quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Retiro Perna de Pau e a história da gorda Gertrudes

«Mais adiante e à dir., [da Pç. do Areeiro] a Perna de Pau, um dos sítios mais freqüentados das hortas alfacinhas, com o seu registo de azulejos embebido na fachada da casa, a sua nora gemedora e o seu panorama característico de arrabalde lisboeta, onde predominam o olival e o verde claro das terras de regadio.
Êste local de tradições de boémia e estúrdia de há 50 anos, nele se têm feito desgarradas à guitarra e esperas de touros, com todo o pitoresco destes folguedos.» [1]

Retiro Perna de Pau junto ao apeadeiro do Areeiro na antiga Estrada de Sacavém [c. 1900]
Esta afamada casa de pasto situava-se no actual Largo Cristóvão Aires, perpendicular à Rua Gilhermina Suggia.
Aberto Carlos Lima, in AML
 
« Diz uma tradição que nós mesmos colhemos da bôca de uma vizinha da Orta, que o Perna de Pau fôra um antigo dono ou rendeiro do casal. Uma sexagenária que ajudava à cozinha nos dias de grande concorrência, quando as nacionais «pescadinhas de rabo na bôca»  chiavam tôda a tarde na sertã, foi quem nos esboçou a personagem do quinteiro, que ela aliás não conhecera, a quem um desastre esmagara a perna, figura humilde e apagada que a Fatalidade celebrizou, perpetuando a perna que não era dêle.

Retiro Perna de Pau junto ao apeadeiro do Areeiro na antiga Estrada de Sacavém [c. 1916]
Esta afamada casa de pasto situava-se no actual Largo Cristóvão Aires, perpendicular à Rua Gilhermina Suggia.
Paulo Guedes, in AML

A nossa informadora, estamos agora em crer, fêz uma lamentável confusão de sexos. Não se trata de um quinteiro mas de uma quinteira, não de um sinistrado mas de uma sinistrada. Quem, segundo a outra versão, mais certa, deu nome à saudosa Orta da estrada de Sacavém, foi a sua mesma proprietária, a obesa Gertrudes, que em 1833, geria aquela locanda dos subúrbios. E a perna perdeu-a ela por via de um tiro de escopeta. Foi o caso que a Gertrudes era afeiçoada aos liberais, e quando as tropas miguelistas do Marechal Bourmont se preparavam para atacar as barreiras da cidade onde os de D. Pedro já estavam, um soldado realista, de passagem pela orta veio pedir uma sêde de água à «malhada». A Gertrudes negou-lha. O miliciano era assomadiço. Pôs a arma à cara, e disparou. O tiro partiu e a bala cravou-se numa das pernas da quinteira. Tiveram de lha amputar, e mais tarde uma perna de pau veio substituí-la. Tal é a história.
Os anos rodaram; a identidade da gorda Gertrudes perdeu-se; a orta acabou com os seus «bródios» feriais, mas a perna permaneceu.» [2]

Retiro Perna de Pau junto ao apeadeiro do Areeiro na antiga Estrada de Sacavém [1939]
Esta afamada casa de pasto situava-se no actual Largo Cristóvão Aires, perpendicular à Rua Gilhermina Suggia.

Eduardo Portugal, in AML

Nas suas «Farpas», o erudito escritor Ramalho Ortigão diz, a propósito: «A «Perna de Pau», o restaurante célebre, bem conhecido de todos os estômagos com tendências bucólicas, impelidos pela nostalgia das hortas para fora de portas no tempo do tomate — organiza com os primores da estação, a nova lista dos seus acepipes. A talhe de foice, apresenta-se uma apetitosa ementa, da autoria de habilidosos artistas comensais:

Sopa de marisco será
O que primeiro comerá;
E logo em seguida virão
Bons pasteis de camarão;
Emborque-lhe: o branco vinho
Que o Monteiro dá, amiguinho.
Algum frango cm cabidela
E pr'a apanhar a piela
Regue'o co'a pinga danada
Que antes da vitela assada
O cidadão tem provado.
Vem sobremesa com ralé
Bebe-se logo o café,
E, se mal jantado ficar.
Vá àquela parte cear.
      Perna de Pau, 1 de Junho de 1912. 

Consta, igualmente, que as pescadinhas de rabo na boca, ornamentadas com raminhos de salsa, acompanhadas de salada de alface, eram do melhor que se comia em Lisboa. Diz-se, também, que entre os seus frequentadores, se encontravam elementos do grupo dos «Vencidos da Vida» e o pintor José Malhoa. Depois de ter passado por mais uns quantos proprietários, um mandado judicial determinou o seu encerramento c. 1930.

Passagem de nível na estrada de Sacavém, ao Areeiro, perto do retiro A Perna de Pau [194-]
Esta afamada casa de pasto situava-se no actual Largo Cristóvão Aires, perpendicular à Rua Gilhermina Suggia.

Eduardo Portugal, in AML

[1] (PROENÇA, Raúl, Guia de Portugal, Lisboa e arredores, 1923, p. 266)
[2] (SEQUEIRA, Gustavo de Matos, MACEDO, Luiz Pastor de, A Nossa Lisboa-Novidades Antigas Dadas ao Público, p. 46)


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