Saturday, 31 October 2015

Praça Luís de Camões

 «Mas era facil encontral-o [Ega] pelo Chiado e pelo Loreto, a rondar e a farejar - ou então no fundo de tipoias de praça, batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura.»         (in Eça de Queiroz, Os Maias, 1888)
«Esta moderna praça está situada no fim da rua do Chiado; no centro e fechada por uma gradaria, está em construcção um monomento erigido á memoria do principe dos poetas portuguezes, executado pelo esculptor Victor Bastos. Constará d'uma estatua ingente de Luiz de Camões, avultando no seu pedestal, esculpidos em marmore, os bustos dos mais notaveis poetas e prosadores já fallecidos.»
(in Novo Guia do viajante em Lisboa e seus arredores, 1863, F. M. Bordalo)
 
Praça Luís de Camões [c. 1895]
(Topónimo atribuído por Edital do Governo Civil de Lisboa, de 12 de Outubro de 1860)
Francesco Rocchini, in AML
 
O Monumento, custeado por subscrição pública, foi adjudicado ao escultor Victor Bastos pelo valor de 38.000$00 réis. Inaugurada a 9 de Outubro de 1867, foi a primeira estátua pública dedicada a um escritor. O pedestal da estátua, em pedra, mede 7,48 m, sustentando a estátua figurativa de Camões, em bronze, com a altura de 4 m. É rodeada por oito estátuas com 2,40 em pedra lioz, representando: Fernão Lopes, Fernão Lopes de Castanheda, Francisco Sá de Menezes, Gomes Eanes de Azurara, Jerónimo Côrte-Real, João de Barros, Pedro Nunes e Vasco Mouzinho de Quevedo.

Praça Luís de Camões [19--]
(Topónimo atribuído por Edital do Governo Civil de Lisboa, de 12 de Outubro de 1860)
Paulo Guedes, in AML
 

Rua Luciano Cordeiro

Este arruamento homenageia Luciano Baptista Cordeiro (1844-1900), jornalista e político que foi director-geral da Instrução Pública e deputado, tendo-se notabilizado pela defesa dos direitos de Portugal em África. Em 1875 fundou a Sociedade de Geografia e também, em 1872, com seu irmão Francisco, criou a Companhia de Carris de Ferro de Lisboa. implantando um sistema de transporte na cidade de Lisboa, denominado Viação Carril Vicinal e Urbana a Força Animal, vulgo «americanos».

Rua Luciano Cordeiro [c. 1950]
Judah Benoliel, in AML


Friday, 30 October 2015

Palácio Burnay

 Em meados do século XVIII, o caminho que ligava a Calçada de Santo Amaro e a Calçada da Ajuda, paralelo ao rio, recebe o nome de Junqueira. Recuperava-se assim uma denominação que remonta ao reinado de D. Dinis, quando esta zona dos juncais é legada a D. Urraca Pais, abadessa do mosteiro de Odivelas.

Palácio Burnay, fachada Sul [c. 1870]
António Novaes, in AML

Consta que, a partir de 1701, um descendente da família dos Saldanha, presidente do Senado da Câmara de Lisboa decide aflorar os terrenos, iniciando-se assim um processo de urbanização que, pela localização privilegiada seduz algumas famílias fidalgas que iniciam, na Rua da Junqueira, a construção dos seus palácios de veraneio. Após o terramoto de 1755, a rua afasta-se das águas plácidas da foz do Tejo devido aos aterros que vão permitindo a construção a sul.

Chegada da palmeira ao Palácio do Conde Burnay [c. 1890]
Francesco Rocchini, in AML

« Grandes factos históricos, de exteriorização militar, se desenrolaram na Junqueira no século XVIII; festas, cavalhadas. justas, e até uma célebre tourada que durou três dias (29 a 31 de Março de 1738), quando fêz vinte anos Mariana Vitória, já espôsa do principe herdeiro, futuro Rei D. José. Reinava D. João V; a tourada foi organizada pelo Duque do Cadaval, D. Jaime de Melo, hhavendo-se construido, de propósito, uma deslumbrante praça, já de arena circular.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 50)

Palácio Burnay, Garden-party [1907]
Fotógrafo não identificado, in AML

Mandado edificar no séc. XVIII por D. César de Meneses, principal da Sé de Lisboa, sendo por isso também conhecido por Palácio dos Patriarcas. Foi bastante alterado no séc. XIX, antes de ser adquirido pelo banqueiro Henrique Burnay que o mandou decorar com sumptuosidade por alguns dos melhores artistas da época, como Ordoñes, Rodrigues Pita e Malhoa.

Palácio Burnay, Garden-party [1907]
Fotógrafo não identificado, in AML

Destacam-se as estufas, ao gosto fim de século que, simetricamente, integram o corpo do edifício e, no interior, o zimbório que envolve a escadaria, decorada em tromp l'oeil. A classificação como Imóvel de Interesse Público inclui o Palácio, anexos e jardim. Encontra-se ocupado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

Palácio Burnay, Garden-party [1907]
Fotógrafo não identificado, in AML

Thursday, 29 October 2015

Paraíso de Lisboa

Inaugurado a 12 de Julho de 1907 — no antigo Parque Folgosa, o famoso «Paraíso de Lisboa», era um parque de diversões, ornado de pequenas muralhas, situado na Rua da Palma paredes meias com o «Real Colyseu de Lisboa».

Paraíso de Lisboa, Rua da Palma, 273 [ant. 1920]
Alberto Carlos Lima, in AML

O recinto incluía um teatro, ringue de patinagem, carrossel, labirinto de espelhos, barracas de tiro, de comidas e bebidas — divertimentos fáceis, ao ar livre — ligeiros, género Folies Bergères, jogos, cafés, etc..                  

Paraíso de Lisboa, Rua da Palma, 273 [ant. 1920]
Alberto Carlos Lima, in AML

Possuía um palco arte-nova instalado sobre um pequeno lago, e plateia ao ar livre. Não teve vida desafogada, acabando por encerrar no fim da década de 1910 sucumbindo à urbanização do lado poente da Rua da Palma.

Palco arte-nova do Paraíso de Lisboa [ant. 1920]
Alberto Carlos Lima, in AML

Wednesday, 28 October 2015

Real Colyseu de Lisboa

Aqui onde está hoje o edifício da «Garage Liz» — recorda-nos Norberto de Araújo — assentou o Real Coliseu de Lisboa, construido em 1887, em terrenos que pertenciam à Condessa de Geraz de Lima e depois ao seu viúvo Conde da Folgosa.


No princípio da [Rua da Palma] — lê-se no Guia de Portugal —, fazendo esquina para a Calçada do Desterro, [ficava] o edifício que foi do Real Colyseu de Lisboa, teatro-circo inaugurado em 1887 (...) O Real Colyseu, cuja sala podia comportar uns 5.000 espectadores, sendo o risco do engenheiro Ganhado, funcionou até à abertura do Coliseu dos Recreios, tendo sido transformado depois em animatógrafo.

A cúpula do Real Coliseu de Lisboa (1896-1929), em baixo, ao centro [entre 1908 e 1929]
Rua da Palma
José Artur Leitão Bárcia, in AML

Na Rua da Palma — paredes meias com o Real Colyseu — ficava ainda o Paraíso de Lisboa (ao fundo), inaugurado em 1907, também com teatro, carrossel, barracas de tiro, de comidas e bebidas. Foi uma espécie de antecessor da Feira Popular. Foi neste local que se realizou a primeira projecção de Animatógrafo em Portugal no dia 18 de Junho de 1896, apenas meio ano depois da estreia mundial em Paris.

Real Colyseu de Lisboa [Início séc. XX]
Rua da Palma com a Calçada do Desterro
Fotógrafo não identificado, in AML

O sucesso foi tão grande que viria a estabelecer-se no recinto aquele que depois foi baptizado como Cinema Colossal, e que funcionava com a tela de projecção no palco principal do Coliseu. Com o aparecimento de novas salas mais bem equipadas e com a construção do novo Coliseu dos Recreios, o Real Coliseu foi perdendo encanto e acabaria por encerrar no final dos anos 20 (1929), sendo posteriormente demolido. No seu local veio a instalar-se a referida garagem Auto-Lys ou Garage Liz.

Fachada do Real Colyseu [ant. 1929]
Rua da Palma
Fotografia: Livro "Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa"

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 68
Guia de Portugal: Generalidades. Lisboa e arredores, vol. I, p. 268, B.N.L, 1924

Tuesday, 27 October 2015

Palácio Foz: Pastelaria Foz, Restaurante «Abadia» e o «Clube dos Makavenkos»

O Palácio Foz, ou mais correctamente Palácio Castelo Melhor, foi concebido como projecto no século XVIII, tendo-se arrastado a sua construção até meados do século passado. Embora a fachada e estrutura geral possam ser consideradas características da arquitectura setecentista já liberta da influência barroca para se subordinar ao "gosto novo" italiano, o interior, refundido posteriormente, tem decoração de carácter "revivalista", muito em voga na segunda metade do século XIX. A identificação dos seus criadores confere, desde logo, considerável prestígio à obra. Deve-se o traçado a Rosendo Carvalheira, um dos mais consagrados arquitectos do seu tempo. 

Praça dos Restauradores [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in AML
(clicar para ampliar)

Praça dos Restauradores [1918]
Pastelaria Foz

 Joshua Benoliel, in AML
(clicar para ampliar)

Em Abril de 1917 foi inaugurado no velho edifício do Palácio Castelo Melhor, então propriedade dos condes de Sucena, um estabelecimento denominado "Pastelaria Foz", propriedade da firma Leitão & Cª.
O salão de Pastelaria, que já não existe, era uma pastiche concebida ao estilo de Luís XV e rocaille, por Viriato da Silva, e com a colaboração do escultor José Neto.
Ocupava diversas dependências do andar térreo e também uma cave secreta, nela está guardada uma jóia da cidade de Lisboa, o "Restaurante Abadia", lugar de reuniões da maçonaria- "Os Makavenkos".

Clube dos Makavenkos
Clube dos Makavenkos
Reinando ainda D. Luís I, o Clube dos Makavenkos foi fundado em 1884 por 13 sócios (rapidamente subindo de número chegando ter mais de 100 filiados) cuja principal ocupação aparente não passaria da comensal e boémia: o prazer da boa mesa, da “alegre rapioqueira” e a compensação dos “pecados” com actos de benemerência. Todos eram iguais perante a sopa, o copo e as makavenkas, e nenhum podia namoriscar com a mesma por mais de 15 dias. 
Findo esse período, ela seria declarada “praça aberta” e ele, se insistisse, levava o título de “lamechas” e a intimidação para pôr fim ao relacionamento em 24 horas. Nisto ficou famoso o makavenko Santos Joya, que exercia “extraordinário poder magnético sobre as mulheres, convidando-as às dezenas para os jantares”, e por essa razão já merecera “as honras dum festim à romana e respectiva coroa de louros, para se lhe exaltar as suas qualidades de macho”. Quando ele não aparecia, faltavam “damas e melhores exemplares da raça luso-espanhola” que “abrilhantassem a encantadora festa, porque as flores animadas são sempre bem cabidas e apreciadas”. 

Restaurante Abadia [s.d.]
«CLAUSTRUM» com uma "CELA", pequenas dependências suspensas de carácter reservado.

Estúdio Horácio Novais,  in Biblioteca de Arte da F.C.G.
(clicar para ampliar)

Foi o próprio Francisco Grandella quem fundou o clube, e o seu presidente honorário, depois de 1898, foi Ferreira do Amaral, e após a sua morte o cargo foi ocupado pelo dr. Azevedo Neves. Em Lisboa, “quando começaram (os makavenkos) iniciaram as suas reuniões em Santa Isabel, no palacete do Conde das Antas, no quintal onde se achavam vários animais, denominado Parque Zoológico, (…) que às sextas-feiras jantavam no dito parque”. 

Restaurante Abadia [s.d.]
"CLAUSTRUM" e o velho poço que leva aos subterrâneos de Lisboa

Estúdio Horácio Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.
(clicar para ampliar)

Todavia, os makavenkos não deixaram de saltitar por outras casas e restaurantes, até que Francisco Grandella comprou o terreno do velho Teatro Condes e mandou reconstruir este em 1888, reservando a cave para implantar a sede makavenkal (que a partir de 1916 seria partilhada com a Abadia, do outro lado da avenida). Apesar de levemente ligada à dramaturgia, não obstante a cave do Condes vulgarmente enchia-se de autores, actores e actrizes para jantares, festas e banquetes, tendo passado por ele uma boa parte da alta sociedade e da intelectualidade masculina da Lisboa de então, sobretudo nobres com títulos de fancaria comprados a outros titulares arruinados.

Restaurante Abadia [s.d.]
Nas cachorradas do “REFECTORIUM” estão representados 24 pequenos bustos de makavenkos maçons de ambos os sexos, alguns com a jóia do seu grau sobre o peito, postados nos frisos das paredes norte e sul.

Estúdio Horácio Novais,  in Biblioteca de Arte da F.C.G.
(clicar para ampliar)

Imaginemos o secretismo de entrar neste local de culto original de 1917, quem entra dá de caras com um velho poço onde ainda corre agua, de uma das imensas nascentes lisboetas, este fica localizado num espaço que copia um antigo claustro conventual, de influência manuelina. A restante decoração é feita com dragões, cachos de uvas, pombas, elefantes e muitos outros símbolos com segundos sentidos, entre os quais os bustos de 24 maçons que utilizavam este espaço.a cave, onde ficou instalado um restaurante anexo, a "Abadia". Trata-se de um exemplar demonstrativo da interpretação que os arquitectos e decoradores portugueses então faziam do gosto "belle époque", em que o "revivalismo" de sabor medieval europeu, aparece metamorfoseado na atracção por um manuelino sobrecarregado de formas e repassado de elementos simbolistas.A Abadia está dividida em três partes - o CLAUSTRUM (com a sua "taberna vínica", conforme se pode ler num dístico em ferro forjado), o REFECTORIUM (inspirado nos claustros do românico cisterciense peninsular) e as "CELAS", pequenas dependências de carácter reservado suspensas sobre o "Claustrum".

Restaurante Abadia [s.d.]
Escultura em corpo inteiro de um arquitecto medieval...
Estúdio Horácio Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.
(clicar para ampliar)
Restaurante Abadia [s.d.]
Esquinando ou em quina, no sentido nordeste...

Estúdio Horácio Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.
(clicar para ampliar)

Monday, 26 October 2015

Hospital (Sanatório) de Sant'Ana

O antigo Sanatório de Sant'Ana e actual Hospital Ortopédico, pertença da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, conserva a sua imponência arquitectónica, destacando-se pela longa fachada, paralela à avenida Marginal. Edificado no início do século XX (1902-1914), este edifício deixa adivinhar o gosto ecléctico que vigorava na arquitectura portuguesa de então, mas aliado, aqui, a uma profunda capacidade funcional, bem expressa na articulação de espaços, serviços e equipamentos.

Hospital de Sant'Ana [Início séc. XX]
Avenida Marginal; Avenida Vasco da Gama, Parede, Cascais

Fotógrafo não identificado, in AML

A história da construção do hospital foi, inicialmente, algo conturbada. Deve-se a sua iniciativa ao casal D. Amélia e Frederico Biester, que contaram desde logo com o apoio do reputado médico Dr. Sousa Martins. A questão dos sanatórios encontrava-se na ordem do dia, e o local escolhido preenchia os requisitos necessários para tais instituições. O primeiro projecto para o sanatório foi concebido por José António Gaspar, arquitecto professor na Academia de Belas Artes. Todavia, o falecimento dos fundadores levaram-no a abandonar a obra, que seria retomada pela herdeira de D. Amélia, Claudina de Freitas Chamiço. O arquitecto então chamado foi Rosendo Carvalheira, ao qual estavam ligados outros profissionais que também aqui intervieram. Eram eles Norte Júnior, António do Couto, Marques da Silva e Álvaro Machado. (...)

Aspecto das obras do Sanatório de Sant’Ana
na Parede, em Agosto de 1902, um ano depois da cerimónia de lançamento da primeira pedra


Outro aspecto das obras do Sanatório de
Sant’Ana, na Parede, em Agosto de 1902

De acordo com esta leitura, o novo arquitecto teria sido responsável pela introdução, nos planos anteriores, de uma maior e mais eficaz funcionalidade, que respeitava mesmo "as prescrições (...) para as construções hospitalares usadas desde 1901 em França e aconselhadas em Portugal desde 1902". Por outro lado, o moderno sistema de ventilação empregue foi elogiado nas revistas de arquitectura da época, destacando-se ainda a lavandaria anexa, que se liga ao edifício através de carris.
Lançada a primeira pedra a 7 de Agosto de 1901, o primeiro bloco foi inaugurado logo em 31 de Julho de 1904, muito embora o sanatório apenas ficasse concluído, na sua totalidade, em 1912. Classificado como MIP - Monumento de Interesse Público. [in DGPC]

Capela do Sanatório de Sant’Ana [meados do século XX

Sunday, 25 October 2015

Leitaria «A Universal»

A origem do topónimo «Travessa do Borralho» segundo o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, «(...) recorda o apelido do escrivão da Mesa Grande da Alfândega, António de Moura Borralho, que nos meados do século XVIII possuía as casas que da rua dos Anjos vemos hoje esquinar para a Rua de Francisco Lázaro (lado oriental), antiga Travessa do Borralho». (cm-lisboa.pt)

Rua dos Anjos com a Travessa do Borralho [1911]
Leitaria «A Universal, Leite Quente e Frio»
Frontaria ostentando elementos decorativos Arte Nova
Joshua Benoliel,
in AML

Saturday, 24 October 2015

Palácio Pombeiro

Fundação: Princípio do séc. XVIII
Reedificação: Final do séc. XVIII
Restauros e transformações: Séculos. XIX e XX.

« O Palácio Pombeiro, no seu núcleo primitivo, casa nobre dos Castelo Branco, senhores do morgado de Sacavém, e senhores de Pombeiro e de Belas, remonta ao começo do século XVIII, e embora não se saiba, ao certo, quem o fez erguer, pode admitir-se que tenha sido o 3.º Conde de Pombeiro, D. Pedro de Castelo Branco da Cunha Correia e Meneses, senhor de Belas e do morgado de Castelo Branco, em Santa Iria (Sacavém) , fidalgo nascido em 1679, falecido em 1733. (...)

Largo do Conde de Pombeiro [c. 1940]
Calçada do Conde de Pombeiro

Eduardo Portugal, in AML

O Palácio Pombeiro foi reedificado quase integralmente pelo 6.° Conde, como ficou dito, no estilo da transição do século XVIII para o XIX, sem relevo arquitectónico exterior, e conservou-se na posse da família até ao 3.° Marquês de Belas e 9.º Conde de Pombeiro D. António de Castelo Branco, que sucedeu no marquesado, em 1834. a seu avô, 2.° Marquês, e no condado, em 1867, a seu pai, 8.° Conde; foi este D. António, nascido em 1842, e falecido em 1891, o celebrado cavaleiro tauromáquico amador, fidalgo primoroso mas indiferente a bens terrenos.

Calçada do Conde de Pombeiro [c. 1961]
Largo do Conde de Pombeiro
Augusto de Jesus Fernandes, in AML

Cerca de 1870 o palacio foi alienado pelo seu proprietário — o último Pombeiro da Bemposta — ao famoso Duque de Saldanha, entäo ja bastante idoso, que no palacio chegou a residir, assim como pessoas de sua familia,  entre as quais uma sobrinha do 2° Conde de Forraba e de sua mulher D. Eugenia de Saldanha Oliveira e Daun, esta filha do Duque de Saldanha. O Duque nao se demorou na posse do palacio, que vendeu em 1875 ou 1876 ao 1.° Visconde de Azarujinha, mais tarde Conde do mesmo titulo, Antonio Augusto Días Freitas, rico industrial, que ascendeu a par do Reino, falecido em 1904. Foi a este titular que o governo de Italia adquiriu logo no começo do sécula o Palacio Pombeiro, para nele se instalar a Legaçao de Italia, até então ocupando o Palacio dos Viscondes de Correia Godinho no Campo de Santa Clara, e que sofrera um grande incêndio.»  
(ARAÚJO. Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, pp. 179-180, CML, 1950)

Largo do Conde de Pombeiro [c. 1952]
Calçada do Conde de Pombeiro
Pátio nobre onde se destacam parte dos painéis de azulejos, nos quais figura o Marquês de Belas, reedificador do palácio

Salvador de Almeida Fernandes, in AML

Ateneu Comercial de Lisboa

 «A fachada do antigo Palácio Povolide não é famosa, mas distingue-se da trivialidade aqui na velha artéria de santo antão. Teve catorze sacadas, que, depois das transformações, (...) foram reduzidas às nove janelas que ali vês
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 98)

O Ateneu Comercial de Lisboa foi fundado por um grupo de empregados do comércio, em 10 de Junho de 1880, com as seguintes finalidades:
- A organização de uma biblioteca.
- A fundação de aulas diurnas de instrução primária para os filhos dos sócios e crianças pobres.
- Aulas nocturnas de gramáticas portuguesa, francesa e inglesa e de escrituração comercial para os sócios.
- Realização de conferências científicas.

Ateneu Comercial de Lisboa [Início séc. XX]
Rua das Portas de Santo Antão, 110

Paulo Guedes in AML

A partir de Julho de 1895, instala-se num palácio pertencente ao conde de Burnay, o antigo Palácio dos Condes de Povolide na Rua das Portas de Santo Antão, 110.
Este palácio foi inicialmente pertença do 8º Conde de Povolide, Tristão da Cunha de Ataíde e Melo e a primeira referência que se conhece das actuais instalações, remonta a finais do século XVI, como residência daquele nobre, na então Rua da Anunciada.

Ateneu Comercial de Lisboa, Rua das Portas de Santo Antão [1927]
«Palace Stand», concessionário da marca de automóveis Chevrolet

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

No início do século XX foi adquirido por uma Sociedade Hoteleira, da qual entre outros, fazia parte Anastácio Fernandes, comerciante local, para ser destinado a hotel, mas acabou por ser definitivamente adquirido pelo Ateneu em 9 de Outubro de 1926.
O piso térreo albergou durante alguns anos o «Palace Stand» (na foto acima), concessionário da marca de automóveis Chevrolet.
A partir de 1956 instalou-se no local a Cervejaria Solmar.

Ateneu Comercial de Lisboa [1960]
Rua das Portas de Santo Antão, 110

Arnaldo Madureira , in AML

Friday, 23 October 2015

Cinema Odeon

O Cinema Odeon foi projectado em 1923 e edificado pelo construtor Guilherme A. Soares, tendo a sua inauguração ocorrido em 21 de Setembro de 1927, com A Viúva Alegre, de Stroheim.
Integrado no Conjunto da Avenida da Liberdade e Zona Envolvente, que está em vias de classificação, este edifício de estilo clássico foi objecto de modernização em 1931, com a introdução de galerias metálicas salientes da fachada, muito expressivas e decorativas, com os seus rendilhados de vidros coloridos. 

Cinema Odeon  [1928]
Rua dos Condes, 2-20; Rua das Portas de Santo Antão, 129-133; Pátio do Tronco, 1-1A
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O estilo clássico do edifício ainda se reconhece no piso superior, em particular na esquina da Rua dos Condes com a Rua das Portas de Santo Antão. Se na sua fachada merece especial destaque o janelão que ocupa dois andares, sobre balcão semi-circular, assente em métopas que enquadram o nome Odeon, o seu interior notabiliza-se pela grande cobertura em madeira escura, pelo palco de frontão Art Déco, pelos sumptuosos e volumosos camarotes e pelo lustre central, que irradia néons. (cm-lisboa.pt)

Cinema Odeon  [1960]
Rua dos Condes, 2-20; Rua das Portas de Santo Antão, 129-133; Pátio do Tronco, 1-1A
Arnaldo Madureira, in AML

Cinema Olympia

Inaugurado oficialmente a 22 de Abril de 1911 sito na Rua dos Condes, o Olympia foi mandado construir por Leopoldo O' Donnell, filho de irlandeses que se fixaram em Portugal. Nascera em Lisboa, a 4 de Abril de 1870, fora chefe de repartição da Real Companhia dos Caminhos-de-Ferro Portugueses, era um homem culto, que mantinha uma forte amizade com Sabino Correia, empresário do Chiado Terrasse, uma das grandes salas de Lisboa, situada na Rua António Maria Cardoso.

Cinema Olympia, Rua dos Condes  [c. 1910]
 Joshua Benoliel, in AML

Na imprensa da época podia ler-se uma notícia referindo a abertura de uma nova sala de espectáculos em Lisboa, «composta de salões para concertos, salões para exibições animatográficas, gabinete de leitura, restaurante, etc.», ficando «esta casa de espectáculos como a primeira da capital.»
De acordo com M. Felix Ribeiro: «A importância que o Olympia viria a assumir no quadro do espectáculo cinematográfico da Lisboa de então é das mais significativas, facto digno de destaque, por bem merecido. Sobretudo essa relevância torna-se francamente notória a partir de 1916 pelo dinamismo imprimido à sua exploração através das mais variadas e interessantes iniciativas.»

Cinema Olympia, Rua dos Condes  [1960]
Arnaldo Madureura in AML

Por exemplo, a criação de matinées infantis, «um verdadeiro oásis para os espectadores mais pequenos com os quais, antes, ninguém contara» e com «programas apropriados tanto de écran como musical», como acentuava a propósito um prospecto. Ou então os sorteios de brindes entre o seu público. Com a compra do bilhete, o espectador recebia uma senha que lhe dava direito a participar num sorteio mensal, em que os brindes mais diversos eram sorteados. Em Junho de 1917, um burro era o «brinde» a sortear, um burrico de carne e osso que se «passeou por Lisboa, reclamando o acontecimento!»
Depois de 1974, com a chegada dos filmes «porno» a Portugal, depois de abolida a censura, o Olympia especializou-se neste área, onde se mantém até hoje.
(Lauro António, in teatro-politeama; Manuel Félix Ribeiro,: Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa, edição da Cinemateca, 1978)

O actual único proprietário do cinema é o encenador Filipe La Féria, que, após ter adquirido, em 2008, a sociedade que explorava o Olympia, tem tentado transformar o espaço, "em completa ruína", em teatro.

Thursday, 22 October 2015

Palácio Ribeira Grande

Edificado numa antiga zona de ocupação de cariz aristocrático caracterizada pela existência de um número significativo de casas nobres de características eminentemente barrocas. Numa situação sobranceira ao rio, materializa-se sobre um terreno rectangular de acentuada direcção Nordeste/Sudoeste paralelo ao eixo que define a Rua da Junqueira, contribuindo de forma significativa para a composição e definição do plano de rua. Integrada num conjunto urbano consolidado, é limitada a Sul pela rua da Junqueira e a Oeste pela Travessa Conde Ribeiro e encontra-se adossado ao Palácio Burnay.

Palácio Ribeira Grande [1935]
Rua da Junqueira, 62-78; Travessa Conde da Ribeira
Eduardo Portugal, in AML

«O Palácio Ribeira (Marqueses e Condes da Ribeira Grande), na Rua da Junqueira, é uma reconstrução do século XVIII, de semblante muito decorativo, e vale hoje apenas pelo seu exterior.
Quando em 1701 João de Saldanha e Albuquerque, 6.º administrador do morgado dos Saldanhas, obteve autorização de D. Pedro II para aforar terrenos da grande propriedade rústica dos seus maiores, que ia de Santo Amaro quase até até Belém, um dos favorecidos foi o 2.º Conde da Ribeira Grande, que em 1724, por já haver falecido seu pai, o 3.° Conde, herdara os bens e títulos do avô, o 2.º Conde, D. José Rodrigo da Câmara, grande senhor nos Açores, donatário e governador de S. Miguel, e que casara e que casara com a princesa Constança de Rohan, filha do Duque de Fontenay.

Palácio Ribeira Grande [1935]
Rua da Junqueira, 62-78; Travessa Conde da Ribeira
Eduardo Portugal, in AML

Não fez grandes obras nas casas da Junqueira o 4.º Conde; foi o 8." Conde e 1.º Marquês da Ribeira Grande, D. Francisco de Sales Gonçalves Zarco da Câmara, quem, no segundo quartel do século passado, reedificou completamente  as casas que dos Nizas haviam sido, e aformoseando o palácio exteriormente, no aspecto que hoje se mantém.
O interior deste Palácio não possue hoje cousa alguma de representativo, pois mesmo no tempo da sua aura nobre no século XIX era trivial nas decorações arquitectónicas, posto que valorizado por recheio artístico.»
(ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, 1950, p.53)

Pátio do Tronco

Com entrada pela Rua das Portas de Santo Antão existe o Pátio do Tronco. Neste Pátio existiu no século XVI a Cadeia Municipal do Tronco.
Diz-nos a história que, com 28 anos de idade, em 15 de Junho de 1552 dia do Corpo de Deus, Luís de Camões passeava entre o Rossio e as Portas de Santo Antão. Tinha regressado um ano antes de Ceuta, onde num combate com os Mouros perdera uma vista. Em dado momento repara numa briga e reconhece que nela estavam dois amigos seus; não hesitou em envolver-se na desordem, ferindo com um golpe de espada na nuca um criado do Paço, de nome Gonçalo Borges.

Pátio do Tronco [c. 1940]
Traseiras do cinema Odeon; Rua das Portas de Santo Antão

Eduardo Portugal, in AML

Camões foi preso e levado para a Cadeia do Tronco de Lisboa, onde permanece largos meses (apesar de perdoado pelo ofendido) foi libertado em 24 de Março de 1553 por carta régia do dia 7 desse mês. A carta dizia «Mancebo pobre que me vai este ano servir à Índia».
Pela passagem do nosso poeta por esta prisão, o túnel que dá acesso ao Pátio do Tronco está assinalada por um painel de azulejos de Leonel Moura, inaugurado em 1992.

Túnel de acesso ao Pátio do Tronco [post. 1992]
Rua das Portas de Santo Antão

Wednesday, 21 October 2015

Jardim do Campo Grande - Chalet das Cannas

«O «chalet das Cannas» constituía uma das referências mais importantes da paisagem romântica do jardim do Campo Grande em finais do século XIX. Localizava-se no lado ocidental do Passeio, junto ao Palácio Pimenta. Autêntica obra de arte romântica, decorado com bambus e cortiça, era motivo de espanto e admiração de todos os visitantes.


Esta obra, da autoria de António Cordeiro Feio, que foi administrador do parque do Campo Grande, era considerada na época um «modelo de bom gosto e perfeição.» (in Manuel Rui dos Santos, O Campo Grande)


«(…) os jardins [do Campo Grande] com o seu microscópico museu, mais conhecido pelo Chalet das Cannas (…).
«Tudo ali é perfeito e digno da mais detida inspecção.
«Desde as portas bordadas a lasulite, que deixam penetrar nesta mansão rendilhada, habitada sem dúvida por hariolos e fadas, os indecisos vapores violáceos e argênteos das correntes vivas que alimentam vários aquários, onde peixes exóticos e indígenas se misturam e ostentam formas esquisitas e fantásticas, até às tépidas transparências das janelas ogivais, com enfeites de plantas campestres, coando apenas a luz tão intensa do exterior. (…)


Chalet das Cannas [1939]
Eduardo Portugal, in AML

Tudo isto realçado ainda pela riqueza duma ornamentação que não obedece a modelos, que não segue escolas, nem copia estilos, formada de delgados juncos, vimes e variadas espécies de bambus e cannas vulgares.»
(in O Tiro Civil, Lisboa, 1 Abr.il de 1903, pp.3-4)


Tuesday, 20 October 2015

As 15 voltas ao Parque Eduardo VII

As 15 voltas ao Parque Eduardo VII encerravam a III Volta a Portugal em automóvel, a 16 de Julho de 1934. A prova era organizada pelo jornal «O Volante», patrocinada pelo Automóvel Club de Portugal.
 
Parque Eduardo VII [1934]
Ao fundo o Pavilhão dos Desportos, depois Pavilhão Carlos Lopes
Fotografia in DN
 
 Este pavilhão de feira foi construído em 1931 e inaugurado em 1932, no topo da encosta Este do Parque Eduardo VII, por ocasião da Exposição Industrial Portuguesa que aí teve lugar, segundo um projecto que os arquitectos Carlos e Guilherme Rebelo de Andrade haviam elaborado para a Exposição Internacional do Rio de Janeiro em 1922. Posteriormente foi adaptado para instalações e actividades desportivas tomando a designação de Pavilhão dos Desportos, nome que viria a ser alterado para Pavilhão Carlos Lopes, no ano de 1984, em homenagem ao atleta que, pela primeira vez na história do desporto português, conquistou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.

Casa Jerónimo Martins

No longínquo ano de 1792, um jovem galego, de seu nome Jerónimo Martins, chega a Lisboa em busca de melhores dias, abre a sua modesta loja no Chiado.

Casa Jerónimo Martins & Filho, Rua Garrett  [c. 1910]
Joshua Benoliel, in AML

Inicialmente situada na actual Rua Ivens, a «tenda», como na época lhe chamavam, muda para a Rua Garrett, em 1797, edifício que se mantém até ao grande incêndio de 1988 que viria a destruir boa parte da tradicional imagem do Chiado. Jerónimo vendia de tudo um pouco: enchidos, sacas de trigo e de milho, molhos de velas de sebo, boticões de vinho, vassouras, etc.

Casa Jerónimo Martins & Filho, Rua Garrett  [c. 1910]
Joshua Benoliel, in AML

A realeza também não dispensa os seus produtos e D. Fernando, o viúvo de D. Maria II e regente do Reino na menoridade de Pedro V, concede a Jerónimo Martins o alvará de fornecedor da Casa Real, porque "há por bem e lhe apraz". Jerónimo Martins não sobreviverá para receber esta honraria, que seria concedida a seu filho Domingos.

Casa Jerónimo Martins & Filho, Rua Garrett  [c. 1910]
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F..C.G.

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