Thursday, 1 October 2015

Chegada a Lisboa de D. Estefânia

«No dia 18 de Maio de 1858, ao despontar da manhã, as salvas das fortalezas da cidade anunciavam ao povo que era aquele o dia destinado para o casamento do seu Rei. A Bartolomeu Dias que transportara a noiva gentil estava à vista, ancorada em frente da Praça do Comércio. O dia mostrava-se formoso: um belo dia de primavera, claro, cheio de luz e de perfumes, como são os de Portugal, em que as rosas e os lírios desabrocham debaixo do firmamento azul. O sol espelhava-se no Tejo sereno; e tudo parecia sorrir para acolher no coração alegre aquela que, em breves horas, viria sentar-se no trono, dignificado por Isabel de Aragão e Fihpa de Lencastre.

Preparativos no Terreiro do Paço (Praça do Comércio) [17 de Maio de 1858]
Fotógrafo: Amédée Lemaire de Ternante

Às 9 horas e 12 minutos, a artilharia anunciava que El-Rei havia saído do Paço das Necessidades, e 8 minutos antes das 10 chegava à Praça do Comércio o cortejo real, seguindo em tudo o programa publicado na folha oficial. O infante D. João, formoso e elegante, comandava o regimento de caçadores a cavalo, que desfilava à frente da guarda de honra composta de toda a força de cavalaria existente em Lisboa e que seguia o coche real.

Terreiro do Paço (Praça do Comércio) [18 de Maio de 1858]
Fotógrafo: Amédée Lemaire de Ternante

D. Pedro, recebido pela corte que já se encontrava no pavilhão, e pela Câmara Municipal, passou logo a embarcar para a Bartolomeu Dias. O espectáculo era imponente. As músicas dos regimentos, o estrondo da artilharia, os vivas dos marinheiros nas vergas dos navios, os foguetes rebentando no espaço, a agitação e os aplausos frenéticos do povo, tudo convertia aquele acto numa visão grandiosa, como raríssimas vezes se presenceia na vida das nações. Então apareceu a Rainha. Tudo ficou deslumbrado. Vestia de branco, envolta em finíssimas rendas, com ramos de murta e flores de laranjeira. Na cabeça o diadema que o noivo lhe oferecera, produto da arte portuguesa, cujos quatro mil brilhantes irradiavam ao sol, coroando-a de um disco luminoso. A formosura da Rainha, o seu ar natural e meigo, como que afagando a multidão, cativou logo o coração e o amor do povo.

Seguiram para o pavilhão. O rei D. Fernando dava o braço à infanta D. Maria Ana e o infante D. Luís à infanta D. Antónia. O povo não pôde coríter-se e invadiu os três pavilhões: queria participar mais directamente da festa. Queria ver a sua Rainha de mais perto e tão sincera, tão dedicada, tão carinhosa era a sua devoção q.ue nenhuma força o reprimiu.»
(in Archivo Piltoresco, 1858, vol. I, pág. 377-379 e 385-387)

Foto da Família Real Portuguesa (1858) Da esquerda para direita: Rainha D. Estefânia, Rei D. Pedro V

Nota(s): Princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, e rainha de Portugal, mulher do rei D. Pedro V. O seu nome completo era D. Estefânia Josefina Frederica Guilhermina Antónia. Nasceu em Sigmaringen a 15 de Julho de 1837, e faleceu em Lisboa a 17 de Julho de 1859.


Amédée Lemaire de Ternante nasceu em França, em Chatillon-sur-Seine, provavelmente em 1821 e faleceu em data posterior a 1866. Conhecido sobretudo como pintor, da escola francesa, os seus quadros encontram-se em muitos museus de França e no Museu do Vaticano. Em 1858, acompanhou a princesa D. Estefânia a Lisboa, tendo anotado com precisão a data a que aportou ao Terreiro do Paço: 18 de Maio, cerca do meio-dia. Durante a sua estadia em Lisboa, fez um extenso levantamento fotográfico da cidade, que imprimiu em provas de papel salgado e albumina.

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