segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Carnaval de Lisboa, o «Chéché»

«Accorda a gente ouvindo, na rua, as castanholas dos rapazes. De vez em quando passa ao longe, muito festiva, uma philarmonica de artistas. É o Carnaval, não ha que vêr. Estamos em pleno domingo gordo. E aqui mesmo, debaixo da janella, um garroche veio tocar buzina furiosamente. Parece um epigramma a nossa preguiça cheia de indiferença. A pe! a pé! até os gainachas nos fazem surriada. Já se sabe na visinhança que gostamos de levantar-nos tarde; portanto a visinhança aproveita a occasião para nos mandar uma bisca n'uma buzina. Que horas marca o relogio? Onze. Com efeito! a buzina teve razão. A pé! a pé! Abrimos a janella. Oh! santo Deus! que mal encarado dia! eu pesadão, ruas lamacentas. Adivinha-se frio lá fóra. Pois, senhores, os que gostam de divertir-se no carnaval vão ficar verdadeiramente codilhados com este domingo gordo. Pobres rapazes! Elles ainda querem iludir-se annunciando a festa com as suas castanholas, espantar O mau tempo com a buzina.»
 (PIMENTEL Alberto, Vida De Lisboa,  1900, pp. 115-116)

Avenida da Liberdade Avenida Dom Carlos I com a Rua do Poço dos Negros [séc. XIX]
O
«Chéché», figura típica do carnaval lisboeta
Augusto Bobone, in AML

O «Chéché» era a principal figura das Paródias de Carnaval até cerca de 1910, chamavam-lhe peralta, salsa, pisa-flores. Era a caricatura da Lisboa miguelista, da cabeleira de estopa, com grandes lorgnons, trazendo, espetado na bengala, um grande chifre, empunhava um facalhão de madeira e papel prateado com o qual ia ameaçando: «Arreda.que te espeto» O «Chéché›» envergava uma casaca às cores, sapato de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um imenso chapéu bicorne com uma inscrição normalmente obscena, como se pode constatar por esta imagem.

Rua do Poço dos Negros [séc. XIX]
O
«Chéché», figura típica do carnaval lisboeta
Augusto Bobone, in AML

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