Saturday, 31 December 2016

Confeitaria Nacional

1829 — Fundação da Confeitaria Nacional, por Baltasar Rodrigues Castanheiro, situada na Rua da Betesga, então apenas com duas portas. Cerca de 40 anos depois, o filho do fundador, Baltasar Rodrigues Castanheiro Junior, “fez nela importantes melhoramentos”, e inaugurou no primeiro andar “um elegante salão”. Foi também Balthazar Junior que trouxe de França, no séc. XIX, a receita do afamado Bolo-Rei, com base no francês “Gâteau des Rois”.


Em 1872, a Confeitaria Nacional merecia honras de primeira página no Jornal Diário Ilustrado, destacando este estabelecimento como um dos mais “vastos e elegantes  da capital”, fazendo uma resenha do seu historial:
   Em 1829 um comerciante probo, o Sr. Balthazar Rodrigues Castanheiro, fundou esta confeitaria, e tinha então duas portas, e ocupava apenas uma parte das lojas; já n'essa época este estabelecimento era dos primeiros, dos mais bem sortidos, e dos mais acreditados do seu género. 

Confeitaria Nacional [1937]
Praça da Figueira esquina com a Rua dos Correiros

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

   Não estava nesse tempo, entre nós, tão aperfeiçoado o fabrico de gulodices, ou antes os conventos das freiras quasi monopolisavam as receitas mais especiaes, o que dava em resultado uma concorrencia desvantajosa para a arte de confeiteiro. (...)
   Em 1869 falleceu o fundador do estabelecimento de que nos estamos occupando, e succedeu-lhe seu filho, de egual nome, moço que, a uma educação aprimorada, reune as qualidades que podem tornar distincto um industrial da sua especialidade. Dotado d'aquella perspicacia, que sebe segregar ao commerciante intelligente as suas verdadeiras conveniencias, o sr. Castanheiro emprehendeu e realisou n'esse mesmo anno importantes melhoramentos no seu estabelecimento, que ocupa hoje, além das lojas desde nº 57 e 63, uma grande parte do 1º andar, aonde fundou um elegante salão, com gabinetes explendidos.
   N'este pavimento vende no verão, além de todos os refrescos, vinhos especiaes e pastelaria que ali se encontram durante todo o anno, sorvettes de variadas especies, carapinhadas, soda nevada, e a deliciosa bebida gelada a que os espanhoes chamam chufas.

Confeitaria Nacional, gravura
in Diário Ilustrado, 22 de Dezembro de 1872









   
   A decoração d'este pavimento revella a quem n'elle entra, um bom gosto não vulgar. Uma cascata aonde aqui e ali se destacam conchas, buzios e stalactites de valor; muitos arbustos delicados, em vasinhos de feitios primorosos: bustos em bronze, de personagens historicos, uma elegante mobilia, tudo denuncia um certo bom tom, que, em definitivo, tem ali atrahido as primeiras familias da capital, a quem não foi diffícil comprehender a utilidade de um estabelecimento que em Lisboa é único no seu género.
   É n’este pavimento que o sr. Castanheiro faz hoje uma bonita exhibição de bollos de phantasia, gelados, lampreias, e quanto de mais delicado a sua industria póde produzir, tudo feito nas suas officinas, e destinado a brindes proprios da época; e, como se isto fosse pouco para revellar o quanto procura fazer realçar o seu estabelecimento, uma linda Árvore de Natal, ricamente enfeitada, se ostenta entre aquelles primores de uma arte, que tem por principal missão adoçar a bocca á humanidade.
Em conclusão, o estabelecimento do sr. Balthazar Castanheiro exporta em grande escala para o estrangeiro compotas de todas as qualidades, conservas e fructa christalisada, que fabrica com admiravel perfeição, e bem assim vinhos e licores dos mais especiaes. [1]


Factura da Confeitaria Nacional datada de 1 de de Fevereiro de 1872

Em 1871 foi inaugurada na Confeitaria Nacional a iluminação a gás, do qual se gastaram em Setembro 373 m3 a 60 reis cada, fornecidos pela “Companhia Lisbonense d’Iluminação a Gaz”. Com o aluguer do contador (para 50 luzes), pagou-se nesse mês a “elevada” quantia de 22$980.
O prestígio conquistado entre os lisboetas levou a Confeitaria Nacional, em 1873, a pedir o estatuto de fornecedor da Casa Real Portuguesa, declarando ter “bom crédito e reputação comercial”. O estatuto foi-lhe concedido por alvará do Rei D. Luis I. [2]


Bibliografia
[1] (Diário Ilustrado, 22 de Dezembro de 1872)
[2] (confeitarianacional.com)

Thursday, 29 December 2016

Garagem Liz

Aqui onde está hoje o edificio da «Garage Liz» assentou o Real Coliseu de Lisboa, construido em 1887, em terrenos que pertenciam à Condessa de Geraz de Lima e depois ao seu viuvo Conde da Folgosa.


Classificada como Imóvel de Interesse Público, esta obra do arq. Hermínio Barros, datada de 1933, constitui um interessante exemplar da arquitectura modernista de Lisboa, inserido no movimento estético-arquitectónico generalizado na década de 30 do séc. XX, muito ao gosto «Art Déco», com alguns apontamentos Arte Nova. Trata-se de um edifício de carácter misto, que alia a tipologia de garagem com a actividade comercial, cuja inserção na malha urbana foi bem conseguida. De planta rectangular e volumetria simplificada, desenvolve-se em dois pisos,de acentuada verticalidade, destacando-se o tratamento da sua fachada, caracterizada por um jogo de linhas verticais e horizontais, que se entrecruzam, pelos seus elementos na sua maioria planos, de desenho geometrizante, e por uma entrada principal encimada por janela do tipo «bow-window», de influência Arte Nova, ladeada por dois pilares coroados por uma espécie de coruchéus em estrutura de ferro revestidos a vidro. A marcação dos elementos estruturais da sua fachada dinamizam e valorizam todo o conjunto.

Garagem Liz [1934]
Rua da Palma, 265-287; Calçada do Desterro, 1-1E

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 68)
(cm-lisboa.pt)

Tuesday, 27 December 2016

Café Chiado

O Café Chiado, nos n.°* 58 e 60, sucedeu a uma Livraria Portugal-Brasil, cujo estabelecimento, neste sítio, por sua vez sucedera à Chapelaria de Augusto Ribeiro. O mais interessante do Café Chiado não está no seu presente, mas no passado remoto. É que foi aqui o celebrado Café Marrare «do Pulimento», fundado por António Marrare (...)1

 

   Corria então o ano de 1925 — escreve Mário Costa no seu Chiado pitoresco e elegante. Depois da inevitável interrupção para as sucessivas obras de reconstrução e embelezamento, os célebres vãos de portas, números 58 e 60, com outro sistema de arquitectura, e lá dentro uma nova marcenaria, voltaram a abrir-se, para acolher outro público, de características bem diferentes. Apareceu o Café Chiado, que a escritura social de 6 de Maio especificadamente denominou Café Chiado, Ld.ª. O seu parecer mostrou-se sempre carregado, de ar pacato, talvez sensaborão, sintomas que um quarteto musical procurava alterar, proporcionando aos clientes contínuos acordes de boa música, à hora dos almoços e durante a noite, passatempo que, numa volta do calendário, se extinguiu penosamente. 
   Em grande parte, os frequentadores do Café Chiado eram estudantes de cursos superiores. Com a simples bica e o complementar copo de água à sua frente, justificavam a sua demorada presença, rodeados de calhamaços, e iam engrolando uns tantos palavrões que o estudo da anatomia impunha conhecer, ou enchendo quartos e quartos de papel com os cálculos matemáticos que a Ciência ordena e o Mestre não dispensa. 

Café Chiado [1929]
Rua Garrett, 58-60

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

   À porta, juntavam-se uns grupos de tagarelas. Rapaziada de sangue na guelra, olhando para as pequenas, a quem dirigia dichotes, e uma roda de intelectuais, que deixaram grande saudade. 
   Era esse o ponto preferido pelo sentimental Bourbon e Meneses, que aí passou os seus últimos e tristes dias. Um tal espírito, que não parecia terreno, classificava-o Aquilino, uma «alma tão galharda e fina de sentimentos e de têmpera». Acrescentou, o ilustre escritor: «Às segundas e terças, era certo no vão da porta ocidental (...), de cutelo para a rua, lançando as suas anedotas com esperto sainete e ouvindo as larachas da roda (...). Despedia-se do Chiado, a rua ali ciadora em seu recato e até na sua incrustada pasmaceira elegante; despedia-se de modo geral da cidade que tanto amou, lhe recebeu o livro carinhoso Sua Graça (...) pelo qual viria a ser galardoado tão justamente com o prémio camarário».

Café Chiado [1939]
Rua Garrett, 58-60

Eduardo Portugal, in AML

   Dentro do ano de 1963, o Café Chiado acentuou a sua decadência. Em pleno Junho, os jornais chamavam a atenção para o estado caótico do alpendre exterior; e, em Novembro, já os periódicos noticiavam, com grande surpresa dos lisboetas, o próximo encerramento do estabelecimento, facto que se confirmou no dia 27 de tal mês, um tanto precipitadamente, para evitar o completo desaparecimento de toda a utensilagem em serviço, levada pelos clientes, como gratos souvenirs.
   O leilão teve início em 4 de Dezembro. Nada escapou à rasoirada, incluindo as duas grandes telas que guarneciam as paredes de outras tantas salas: «O Festim Antigo», de Fernando Santos, e «Interior de Casino», de Carlos Neves.  
   Dos últimos contemporâneos, conservaram-se fiéis, até à hora derradeira, os escritores José Gomes Ferreira, Augusto Abelaira, Alexandre Pinheiro Torres, Alves Redol, Manuel Ferreira, José Cardoso Pires, Alexandre Cabral, Fernando Namora e Rogério Fernandes.2

Café Chiado, aspecto da entrada [1929]
Rua Garrett, 58-60

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia 
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 95, 1939)
² COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 148-149, 1987.

Saturday, 24 December 2016

Kermesse de Paris

A Kermesse de Paris, considerada durante muitos anos a melhor e mais cara loja de brinquedos de Lisboa, foi fundada nos finais do século XIX por Thomaz J. Sá Dias. A loja sita na então Rua do Principie — depois 1º de Dezembro (1911) — estabeleceu-se no piso térreo  do recém-inaugurado edifício do Hotel Avenida Palace. Dispunha de um completo sortido de brinquedos desde bonecas, carros, triciclos, bicicletas e trotinetas, aos automóveis para crianças, até aos famosos cavalinhos de pasta que faziam as delícias da pequenada.
Durou mais de cem anos, encerrando em 1990.

O enlevo da pequenada perante a chrgada de brinquedos à Kermesse de Paris [23 Dez. 1912]
Rua 1.º de Dezembro
Joshua Benoliel, in Arquivo do Jornal O Século

Sempre o menino parava,
Se avistava
Algum alegre brinquedo,
Coisa que ali não faltava:
Ficava-se mudo e quêdo,
Com longos olhos olhando,
Cobiçando...
 — Compre-me um brinquedo, mãe!
António Corrêa d’Oliveira, Parábolas, 1905

Kermesse de Paris [23 Dez. 1912]
Rua 1.º de Dezembro 
O presente de Natal e a felicidade perfeita
Joshua Benoliel, in Arquivo do Jornal O Século

Já antes, de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo esta «serventia [o autor refere-se à actual Rua do 1.º de Dezembro, antiga do Príncipe] parece que fora chamada pelo vulgo, no tempo de Pombal, depois do Terramoto, Rua Nova das Hortas e Rua das Hortas (e que constituiria referência oral à Horta da Mancebia ou a horta dos terreiros do Duque de Cadaval ou dos Condes de Faro, mais para Norte). Antes de 1755 a Rua tinha já o traçado sensivelmente idêntico ao de hoje, e chamava-se Rua de Valverde — lindo nome.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 85) 

Anúncio da Kermesse de Paris
Revista Serões, 1905
Rua 1.º de Dezembro  [c. 1905]
Em baixo à direita, a Kermesse de Paris
cf. se pode ler no toldo e no lettering 
no edificio do Hotel Avenida Palace;
 Estação do Rossio

Wednesday, 21 December 2016

Profissões de Antanho: o vendedor de perus

E pelas ruas os bandos de pernaltas lá vão saltando pela lama, transidos de frio, gru-gru, apanhando o seu carolo com a cana do vendilhão, que apregoa aos quatro ventos é casal de piruns.


Um dos «quadros» que mais emprestavam a Lisboa o carácter de uma época festiva — como hoje as grandes iluminações das ruas e das montras — era o tradicional aparecimento dos vendedores de perus. Com a ajuda de longas canas conduziam e mantinham os bandos de perus em perfeita disciplina, soltando ao mesmo tempo os seus ululantes e estridentes pregões:
— Méér-c´ò casál de perús!…
— Perú salôôiô! É sa-lôôiô!!!
— Olha óóó pru da roda vó-óóó-a!
Lisboa prepara n'este momento a festa do Natal. Grandes rebanhos de perus, enrabeirados de lama, espalham no macadame, as suas manchas movediças e escuras, de reflexos de aço, adornadas das florescências brancas e vermelhas dos moncos. Pessoas idóneas pastoreiam esses galináceos guiando-os a golpes de cana por entre as rodas dos trens e por entre as pernas dos viandantes. Na compra destes perus convém escolher os mais teimosos: à força de cana são esses os mais tenros. [1]

Largo  de S. Ddomingos [c. 1891]
Augusto Bobone, in AML

Praça dos Restauradores [c. 1891]
Augusto Bobone, in AML

Largo de São Roque, desde 1913, Largo Trindade Coelho [c. 1903-1908]
Ao fundo a Calçada do Duque e a Rua Nova de Trindade
Charles Chusseau-Flaviens, in GEH
























Dias antes do Natal, os saloios apareciam a vender perus pelas ruas da cidade exibindo os bandos de aves mais propriamente pelo largo de S. Domingos, praças da Figueira e do Camões e outros locais por aí. Era ver os gordos perus carecas, os moncos avermelhados ou azuis, consoante seus estados de espírito, tufando-se e abrindo os rabos em leque na vã tentativa de querer imitar os pavões, perdendo embora seu feitio brigão, acobardados, talvez na dúvida dos seus destinos, fazendo ouvir os gluglus repetidos ao primeiro assobio do vendedor para os manter empertigados, atitude que em breve acabaria numa fatal bebedeira de bagaço quando, em ablativos de morte, lhes poupavam carinhosamente o desgosto de assistir ao seu próprio fim, para regalo das jantaradas que sempre comemoraram o nascimento do Menino. [2]

Praça Dom Pedro IV [c. 1891]
Augusto Bobone, in AML

Largo de São Domingos [190-] 
(Escadinhas Barroca)
Paulo Guedes, in AML

Praça de D. Pedro IV [ant. 1908]
Venda ambulante de perus junto à Loja do Povo (Rossio)
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
[1] (ORTIGÃO, Ramalho, As Farpas: A religião e a arte, p. 171, 1888)
[2] (DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1900-1974, p. 181)

Sunday, 18 December 2016

(Antiga) Ermida das Mercês


Já agora, Dilecto, dêmos uns passos atrás, em continuação ainda da ronda pombalina: os dois apontamentos prometidos àcêrca da Ermida das Mercês, de desolador aspecto, «coisa morta» sem constituir uma ruína.
Pertenceu em vínculo comum aos Carvalhos, da Rua Formosa, depois família dos Pombais. A pequena Igreja, que data dos começos do século XVII, foi restaurada em 1652, quando o tio de Sebastião José de Carvalho e Melo, o desembargador Paulo de Carvalho, conseguiu que o templo passasse a paroquial (das Mercês), desanexando-se da paroquial de Santa Catarina.

(Antiga) Ermida Nossa Senhora das Mercês [1908]
Travessa das Mercês, 48-52; ao fundo, a Rua de O Século, antes Rua Formosa
 A capela foi demolida nos meados do séc. XX para construção de um imóvel de habitação
Joshua Benoliel, in AML

Teve um adro desaparecido em 1835, ano em que a sede da paroquia eclesiástica foi transportada para a Igreja do Convento de Jesus. Voltou então a Igreja, antiga Ermida das Mercês, à sua modesta condição familiar. Depois do Terramoto foi beneficiada de obras, e assim também em 1889. Era de uma só nave, e tinha duas capelas, além da principal. Neste templo foi baptisado, como disse atrás, Sebastião José, o grande estadista, e, em Junho de 1856, para aqui vieram, trazidos da Igreja de Santo António, da vila de Pombal, pelo Marechal Saldanha, os restos do Marquês de Pombal, que sessenta e sete anos depois (1923) foram transportados desta Ermida para a Capela da Memória, no Alto da Ajuda.
A capela foi demolida nos meados do séc. XX para construção de um imóvel de habitação.
 
Ermida das Mercês (Gravura) 
Rua de O Século com a Travessa da Mercês

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 60)

Friday, 16 December 2016

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha

O Palácio dos Teles de Meneses, neste século mais conhecido pelo Palácio Alfredo da Cunha, com frente sobre o Largo de S. Vicente, é uma edificação que remonta ao principio do século XVII, em casas nobres cujas características hoje mal se descortinam.


   Aí temos na esquina da Rua e Largo, lado Norte, o magnífico Palacete do Dr. Alfredo da Cunha. Assenta sôbre esta alta e desafogada muralha, na face do Largo, construida em 1606, isto é: quando se reedificava a Igreja de S. Vicente, pelo Senado de Lisboa, presidido por D. João de Castro. Estas duas lápides embebidas na muralha atestam o facto. Diz uma no seu latim laudatório: «Esta rua tão formosa veio acrescentar realce ao templo; eis uma obra menor que adorna outra maior...» etc; reza a mais pequena na sua legenda, de clássicos dizeres: «A Cidade mandou fazer esta obra à custa do real do povo›. 

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha [c. 1952]
Largo de São Vicente, 5; Rua da Voz do Operário, 2-20; Telheiro de São Vicente, 1-2C
Salvador de Almeida Fernandes, in AML

Depois de erguida a muralha foram construídas umas casas sôbre os terrenos que ela ampara, casas que em 1686 eram de Fernão Teles de Menezes, e, conservadas em família, estavam em 1816 habitadas pelo marechal Pedro Vieira da Silva Teles. Em 1902, o Palácio foi adquirido por D. Agostinho de Scusa Coutinho, Marquês do Funchal, e, em 1906, êste o vendeu ao escritor Dr. Alfredo da Cunha, que nêle habita [em 1939]. [este fez grandes obras dirigidas pelo arq.º Nicola Bigaglia]

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha [c. 1952]
Largo de São Vicente, 5; Rua da Voz do Operário, 2-20; Telheiro de São Vicente, 1-2C
Salvador de Almeida Fernandes, in AML

   Também o Palácio Alfredo da Cunha tem tradições em S. Vicente, fidalgas e literárias, a começarem no tempo em que o habitou, há uns setenta anos, D. Mariana de Noronha. O Palácio do Dr. Alfredo da Cunha, e que de assisadas obras tem beneficiado, está recheado de arte, emmoldurado em bom gôsto, transpirando a nobreza de espírito do seu possuidor.

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha [c. 1900]
Largo de São Vicente, 5; Rua da Voz do Operário, 2-20; Telheiro de São Vicente, 1-2C
Machado & Souza, in AML

O interior, profundamente alterado, ainda conserva uma feição seiscentista na escadaria e na traça de alguns tectos. A escada, ao lado do Largo de São Vicente, foi revestida a azulejos colocados durante a intervenção de Bigaglia.
O jardim surge estruturado em três planos alcandorados, valendo todo o conjunto pela excelente colecção de azulejos reunida pelo proprietário Alfredo da Cunha. provenientes da Igreja do Convento de Santa Joana e de portas e colunas de mármore vindas da Ermida das Mercês. O interesse do edifício reside no seu carácter funcional, representando um paradigma na arquitectura seiscentista da capital.
Actualmente, procura novo proprietário no portal de uma agência imobiliária por quase 8 milhões de euros.

Palácio Teles de Menezes / Palácio Alfredo da Cunha, jardim [c. 1910]
Largo de São Vicente, 5; Rua da Voz do Operário (ao fundo), 2-20; Telheiro de São Vicente, 1-2C
Alberto Carlos Lima, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, Fasc. IX, p. 147, 1950.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 59-60, 1939.
VITERBO, Sousa - Diccionario Historico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Construtores Portuguezes ou a serviço de Portugal, vol. III, 1904.

Thursday, 15 December 2016

Estação do Rossio

Acordei um pouco antes do meio-dia, quase a chegar a Lisboa. Era impossível pensar em almoçar e mal tive tempo de me aproveitar rapidamente do meu gabinete de toilette e do belo equipamento da minha mala de crocodilo. Não voltei a ver o professor Kuckuck na confusão da descida, nem na praça em frente do edifício da estação, de inspiração mourisca, onde segui o carregador até uma tipóia descoberta.¹

Esta Estação Central da C. P. foi começada a construir em 1887, e assenta em terrenos que foram, do lado sul e poente, do Duque do Cadaval; derrubaram-se uns prédios que aqui existiam, com feitio lisboeta rudimentar, e pôs-se de pé o edifício decorativo que vemos.

Estação do Rossio, em construção [c. 1888]
Largo D. João da Câmara; Largo do Duque de Cadaval; Calçada do Carmo

Panorâmica tirada do Jardim de S. Pedro de Alcântara

Huber Vaffier, tin BNF

Estação do Rossio, em construção [c. 1889]
Largo D. João da Câmara; Largo do Duque de Cadaval; Calçada do Carmo

Fotógrafo não identificado

O arquitecto dêste edifício — cuja fachada é um pastiche dos monumentos manuelinos, na variante dos pórticos em ferradura — foi José Luiz Monteiro [1848-1942], veneranda relíquia da arte, professor aposentado, e que conta hoje [em 1939] 83 anos; o engenheiro assistente foi Cândido Xavier Cordeiro.
No último pavimento superior abre-se o vestíbulo, que conduz à gare. pequena para o movimento de uma estação central, terminus de linha internacional. 
Enquanto se construía a Estação, ia-se perfurando o túnel, que tem 2.610 metros, trabalho de engenharia dirigido pelo francês Bartissol, e dado de arrematação, por troços, a vários engenheiros, e cuja obra começou em Abril de 1887; fizeram-se aberturas em vários pontos do trajecto, pelas quais a perfuração se fêz em partes, verificando-se a junção das galerias em 24 de Maio de 1888

Estação do Rossio, em construção [c. 1889]
Largo D. João da Câmara; Largo do Duque de Cadaval; Calçada do Carmo

Fotografia anónima

O túnel foi inaugurado em 11 de Junho de 1890, mas já em 8 de Abril de 1889 pelas 6 da tarde chegava ao Rossio a primeira máquina, com um vagon, vinda de Campolide, ou seja do sítio famoso da Rabicha.²

Estação do Rossio [1927]
Largo D. João da Câmara; Largo do Duque de Cadaval; Calçada do Carmo

Legenda: «Os operários procedendo a obras de reparação da estação do Rossio», in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
¹ MANN, Thomas (1875-1955). As Confissões de Félix Krull. 1895.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 84, 1939.

Tuesday, 13 December 2016

Palácio Valmor

Agora, Dilecto, voltemos ao Campo de Sant'Ana.

Aí tens a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa [em 1938]. É um edificio largo, e decente, na sua fachada, mas, no seu interior, tudo o que há de mais impróprio para o fim a que destinou em 1914. O prédio, construido pelo Visconde de Valmor, é ainda de umas senhoras, herdeiras daquele titular.


Palácio edificado no séc. XVIII, traduzindo um exemplar de arquitectura residencial setecentista, integra o conjunto do Campo dos Mártires da Pátria, que está classificado como Imóvel de Interesse Público. De planta longitudinal, o edifício, composto por vários panos murários definidos por pilastras, desenvolve-se em três pisos, tendo por remate uma cornija encimada por balaustrada ritmada por plintos coroados de urnas e por estátuas de figuras femininas no enfiamento das pilastras.

Palácio Valmor [1929]
Campo dos Mártires da Pátria, 36-39

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Legenda da foto no arquivo: «Palácio de dona Libânia de Almeida Lima»

O piso térreo, de reboco pintado de branco simulando placagem de cantaria, surge rasgado por portas em arco abatido e janelas de peito. O andar nobre é animado pelo rasgamento a ritmo regular de janelas de sacada com grades em ferro fundido. O piso superior surge vazado por óculos com emolduramento em reboco figurando pequenas guirlandas. No interior merece referência um compartimento do piso nobre, o antigo Salão de Baile, que exibe espelhos de molduras douradas, assim como uma pedra de armas dos Valmor colocada no enfiamento de uma escadaria.
A função habitacional primitiva do edifício manteve-se até ao início do séc. XX, altura em que acolheu a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa — instituída em 1913 pelo dr. Afonso Costa, na Escola Politécnica — e posteriormente, a partir de 1964, a Embaixada da República Federal Alemã. Actualmente também aí funciona o Instituto Goethe.

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 39, [1938])
(cm-lisboa.pt)

Saturday, 10 December 2016

Jardim da Estrêla

Ora eis-nos no Jardim da Estrêla [ou Guerra Junqueiro], um dos maiores e mais formosos de Lisboa central, e seguramente — desaparecido que foi o velho Passeio Público — o de mais tradições alfacinhas, e que se envolve, pela sua característica infantil, numa atmosfera de ternura. 

   
   Na segunda década do século passado os chãos, onde veio a construir-se êste Jardim, eram de cultivo, com alguns casebres, pertencentes a um António José Rodrigues. A idéia do Jardim neste logar deve-se ao Marquês de Tomar e a sua realização a um donativo inicial de quatro. contos feito por um português do Brasil, Joaquim Manuel Monteiro. A obra começou em 1842, mas esteve interrompida, por motivo de lutas políticas, de 1844 a 1850. Finalmente a plantação começou naquele ano, sob a orientação dos jardineiros Bonard e João Francisco em Abril de 1852 foi aberto ao público.

Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela [1911]
Jardim da Estrela; Estufa do Jardim da Estrêea; Igreja de Santa Isabel, à esq. em último plano

Joshua Benoliel, in AML

Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela [1911]
Jardim da Estrela; Palacio Sotto-Mayor (ao centro); Liceu Pedro Nunes; Av. Álvares Cabral

Joshua Benoliel, in AML

Panorâmica da Estrela tirada do zimbório da Basílica da Estrela [1911]
Jardim da Estrela; Igreja e Antigo Convento de Nossa Senhora da Estrela [Hospital Militar Principal

Joshua Benoliel, in AML
   
   O Jardim da Estrêla esteve na moda durante toda a metade do século passado: era então o «Passeio da Estrela» das nossas românticas avós, ainda meninas. Neste Jardim existiu, aí por 1876, o famoso «Leão da Estrêla», lindo animal que fora doado pelo colonial Paiva Raposo, e esteve exposto, em sua jaula própria, no alto do parque. Demos uma volta por êste encantador recinto.
   Como vês «está-se aqui bem». Devia haver nesta Lisboa, privada de parques centrais, meia dúzia de jardins como êste.  

Jardim da Estrela, garden party [c. 1911]
Joshua Benoliel, in Arquivo do Jornal O Século
A rainha Dona Amélia no Jardim da Estrela [ant. 1908]
in AML
 
   Frondosa vegetação, bem disposta em paisagem — dragoeiros, plátanos, álamos, tílias, araucárias, abundância de rosas na primavera e verão — , canteiros, cascatas, lagos onde vogam cisnes, grutas artificiais, estufas com exemplares raros, alameda, ondulações de terreno habilmente aproveitadas — o Jardim da Estrêla honra a Câmara Municipal. 
   Aqui temos a embelezar as placas de verdura, algumas peças de arte, que merecem citação: «A Filha do Rei Guardando Patos», por Costa Mota, sobrinho, o «Despertar» por Simões de Almeida, sobrinho, «O Cavador», por Costa Mota, tio, estes preciosos bichos, em faiança das Caldas, por Rafael Bordalo, «A Fonte» por Maria Glória Ribeiro da Cruz, ainda êsse busto em bronze do Actor Taborda — ajudam a compor no ambiente paisagista um vinco de espírito puro, que sempre da obra de arte irradia. 

Jardim da Estrela [c. 1960]
«A Filha do Rei Guardando Patos», Costa Mota, sobrinho
Artur Inácio Bastos, in AML
Jardim da Estrela [post. 1911]
«Despertar», Simões de Almeida
Artur, in AML


   Lisboa foi sempre, Dilecto, uma cidade de eirados e miradouros. Não se poderá dizer que houvesse sido algum dia uma urbe ajardinada, na qual se rasgassem parques centrais. 
   As quintas dos velhos palácios foram desaparecendo com êles, retalhadas e aforadas pelo improviso urbano. 
   Daí o carinho que de mim transparece ao falar-te de um «Passeio» tão gracioso como o da Estrêla.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 47-48)

Jardim da Estrela [post. 1914]
«O Cavador», por Costa Mota, tio
Artur Bárcia, in AML
Jardim da Estrela [post. 1912]
«Busto do Actor Taborda», Mota, sobrinho
Artur Bárcia, in AML










   .

Thursday, 8 December 2016

Palácio Silva Amado

O palácio era setecentista, já do período da transição e tinha jardins salas e átrios de muita beleza, puramente alfacinhas no gôsto decorativo, nêle avultando os azulejos que hoje se conservam. (...) Nêste sítio é que foram supliciados (...) os onze companheiros de Gomes Freire de Andrade, no dia 18 de Outubro de 1817. Uma lápide, comemorativa do acontecimento histórico, estava colocada desde há mais de meio século no lado direito da fachada dêste prédio [vd. 2ª foto], mas foi apeada há quatro meses [c. 1938], quando do comêco das obras na frontaria; não voltará a ser colocada e passará a um museu da Câmara.[1]


Palácio Silva Amado [1928]
Campo dos Mártires da Pátria, 1-2 (Rua do Instituto Bacteriológico); Travessa do Torel, 2-4; Rua Júlio de Andrade, 2A
in Arquivo do jornal O Seculo













Palácio datado do séc. XVIII, traduz um exemplar de arquitectura residencial setecentista, remodelado e reconstruído para residência do médico e professor Dr. José Joaquim da Silva Amado, 1º director da então designada Morgue (posteriormente, em 1918, Instituto de Medicina Legal). Foi objecto de obras de alterações na década de 1930, após a sua aquisição pelo Estado em 1928. Integra o conjunto do Campo dos Mártires da Pátria, que está classificado como Imóvel de Interesse Público.  Com o do Patriarcado, também da centúria de setecentos e construído ou influenciado por Ludovice, e alguns outros imóveis mais recentes, contribui para que todo o sector poente do Campo de Sant'Ana se constitua hoje como uma zona de forte carácter.
Trata-se de um edifício de planta rectangular, cuja fachada posterior surge articulada com jardim. Por sua vez, a sua fachada principal simples, de grande harmonia e quase despojada de ornamentação, contrasta com o seu interior, em especial o átrio de entrada, o vestíbulo do andar nobre e a escadaria, que funcionam como espaços de aparato e exibem um tratamento decorativo de marcada erudição e requinte plástico: mármores lavrados, património azulejar, tectos de caixotões de madeira pintada, talha, pintura, espelhos, entre outros. 
No exterior, na sua fachada voltada para a Travessa do Torel, exibe um painel de azulejos da invocação de Nossa Senhora da Atalaia. [2]

Palácio Silva Amado [1928]
Campo dos Mártires da Pátria, 1-2 (Rua do Instituto Bacteriológico); Travessa do Torel, 2-4; Rua Júlio de Andrade, 2
Ao centro vê-se a já apeada lápide referida pelo olisipógrafo Norberto de Araújo
in Arquivo do jornal O Seculo

Bibliografia

[1] ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 38-39, [1938].

[2] ADRAGÃO, José Victor , PINTO, Natália, CASQUILHO, Rui, Lisboa, p. 84, 1985.

Tuesday, 6 December 2016

Do Borratém, subindo pelo Beco dos Surradores até ao Largo dos Trigueiros

   Do Poço do Borratém sobe-se pelas escadas do Beco dos Surradores (nada com feitio de beco) deixando à esquerda, logo de início, a Rua de S. Pedro Mártir, de onde saem mais escadas, em curioso dédalo, entroncando-se e conjugando-se, acabando por se reünir no Largo dos Trigueiros.

Beco dos Surradores [1902]
(Surradores são aqueles que surram ou curtem as peles ou couros)
Ao fundo o Poço do Borratém
Machado & Souza, in AML

   É um capricho de construção de acaso, mas mais parece fantasia feliz de urbanistas antigos, que disfarçaram pitorescamente os declives da encosta. [1]

Beco dos Surradores [1945]
(Patrulha do Exército Português)
Fernando Martinez Pozal, in AML

Na Gazeta de Lisboa — o principal periódico de informação política portuguesa entre 1715 e 1820 — pode ler este curioso anúncio, ou Aviso, como se dizia à época, publicado numa quarta-feira dia 22 de Setembro de 1813:

Agoa para tingir o cabello da eabeça, a melhor que se tem visto em LisЬоa, para tirar sardas e panno do rosto, para fazer a pelle fina e branca, e para conservar o semblante em boa cor , continúa a vender-se no beco dos Surradores, N.º 4, defronte dos Padres Camillos ao Posso do Burratem. Na mesma casa se lavaõ fios, e se tingem de preto, e de todas as côres, e se tiraõ nodoas de todas as qualidades, aínda que sejaõ de tinta dada a oleo, seja em seda ou lã. [2]

Largo dos Trigueiros [c. 1940]
Chafariz do Largo dos Trigueiros

Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
[1] (Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 55-56)
[2] (Gazeta de Lisboa, N.º 22, 1813)

Saturday, 3 December 2016

Café Áurea Peninsular, antigo Café do Nóbrega

Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje Áurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete annos o botequim fechou, elle acabou de jantar, foi muito lepido pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafesinho, — encontrou as portas fechadas, e morreu. [1]


Em 1898, Pinto de Carvalho (Tinop), escrevia sobre este café de grande nome na Lisboa da segunda metade do século XIX; antes de 1885 fôra um Café do Nóbrega, e para trás — crónica de Lisboa.

   Cabe a vez de falar d'um café dos mais conhecidos de Lisboa — o café Aurea Peninsular. Esta antiga loja de bebidas da rua do Ouro leve como predecessora urna casa de jogos de bilhar, carias o gamão, pertencente a José Manoel d'Aguiar, que, em 11 d'agosto de 1819, foi preso por não ter licença para jogos, mas, pouca depois, mandado soltar, pagando 38$354 réis de multa. O estabelecimento linha então os números 92 e 93[hoje n.ºs 201-203].

Café Áurea Peninsular [c. 1910]
Rua Áurea, 195-203
Neste local já tinha funcionado um outro café, fundado em 1801, por Domingos Ardição, ou Ardisson. 
Encerrado c. 1820
Alberto Carlos Lima, in AML
Nota(s): imagem catalogada no AML: [Café Áurea Peninsular na rua dos Sapateiros]

   Em 1827 era dono d'essa casa o José Joaquim da Nobrega, que Ihe poz o nome de café do Nobrega. Este novo proprietario tomou mais duas portas, e a loja ficou assim occupando de numero 89 a 93 [hoje n.ºs 195-203] . (...)
   O antigo café do Nobrega terminou em 28 de junho de 1855, dia em que foi feito leilão do mobiliario constituido por dois bilhares, mezas com pedra, ditas de madeira para jogo de cartas, com seus pannos, cadeiras, candeeiros de gaz e de azeite, relogio, etc.
   O café pertenceu a novo proprietario que o reformou de fond en comble, supprimindo-lhe as antigas sobre-lojas e chrismando-o em café Aurea Peninsular.

Café Áurea Peninsular [c. 1910]
Rua Áurea, 195-203
Neste local já tinha funcionado um outro café, fundado em 1801, por Domingos Ardição, ou Ardisson. 
Encerrado c. 1820
Alberto Carlos Lima, in AML
Nota(s): imagem catalogada no AML: [Café Áurea Peninsular na rua dos Sapateiros] 
  
   O Jornal do Commercio de 16 de outubro de 1855 participava a inauguração do botequim nos seguintes termos: — «Hontem abriu-se no antigo botequim do Nobrega um café denominado café Aurea Peninsular; pertence ao proprietario do do largo de Santa Justa. É  um estabelecimento dos mais decentes de Lisboa. Parece ter pouca luz em consequencia de ser bastante escuro o papel que forra a sala e a casa do bilhar. A cozinha está bem arranjada e com exemplar aceio». 
   Tal era o café Aurea Peninsular que acabava de soffrer, pela terceira vez, outra reforma.[2]

´Publicidade ao Café Áurea Peninsular [1908]

Bibliografia

[1] (Julio Cesar Machado, a sua vida e a sua obra, Diario de Noticias, 1926) 

[2](CARVALHO, Pinto de, Lisboa d'outros tempos II, Os Cafés, pp. 210-211, 1898)

(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol.XII)

Thursday, 1 December 2016

O Pátio da Galega e o Beco de Francisco André, à Rua da Boavista

Ora vamos seguindo a Rua da Boa Vista, cuja fisionomia do lado Norte, como de-certo vais notando, é mais sulcada de velharia. 


Contempla êste Arco, de volta redonda, alto, que conduz ao Pátio da Galega. Ao fundo da passagem desdobra-se outro Arco ou passadiço, e então se abre o pequeno pátio, pobre e triste, sem ambiente pitoresco que não seja o que a sua grande boca, rés-vés da rua, pode sugerir. Não chega a constituir um apontamento de Alfama, na Boa VistaÉ, porém, interessantíssimo o seu exterior.

Arco, entrada para o Pátio da Galega, à Rua da Boavista (junto ao nº 120) [1953]  
Fernando Martinez Pozal, in AML

Arco, entrada para o Pátio da Galega, à Rua da Boavista (ao fundo) [1953]  
Fernando Martinez Pozal, in AML

O Beco de Francisco André — escadaria entre prédios, mais nada — vale ser citado apenas porque deve o seu nome a um mesteiral que foi da Casa dos Vinte e Quatro.

Arco do Beco de Francisco André, à Rua da Boavista, n.º 130 [1953]    
Fernando Martinez Pozal, in AML

A Casa dos Vinte e Quatro foi criada em 16 de Dezembro de 1383, por D. João, Mestre de Avis (futuro D. João I) com o objectivo de permitir que os mesteirais participassem no governo da cidade.
A Casa dos Vinte e Quatro era composta por dois representantes de cada uma das doze corporações de ofícios da cidade, conhecidas por "bandeiras”, os quais colectivamente eram conhecidos pelos "Vinte e Quatro”. Cada bandeira era designada pelo respectivo santo padroeiro e incluía um ofício de cabeça, bem como outros ofícios anexos. 
As reuniões realizavam-se inicialmente na igreja de S. Domingos, os quais elegiam um juiz do povo (que presidia à casa), juízes de paz, procuradores e outros magistrados.
Na sequência da implantação do regime liberal em Portugal, as casas dos vinte e quatro foram extintas pelo Decreto de 7 de Maio de 1834.

Rua da Boavista [1883]
Legenda:
Azul: Pátio da Galega
Vermelho: Beco de Francisco André

Levantamento topográfico de Francisco Goullard n.º 313, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 79)
(cm-lisboa.pt; AML)
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