Wednesday, 13 April 2016

Largo do Salvador: Convento de São Salvador e Palácio dos Condes dos Arcos

Estamos no Largo do Salvador — diz .Norberto de Araújo E do Salvador — porquê? 
Neste sítio, que no comêço da Lisboa era de todo silvestre, em encosta que acompanhava pelo exterior uma parte da muralha moura, apareceu—segundo rezam as lendas—em certa manhã, espetado no chão do matagal, um crucifixo, e perto dêle uma imagem de N. Senhora com o Menino. Milagre era; naquêle tempo devoto, primeiros anos após a conquista, a notícia correu célere por Lisboa. Logo se ergueu uma ermidinha a Jesus Salvador «da Mata», porque mata cerrada era tudo isto por aqui. A ermida teve, pouco depois de erguida, grande concorrência de mulheres penitentes que junto dela fizeram um Recolhimento, já levantado em 1240. O sítio foi-se desbravando, povoando, dando uma pequena freguesia, o que se explica, porque a Ermida era do priorado.

Largo do Salvador [c. 1900]
Arco do Salvador e Convento de São Salvador, fundado em 1392
José Artur Leitão Bárcia, in AML
   
   Em 1392 o Bispo do Porto, D. João Esteves, da Azambuja chamado por ser natural desta vila, mais tarde (1402) arcebispo de Lisboa, e cardeal (1411), resolveu com autorização do Rei e do Papa fazer do pequeno Recolhimento um mosteiro de religiosas dominicanas; a Igreja fôra confirmada paroquial no ano anterior. Era o tempo de D. João I que cousa. alguma negava ao tratar-se de ampliar Lisboa; o mosteiro, cuja primeira abadessa se chamava Margarida Anes, foi construído com lentidão, pois só é dado por concluído em 1478, a esforços da princesa, depois Rainha D. Leonor, mulher de D. João II.

Largo do Salvador [c. 1900]
Convento de São Salvador, fundado em 1392
Fotógrafo não identificado, in AML

   O Terramoto destruiu o velho mosteiro, que houve de ser reedificado de alto a baixo, não estando as obras concluídas em 1762, e havendo passado a paroquial para o Menino de Deus, para só voltar, mais tarde, à sua antiga sede.
    Pela extinção das Ordens, o Mosteiro conservou-se até à morte da última freira (1884), mantendo-se depois ainda o culto na Igreja, cuja paroquial, porém, como a de S. Tomé, se uniu à de S. Vicente em 1836. 
   Em Outubro de 1910, quando se proclamou a República, o antigo Convento era ocupado por um Colégio religioso, cuja patrona era D. Tereza Saldanha.
   Depois tudo acabou — Colégio e Igreja; esta foi profanada, recebeu obras do Estado, nela se instalando, pouco depois o Centro Republicano Magalhãis Lima, com sua escola infantil.

Largo do Salvador [c. 195-]
Convento de São Salvador, fundado em 1392 e Palácio dos Condes dos Arcos, ou de S. Miguel (ao fundo). Observe-se o brasão de armas coberto por panos.
Judah Benoliel, in AML

   Aí temos, à nossa esquerda, o Palácio dos Condes dos Arcos (de Val-de-Vez), hoje dos Condes de S. Miguel, cuja Condessa (Noronha) é ainda Arcos. Êste Palácio histórico, n.°s 14 a 25 do Largo, é o único representativo de tôda a Alfama, aquêle que, a despeito de não estar ocupado pelos seus ilustres proprietários senão no andar nobre, se mantém de pé. Relíquia alfamense na nobreza, com pergaminhos e crónica fidalga, êle sobrevive à evolução do tempo e dos costumes, como os raros, seus vizinhos, de S. Vicente. O Palácio, na sua formação primitiva, data dos fins do século XVI (...)

Largo do Salvador [c. 1900]
Palácio dos Condes dos Arcos, ou de S. Miguel. Observe-se o brasão de armas coberto por panos.
José Artur Leitão Bárcia, in AML

   O brasão que avulta sobrepujando o pórtico nobre é o dos Arcos, com as armas de Portugal no primeiro e terceiro quartel, e as do antigo reino de Castela, com dois leões batalhantes, no segundo e quarto.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 73-78, 1939)

Pórtico nobre do Palácio dos Condes dos Arcos, ou de S. Miguel [1955]
Largo do Salvador (*)
Brasão dos Condes dos Arcos com as armas de Portugal e as do antigo reino de Castela
António Passaporte, in AML

(*) Mais uma imagem de baixa qualidade, digitalização com chancela do Arquivo Municipal de Lisboa.

5 comments:

  1. Excelente registo. Muito se aprende convosco

    ReplyDelete
  2. Hola, el fotógrafo Benoliel no murió en 1932?

    ReplyDelete
    Replies
    1. Efectivamente, JOSHUA Benoliel morreu em 1932. Mas se se refere à 3ª foto, esta da autoria de seu filho JUDAH Benoliel.

      Delete
  3. Rever um passado tão longínquo acalma as nossas mentes(pelo menos a minha).Gerações sucedem-se umas às outras ou seja vidas vividas... o meu falecido pai(Carlos Paula),nasceu aí em Alfama na Rua de São João da Praça em frente da Igreja com o mesmo nome, em 1908.
    Obrigado ao Blogue
    Um abraço
    Manuel Paula

    ReplyDelete

Web Analytics