então foi dito.[2]

[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 101)
[2] (VILLAVERDE, Manuel, RUA DAS PORTAS DE SANTO ANTÃO e a singular modernidade lisboeta (1890–1925): arquitectura e práticas urbanas)

Sunday, 15 May 2016

Palacete da Praça do Duque de Saldanha

Palacete novo-burguês de pendor ecléctico, também designado por Casa Nuno Pereira de Oliveira, seu primeiro proprietário. Com projecto do arqº Manuel Joaquim Norte Júnior, de 1910, executado pelos construtores Fernando Vitorino dos Santos Soares e António Pedrosa, o imóvel seria distinguido com a 5ª Menção Honrosa do Prémio Valmor para o ano de 1912. Nesse mesmo ano, e estando ainda em construção, o projecto inicial foi parcialmente alterado para "transformar 6 vãos de janelas de peitos em sacadas, no 1º andar, sendo 4 como frente à Avenida Praia da Vitória e 2 na frente lateral por cima da marquise", passando a dispor de aviário.

Praça do Duque de Saldanha, 12; Avenida Praia da Vitória, 44 [c. 1912]
Casa Nuno Pereira de Oliveira
Paulo Guedes, in AML

Originalmente, a casa era decorada com pinturas a fresco, de Gabriel Constante, formando frisos disciplinadores junto à cimalha, mas também no óculo cego e nos interstícios do janelão do piso superior, desaparecidas cerca de 1939, quando um novo proprietário da casa realizou obras de beneficiação ao nível da pintura exterior e dos caixilhos. Na decoração dos interiores trabalharam ainda Cláudio Martins, pintor vidreiro e o entalhador Jesus Peres Mora. Todas as peças em ferro forjado, incluindo o gradeamento da janela fechada a nascente, são das oficinas de Jacob Lopes da Silva e Vicente Joaquim Esteves.
Classificado Imóvel de Interesse Público em 1977, na década de 1990 pertenceu a um banco, encontrando-se hoje (2015) devoluto. [DGPC]

Saturday, 14 May 2016

Largo do Chafariz de Dentro

O olisipógrafo Norberto de Araújo refere-se a este local como «o mais pitoresco apontamento de Lisboa em dez léguas da grande póvoa. Tudo quanto é generoso de expressão popular assentou aqui arraial. Alfama tem o seu Rossio — S. Miguel; a sua Sé — Santo Estêvão; o seu Terreiro do Paço — o Largo do Chafariz de Dentro [1]

Largo do Chafariz de Dentro [Início séc. XX]
José Artur Leitão Bárcia, in AML
 
Largo do Chafariz de Dentro [Início séc. XX]
Paulo Guedes, in AML
 
O mesmo autor considera ainda este Largo de Alfamana confluência entre a Ruas do Terreiro do Trigo, do Jardim do Tabaco, dos Remédios e de São Pedro — , como «o Rossio de tôda a Alfama, e melhor diria o seu Terreiro do Paço pois muitos séculos não há que o mar aqui chegava.».

Largo do Chafariz de Dentro [1961]
Armando Serôdio, in AML

O Chafariz de Dentro, que não teve sempre esta disposição, (...) existia já no século XIV, com fartas águas que brotam do seu manancial vetusto, e foi objecto de arranjos em 1494. A sua principal reforma parece ser aquela a que se refere a inscrição em mármore rosa, colocada na frontaria e que reza na letra e ortografia da época: «Êste Chafariz mandou a Câmara desta Cidade reformar no ano de 1622, sendo presidente dela João Furtado de Mendonça do Conselho de Sua Magestada, e mais abaixo: «O qual se reformou com o dinheiro do real d'agua».»

Chafariz de Dentro [1929]
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Acrescenta Norberto Araújo que este «Chafariz chamou-se primitivamente «dos Cavalos» por motivo de as águas abundantes jorrarem da bôca de cavalos de bronze que adornavam a frontaria; êsses bronzes tê-los-iam levado os castelhanos, como recordação, quando levantaram o cêrco a Lisboa (3 de Setembro de 1384), isto na interpretação dos dizeres de Fernão Lopes, o que não se concilia com a descrição que do chafariz faz Damião de de Góis (meados do século XVI), e na qual dá os cavalos existentes ainda. Há destas freqüentes disparidades nos nossos livros velho[s].» [2]

Chafariz de Dentro [c. 1950]
Fotógrafo não identificado, in AML

É provavelmente o chafariz mais antigo de Lisboa, também designado por Chafariz n.º 19. As águas deste chafariz abasteciam o Chafariz da Praia e os seus sobejos iam para um tanque de lavadeiras no Cais da Linguêta. No século XIX, tinha quatro bicas, quatro Companhias de Aguadeiros, quatro capatazes, cento e trinta e dois aguadeiros e um ligeiro. (ANDRADE, 1851)

[1](ARAÚJO, Norberto de, «Legendas de Lisboa», p. 194)
[2](ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 66-67)

Thursday, 12 May 2016

Praça do Duque de Saldanha

«A Avenida de Fontes Pereira de Melo termina na rotunda da Praça do Duque de Saldanha, cercada de heterogéneas edificações, e a meio da qual se ergue o monumento ao Duque de Saldanha. A pedra fundamental do monumento, cuja parte escultural é de Tomás Costa e a arquitectónica de Ventura Terra, foi lançada em 1904, tendo-se inaugurado em 1909

Praça do Duque de Saldanha [c. 1909]
Antiga Praça Mouzinho de Albuquerque, antes Rotunda das Picoas;Avenida da República
Fotógrafo não identificado, in AML

A estátua, que representa o marechal de pé, com a mão direita apontando na direcção do S., assenta sobre um pedestal dórico de base quadrangular flanqueado de colunas com capitéis canelados. À frente da estátua, na base, a figura alegórica da Vitória, de bronze, nas outras faces panóplias ornamentais pendem da boca de leões, tudo de bronze.»
(in Guia de Portugal, coord. de Raul Proença, Generalidades: Lisboa e arredores, Biblioteca Nacional, imp. 1924. 1º vol., p. 434)

Praça do Duque de Saldanha [c. 1909]
Antiga Praça Mouzinho de Albuquerque, antes Rotunda das Picoas; à esq., a Avenida Casal Ribeiro; à dir., tornejando para a Avenida Fontes Pereira de Melo, o edifício de habitação conhecido por «prédio do anjo»
Joshua Benoliel, in AML

Wednesday, 11 May 2016

Rua do Comércio, inundações

Pela primeira regulamentação toponímica, o decreto régio de 1760 que consagra as denominações da Baixa Pombalina, foi atribuído o topónimo Rua Nova de El Rei. Depois, por deliberação camarária de 1889 passou a denominar-se Rua de El Rei. A última denominação desta artéria e que se mantém até aos nossos dias, Rua do Comércio, foi fixada pelo primeiro edital da vereação republicana na edilidade lisboeta, com data de 5 de Novembro de 1910.

Rua do Comércio [1945]
Antiga de El-Rei vulgo dos Capelistas; Sé de Lisboa
Judah Benoliel, in AML

Tuesday, 10 May 2016

Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova

Ermida construida no séc. XVIII (1744-1748),  riscada e delineada por Manuel da Costa Negreiros, para substituir uma pequena ermida da invocação de Nª Sra. do Rosário, pertencente à Congregação do Sr. Jesus da Boa Nova, localizada no Campo da Lã ao Terreiro do Trigo (antigo Cais do Carvão).
Manuel da Costa Negreiros (?-1750), Major de engenheiros e arquitecto da Casa do Infantado, executou a Torre do Relógio da Igreja da Graça, a porta da Igreja do Sacramento e o Palácio Barbacena

Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova [c. 1910]
Rua do Jardim do Tabaco; Rua do Museu da Artilharia

 Eduardo Portugal, in AML

Em 1775, com a abertura da Calçada Nova - actual Rua do Museu de Artilharia para dar passagem à zorra que conduzia a estátua equestre de D. José I, o Reformador da Fundição para o Terreiro do Paço , a fachada desta ermida ficou enterrada em relação à rua e integrada no conjunto das fachadas, passando despercebida. Tem três altares de linda talha dourada, e era administrada por uma irmandade secular com o titulo de Via Sacra. Tinha de rendimento duzentos mil reis e uma propriedade mística por não ter sido ficado danificada com o Terramoto.

Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova [c. 1949]
Rua do Jardim do Tabaco; Rua do Museu da Artilharia

Eduardo Portugal, in AML

A ermida, típica do barroco joanino revela os indícios da Escola de Mafra, e dos elementos utilizados no Convento de Mafra, tais como os capitéis jónicos da fachada, as janelas elípticas e os óculos circulares, com a influência certa da arquitectura borrominiana. O corpo anexo da sacristia, outrora sede da confraria, lembra um solar seiscentista, com as suas janelas de sacada.

Ermida do Senhor Jesus da Boa Nova, fachada lateral, vendo-se a Cerca Fernandina formando as traseiras da ermida vista da Rua do Museu da Artilharia [1963]
Rua do Jardim do Tabaco; Rua do Museu da Artilharia

Arnaldo Madureira, in AML

O muro do fundo da ermida é a própria muralha da Cerca Fernandina.

Cerca Fernandina, formando as traseiras
da ermida do Senhor Jesus da Boa Nova [c. 1949]

Rua do Jardim do Tabaco; Rua do Museu da Artilharia

Eduardo Portugal, in AML

Monday, 9 May 2016

Elevador da Calçada do Lavra

«Daqui, da Rua de Câmara Pestana, nasce, ou finda, a Calçada do Lavra, cujo elevador foi construído em Abril de 1884. Esta Calçada do Lavra chamava-se anteriormente de Damião de Aguiar, pessoa importante do século XVI, desembargador e chanceler mór do Reino. Passou a chamar-se do Lavra ou do Lavre pela circunstância de, no edifício apalaçado, ao Largo da Anunciada, onde hoje está a Escola Nacional, ter morado o tesoureiro da Rainha Maria Francisca de Saboia, Manuel Lopes do Lavre, como, antes dêle, morava o citado Damião de Aguiar. A Calçada acompanhou em seu nome, durante três séculos, a evolução da propriedade do palácio, mas fixou-se em Lavra.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa,, vol. IV, pp. 38 e 39)

 Elevador do Lavra [ant. 1915]
Fotógrafo não identificado, in AML

Projectado pelo engenheiro Raul Mesnier du Ponsard e construído pela Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, este funicular foi inaugurado oficialmente em 1884, é o mais antigo elevador público de Lisboa. Fazendo a ligação entre o Largo da Anunciada e a Tv. do Forno do Torel ou a Rua Câmara Pestana, deve o seu nome ao Palácio Lavra, com o qual faz esquina. Trata-se de um equipamento de transporte urbano constituído por 2 carros, ligados por um cabo subterrâneo, que sobem e descem alternada e simultaneamente ao longo de 2 vias paralelas de carris de ferro. Movido, inicialmente, por sistema hidráulico constituído por cremalheira e contrapeso de água, passou, mais tarde, a locomover-se a vapor, tendo conhecido, finalmente, em 1915, a sua total electrificação. Em 1926 tornou-se propriedade da Companhia Carris de Ferro de Lisboa. 
O Ascensor do Lavra e o seu meio urbano envolvente estão classificados como Monumento Nacional.

 Elevador do Lavra  [1960]
Arnaldo Madureira, in AML

Sunday, 8 May 2016

Observatório Astronómico da Escola Politécnica de Lisboa

O Observatório Astronómico da Escola Politécnica de Lisboa foi fundado em 1875 e é o único observatório oitocentista de ensino existente em Portugal.
Apesar de, no decreto fundador da Escola (1837), estar prevista a construção de um observatório astronómico, as aulas práticas de astronomia decorreram, até meados da década de 70 do século XIX, no Real Observatório da Marinha, instituição que funcionou, durante um período, no complexo dos edifícios da Escola Politécnica.

Observatório Astronómico da Escola Politécnica, Universidade de Lisboa. Jardim Botânico [190-]
Rua da Escola Politécnica

Paulo Guedes, in AML
 
Em 1887, o Observatório Astronómico começou a evidenciar claros sinais de degradação na sequência da construção do túnel do Rossio. Reconstruido em 1898 de acordo com o plano dos arquitectos Victor Gomes da Encarnação e José Cecílio da Costa, o Observatório divide-se em três espaços: o edifício central com as suas três cúpulas, a Sala do Círculo Meridiano (ou Sala da Meridiana) e a sala de aulas; um edifício de três pisos, onde se encontravam salas de aulas, gabinetes de professores e a biblioteca do Observatório; e um terceiro edifício que ficou conhecido por barraca e que era utilizado, sobretudo, para calibrar instrumentos.
O Observatório Astronómico manteve um estatuto autónomo, sendo um dos estabelecimentos da Escola Politécnica e, depois da Faculdade de Ciências, até à década de 30 do século XX, quando foi associado ao Departamento de Matemática da Universidade de Lisboa. Utilizado no ensino até cerca de 2002 (as cúpulas), o Observatório Astronómico encontra-se sob a tutela dos Museus da Universidade de Lisboa e aguarda a execução de um projecto de recuperação e restauro, que o interprete e devolva à fruição do público. (museus.ulisboa.pt)

Balão de sinais horários do Observatório Astronómico da Escola Politécnica
 
No final do século XIX, funcionou durante algum tempo no Observatório da Escola Politécnica o serviço da hora oficial, com um canhão a disparar à uma da tarde. Mas a acuidade do sistema era pouca e os lisboetas não se fiavam lá muito nele. «Os que ainda se lembram deste sinal horário, sabem que ele enchia toda a cidade e fazia estar alerta os cidadãos que se jactavam da chamada ‘pontualidade inglesa’. Servia de fulcro às mais alegres anedotas correntes de boca em boca e preenchia os serões familiares, dando os mais divertidos temas aos folhetinistas jocosos da época», refere Mário Costa nas suas «Duas Curiosidades...». O canhão e a meridiana passariam depois para o Jardim de São Pedro de Alcântara, onde ficaram ainda algum tempo, sendo depois retirados.

Saturday, 7 May 2016

Casa do Noviciado da Cotovia (1619-1759) [Real Colégio dos Nobres (1761-1837)] Escola Polytechnica (1837-1911)

Ao findar o século XVI, procuravam os padres da Companhia de Jesus um lugar adequado para fundar um noviciado. Depois de ponderarem as vantagens e inconvenientes de uns vinte sítios, decidiram-se pelo Monte Olivete, uma propriedade que fazia parte do dote de Fernão Teles de Meneses deixada em 1598 e que reunia as condições desejadas: «Por ser o sitio muy saudável, de boas vistas e visinho de Sam Roque e da cidade, tendo poços de agoa e lugar  largo pera casa e horta; e este lugar se chamava Monte Olivete, e por outro nome a Cotovia».

Casa do Noviciado da Cotovia (1619-1759)
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua do Colégio dos Nobres, designação que sucedeu à de Rua Direita da Cotovia
Gravura sem data, autor: Coelho J.

Lançados os alicerces em 1603, os padres Jesuítas encarregaram o arqº Baltasar Alvares do projecto, em 1607, ficando as obras concluídas em 1616. Os primeiros noviços entraram em 1619 e ali continuou esta importante casa religiosa, com uma cerca enorme até ao Rato e Salitre, por muitos anos até à extinção da Companhia de Jesus, em 1759. Depois da expulsão, o Marquês de Pombal aproveitou o local para o Real Colégio dos Nobres. em 1761, e em 1837, a Escola Polytechnica de Lisboa.

Escola Polytechnica de Lisboa [s.d.]

A revolução liberal e a concomitante reforma do ensino - com Sá da Bandeira como Primeiro-ministro -, levou à criação de uma escola de instrução militar preparatória, a Escola Politécnica de Lisboa em 11 de Janeiro de 1837. Para valorizar o ensino daquela instituição foi-lhe anexado o Real Observatório Astronómico da Marinha e criados um gabinete de Física, um de História Natural, um Laboratório de Química e um Jardim Botânico. Com a criação das novas Universidades, passou a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, cumprindo o Plano Geral de Estudos das Faculdades de Ciências publicado em 12 de Maio de 1911.

Escola Polytechnica de Lisboa [Início séc. XX]
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua do Colégio dos Nobres, designação que sucedeu à de Rua Direita da Cotovia
Paulo Guedes, in AML

Friday, 6 May 2016

Os «almanjarras» ou «aventesmas» lisboetas

ALMANJARRA 
Almanjarra, s. f. "Pau, a que se atrela o animal que faz andar a atafona ou a nora. M. espécie de grande rodo, com que se tira a lama das marinhas". Almanjarrar, v. t. "Tirar com almanjarra
(NIMER, Miguel, Influências orientais na língua portuguesa: os vocábulos árabes, arabizados, Persas e Turcos)

Foi com o percurso da carreira entre o Cais do Sodré e Ribamar (Algés) que a Carris (C.C.F.L.) inaugurou o seu serviço público de carros eléctricos às 6 da manhã do dia 31 de Agosto de 1901 e, depois, entre a Praça dos Restauradores e o Dafundo. Em 1902, já circulavam os primeiros carros grandes abertos fabricados pela J.G.Brill (EUA). Pela sua dimensão, logo são alcunhados pelos lisboetas de almanjarras ou aventesmas.

Avenida 24 de Julho [1912]
Carros eléctricos Brill abertos de 8 bancos
Joshua Benoliel, in AML

Avenida 24 de Julho [190-]
Carro eléctrico Brill aberto de 8 bancos

Ultrapassados os receios da electricidade, uma multidão movida pela curiosidade acorreu ao evento disputando um lugar num dos 16 carros que até a meia-noite circularam naquele trajecto inaugural.
O que mais impressionou os alfacinhas, naqueles imponentes veículos de carroçaria aberta com tejadilho apoiado em colunas e cortinas de lona as riscas, foi o sistema de mudança dos letreiros do destino, que permitia desenrolar uma tela comprida numa pequena caixa. Causava admiração os veículos serem bidireccionais: a frente era igual à retaguarda  com motores em cada extremo e comandos, também a dobrar, nas plataformas. Os bancos que acomodavam os passageiros eram revertíveis para virarem conforme o sentido da marcha.
No fim de 1901 as linhas electrificadas atingiam a extensão de 24 Km.

Praça do Comércio, Rua da Prata [190-]
Os «almanjarras» ou «aventesmas», carros eléctricos abertos de 12 bancos, saíram de circulação até 1955
Paulo Guedes, in AML

Praça Dom João da Câmara [ant. 1955]
Os «almanjarras» ou «aventesmas», carros eléctricos abertos de 12 bancos, saíram de circulação até 1955
Estúdio Horácio Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.
 
Em l de Abril de 1945, a título experimental e com o fim de melhorar o aproveitamento dos veículos existentes, permitiu-se que nos bancos dos carros grandes abertos se acomodassem como pudessem 5 passageiros acrescidos de mais 10 ou 12 pessoas de pé nos estribos. Os outrora tão admirados gigantes - almanjarras ou aventesmas . acabaram por sair de circulação até 1955

Cais do Sodré [1901]
Carros eléctricos abertos de 8 bancos
Fotógrafo não identificado, in AML

Praça do Comércio  [ant. 1955]
Carros eléctricos abertos de 12 bancos
Judah Benoliel, in AML

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