Friday, 31 July 2015

Palácio Anadia

A Casa Anadia é que ainda está de pé, êsse palácio à esquina das Ruas das Amoreiras e de Silva Carvalho, com largo brasão armoriado dos Sás, no alto dafachada. [Araújo: 1939]


O núcleo original do Palácio Anadia remonta ao séc. XVII, correspondendo ao solar da Quinta de Recreio de São João dos Bem Casados. Objecto de ampliações, demolições e remodelações ao longo dos tempos (final do séc. XVII, séc. XIX e séc. XX), somente no 1º quartel do séc. XVIII, esta propriedade foi parar às mãos dos Senhores de Anadia, advindo daí o nome do Palácio. 
Classificado como Imóvel de Interesse Municipal, trata-se de um exemplar de arquitectura residencial barroca palaciana, de planta longitudinal, composto pela articulação de 3 corpos rectangulares, separados por pilastras de cantaria, demarcando-se o corpo central, mais estreito e destacado, no qual se rasga o portal nobre, de verga curva larga, com base de cantaria e guarda em ferro forjado, de finais de Setecentos. Este eixo central surge coroado por frontão triangular com pináculos nos acrotérios e a pedra de armas dos Sás-Anadias ao centro do tímpano. 

Palácio Anadia [ant. 1908]
Rua Silva Carvalho, 345-347
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.


























No interior merecem destaque: os silhares de azulejos e pinturas murais do núcleo seiscentista; o programa decorativo novecentista de estuques polícromos da Sala de Bilhar e da galeria do 1º piso; e a actual capela, construída em 1884, que integra alguns elementos da anterior capela de São João dos Bem Casados (demolida para corrigir o alinhamento da rua), nomeadamente a porta de acesso do exterior datada de 1689, o altar em talha e as guardas em madeira entalhada e polícroma, que protegem o coro e o altar, sendo já de finais do séc. XVIII o seu retábulo-mor. (cm-lisboa.pt)

Palácio Anadia [ant. 1908]
Rua Silva Carvalho, 345-347
Frontão triangular com pináculos nos acrotérios e a pedra de armas dos Sás-Anadias
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Rua da Regueira

O arrabalde de Alfama articulava-se entre dois pólos ligados pela Regueira: o do núcleo termal e das fontes públicas e a norte, o do bosque de Alfungera. Alfungera deriva provavelmente do árabe al-fujrâ que significa lugar por onde se escapa a água. Poderá ter derivado de uma pequena gruta que tenha existido no bosque, por onde brotaria a água que alimentava um pequeno rego de água: a regueira. Ainda hoje sob a Rua da Regueira murmura a água encanada por uma antiga conduta de pedra.

Rua da Regueira, esquina com os becos da Bicha e da Alfurja, [Início séc. XX]
José Artur Leitão Bárcia, in A.M.L..

Thursday, 30 July 2015

Chafariz da Rua das Amoreiras

Pouco consegui apurar sobre este chafariz nº. 13, junto à Mãe d'Água das Amoreiras, excepto o facto de já existir em 1892 e ter sido demolido por volta de 1938. Ao que tudo indica, parece ter sido «primo» do antigo chafariz existente no jardim da Praça das Amoreiras, construído em 1794(?) por autor desconhecido. Segundo relatos da época «Belo era o chafariz das Amoreiras e mais vizinho do reservatório do Aqueduto». Além disso, e de acordo com o «Diário do Governo de Abril de 1822», tinha «4 Bicas, 3 Companhias, 3 Capatazes, e 13 dispensados, que faz 91 [aguadeíros].». 

Rua das Amoreiras, [post. 1870]
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.


Planta de alinhamento da Rua das Amoreiras, 1892
Garcia, Frederico Ressano 1847-1911, engenheiro, in A.M.L

Um dado é certo: ambos chafarizes estavam erguidos em 1911, conforme se pode constatar na Planta Topográfica de Lisboa, da autoria de Júlio António Vieira da Silva Pinto e de Alberto de Sá Correia.

Levantamento da Planta de Lisboa: 1904-1911, [fragmento]
Júlio António Vieira da Silva Pinto e de Alberto de Sá Correia,  
in A.M.L.

Wednesday, 29 July 2015

Casa das Bengalas

O plano de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, aprovado pelo Marquês de Pombal, apresentava uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortadas em ângulos rectos, com importância diferente que é traduzida pela largura das suas ruas e passeios.
Em 5 de Novembro de 1760 foi inaugurada em Lisboa a pratica de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste diploma D. José estabelece a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, bem como regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio. 
 
Rua da Prata, 87~91 [c. 1910]
Joalharia e ourivesaria Casa das Bengalas de António Costa
Joshua Benoliel, in A.M.L.
  
A Rua da Prata, uma das artérias, recebeu, por este diploma, a denominação de Rua Bela da Rainha. Ficou também estabelecido que nela deviam ser arruados os ourives da prata e nas lojas que sobejarem os livreiros que antes viviam na sua vizinhança.
A homenagem efectuada a um membro da realeza levou a que no período da Primeira República, designadamente, em 5 de Novembro de 1910, este topónimo fosse alterado para Rua da Prata, numa manifestação clara de republicanismo em contraposição com a monarquia. (cm-lisboa.pt)

Rua da Prata, 87~91 [c. 1910]
Joalharia e ourivesaria Casa das Bengalas de António Costa
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.

Chafariz da Fonte Santa

Localizado na Rua Possidónio da Silva, aos Prazeres, este chafariz é o único em Lisboa com a designação de Fonte Santa, nome que adquiriu em virtude das propriedades medicinais da sua água, que, segundo parece, curava doenças do foro dermatológico e oftalmológico. No final do séc. XVI, esta fonte, com 2 bicas e 2 tanques, integrava a Quinta dos Prazeres, que foi enfermaria de pestíferos depois da epidemia de 1598. 

Rua Possidónio da Silva [c. 1951]
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Actualmente, possui apenas um tanque de recepção de águas com a respectiva bica, que surge encimada por um baixo-relevo em calcário com as armas da cidade. De fachada simples, destaca-se o seu remate invulgar "em quilha", à semelhança de um frontão de igreja em forma de arco abatido, coroado por uma cruz, cuja peanha evidencia o ano de 1735, data provável da reconstrução que lhe deu o aspecto actual. (fonte(s): cm-lisboa.pt; igespar.pt)

Rua Possidónio da Silva [s-d.]
Autor não identificado, in A.M.L.

Tuesday, 28 July 2015

Jardim Zoológico de Lisboa

Inaugurado em 1884, o Jardim Zoológico de Lisboa foi o primeiro parque com fauna e flora da Península Ibérica. Foram vários os seus fundadores - Dr. Pedro Van Der Laan, José Thomaz Sousa Martins e o Barão de Kessler - que contaram com o apoio de várias personalidades, o Rei D. Fernando II e o zoólogo José Vicente Barboza do Bocage.
As primeiras instalações situaram-se no Parque de José Maria Eugénio de Almeida, à Palhavã, que foi cedido gratuitamente pelos seus proprietários.

Estrada de Benfica, entrada [1905]
Paulo Guedes, in A.M.L.

A 28 de maio de 1905, foram inauguradas as novas e definitivas instalações na Quinta das Laranjeiras. No dia 12 de Março de 1913, o Jardim Zoológico foi declarado Instituição de Utilidade Pública.

Jardim Zoológico de Lisboa [195-]
O busto de bronze - que se vê ao centro da alameda - é de Manuel Emídio da Silva, (Benemérito Amigo do Jardim Zoológico) da autoria do escultor Anjos Teixeira, filho. Inaugurado em 1937.
António Passaporte, in A.M.L.

As inúmeras remessas de animais vindos de África e do Brasil contribuíram para que, ao longo dos anos, o Jardim Zoológico tivesse uma das colecções de animais mais vastas e diversificadas do mundo.
Destacaram-se, na realidade, alguns governadores das ex-províncias ultramarinas no contributo para o enriquecimento da colecção zoológica com exemplares de espécies exóticas, pouco conhecidas e muito atractivas.
Em 1952, a Câmara Municipal de Lisboa galardoou o Jardim Zoológico com a Medalha de Ouro da Cidade. (in zoo.pt)

Jardim Zoológico de Lisboa [1959]
Recinto dos elefantes
Arnaldo Madureira, in A.M.L.

Monday, 27 July 2015

Rua Nova do Carvalho

A Rua Nova do Carvalho, que liga a Travessa do Corpo Santo à Praça de São Paulo, na zona do Cais do Sodré, tal como a Travessa do Carvalho, evoca a família do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, responsável político pela reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755 e, sobretudo o seu irmão Paulo de Carvalho e Mendonça.

Rua Nova do Carvalho, [c. 1940]
[arco, lado nascente]
Eduardo Portugal, in A.M.L.

O plano urbanístico de Pombal resolveu a forte inclinação da vertente da Rua do Alecrim, prolongando-a numa espécie de ponte em dois grandes arcos sobre a Rua de São Paulo e a Rua Nova do Carvalho e, este projecto mereceu especial atenção do Marquês de Pombal (1699-1782) que encarregou o seu irmão Paulo de Carvalho e Mendonça (1702-1770), que foi Monsenhor da Patriarcal de Lisboa, Inquisidor-mor e Presidente do Senado da Câmara (1764), da administração das obras da Praça, a par de outras obras de primeira importância para a cidade, como os Paços do Concelho, o Depósito Público e o Cais da Ribeira.

Chafariz da Estrada das Garridas

A Estrada das Garridas — encravada entre a rua República Peruana e a Estrada de Benfica — ainda existe,  perdida no meio da densa floresta de betão que brotou da terra naquele antigo bairro de Lisboa. O chafariz localizar-se-ia aqui, a escassas centenas de metros da igreja de Nossa Senhora do Amparo.

Estrada das Garridas, [Início séc. XX]
Paulo Guedes, in A.M.L.


Sunday, 26 July 2015

Igreja de S. Jorge de Arroios

Esta igreja terá sido erguida entre 1820-1828, depois da anterior ter ficado destruída pelo sismo de 1 de Novembro de 1755. Foi demolida por volta de 1970. Eis como a descreve o mestre Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações em Lisboa», vol. IV, p. 84:
   "Na sua simplicidade, fachada banal com uma única porta e com três janelas envidaraçadas, tudo liso, apenas com um apontamento arquitectónico nas pilastras de ordem jónica - é esta a Igreja de S. Jorge de Arroios. Podemos fazer-lhe uma pequena visita.
   S. Jorge de Arroios é uma das mais pobres igrejas de Lisboa embora, cheia de claridade, esimpática. Possue uma única nave. Ostenta quatro capelas laterais: do lado esquerdo, a começar da entrada do templo, a primeira capela é de S. Miguel, N.ª S.ª do Carmo e N. S. do Perpétuo Socôrro, e a segunda (antiga do Santíssimo) é do Senhor dos Passos e de N.ª S.ª das Dôres; do lado direito as capelas são do Sagrado Coração de Maria e de Santa Terezinha, a primeira, e do Sagrado Coração de Jesus e Santa Cecília, a segunda. Nos topos há os altares pequenos de Santo António e de N.ª S.ª de Fátima.
A capela-mór guarda hoje o Santíssimo no centro do altar, e sôbre ela a imagem, tão graciosa, embora sem valor artístico, de S. Jorge; aos lados N.ª S.ª da Conceição e S. José.
   O grande interêsse da Igreja é, porém, o Cruzeiro — considerado monumento nacional."

Largo de Arroios [Início séc. XX]
José Artur Leitão Bárcia,  in A.M.L.

O padrão-cruzeiro é uma homenagem de D. João III e do senado da Câmara à memória da Rainha Santa Isabel, medianeira das pazes entre D. Afonso IV e D. Dinis prestes a entrarem em batalha no campo de Alvalade. É obra dum escultor portuense cujo nome se perdeu e apresenta numa face Cristo Crucificado; na outra, N. Senhora da Piedade com Jesus descido da Cruz no regaço e, por baixo, S. Vicente segurando a nau e os corvos numa mão e a palma do martírio na outra. Foi primeiramente erigido no largo, resguardado por uma cobertura em pirâmide assente em quatro pilares de cantaria, donde foi retirado em 1837. 
Em 1895 a paroquial de S. Jorge de Arroios recebeu obras e o cruzeiro passou da sacristia para o adro coberto da igreja de Arroios.


Cruzeiro da igreja de São Jorge de Arroios [Início séc. XX]
José Artur Leitão Bárcia,  in A.M.L.

Rua da Esperança

«Esta Rua da Esperança, com carácter bairrista, despido de pitoresco, mas expressivo - e que deve seu nome ao nobre Convento da Esperança [...] foi reconstruída depois do Terramoto; dela saem, pelo lado Norte, agora à nossa esquerda, a Calçada do Castelo Picão, a Travessa das Izabéis, e a Travessa do Pasteleiro, bizarras e populares, que vão dar ao coração da Madragoa, e pelo lado Sul a já citada Travessa dos Barbadinhos». in ( (ARAÚJO,Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 22)
Artéria anterior ao Terramoto de 1755, já que depois deste foi aberta a Calçada Marquês de Abrantes para descongestionar o trânsito que se fazia então pela Rua da Esperança.

Rua da Esperança, [Início do séc. XX]
O nº 46 corresponderá à loja de alfaiate que ali se vê à esquerda. Segue-se a Tv. do Pasteleiro e, ao fundo, a Avenida Dom Carlos I. Boa parte destes prédios ainda lá estão.
in A.M.L.

Rua dos Cegos, 20-22

«Havia na fachada desta casa, há anos - e vê-se em estampas antigas — um altarzinho com o seu lampeão, cousa de aguarela e de museu de humildades religiosas; o "procurador do senhorio" vendeu-o.»  (Norberto Araújo, in Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 74, 1938)
Casa quinhentista da Rua dos Cegos, 20-22 [s.d.]
Calçada do Menino Deus
Ferreira da Cunha, in A.M.L.

«Numa casa de ressalto quinhentista, rara na Lisboa pós terramoto, encontra-se aplicado a cópia de um registo de azulejos seiscentista, realizada por volta de 1930. Trata-se de uma peça policroma, sobre fundo branco, tendo representada uma custódia (alusão à Eucaristia), ladeada por dois anjos. O exemplar original pode ter constituído o elemento central de um frontal de altar reaproveitado, sendo paradigmático a passagem da peça, do espaço sagrado para o espaço profano. Os painéis daquela centúria são geralmente pintados por artesãos sem escola, tendo os desenhos contornos a manganês.[...]» in museudacidade

O registo de azulejos retrata a apresentação do Santíssimo por dois querubins. O pequeno elemento em ferro destinava-se à suspensão da candeia para iluminar o Santíssimo.

Casa quinhentista da Rua dos Cegos, 20-22 [c. 1900]
Calçada do Menino Deus
José Artur Leitão Bárcia, in A.M.L.

Saturday, 25 July 2015

Praça Duque da Terceira, o Relógio de Sol e o Hotel Central

Foi no famoso Hotel Central (encerrado em 1919), o melhor hotel de Lisboa desse tempo, onde se hospedavam reis, presidentes e figuras ilustres, como Júlio Verne (que lá jantou duas vezes), que Carlos da Maia viu pela primeira vez Maria Eduarda:

        «Entravam então no peristilo do Hotel Central — e nesse momento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta.[...] Craft e Carlos afastaram-se, ela passou, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar.» 
(in Eça de Queiroz, Os Maias 1888)
Praça Duque da Terceira [1858]
Praça Duque da Terceira, o Relógio de Sol e o Hotel Central
Amédée de Lemaire-Ternante, in B.N.F

De acordo com olisipógrafo Noberrto de Araújo, a configuração desta praça dos «Remolares», era muito diferente da actual: «Há sessenta anos [c. 1880] o mar chegava sensivelmente aonde corre a linha do eléctrico» [...]
«Ao centro desta Praça onde se ergueu o monumento ao Duque da Terceira, existiu até 1874 (não sei desde quando) um relógio de sol que assentava sôbre um pedestal acima de uma escadaria circular. A «Merediana dos Remolares» ou «do Cais do Sodré», que muita chalaça mereceu aos alfacinhas, era, afinal de contas, mais leal que os relógios das torres.»  
(in Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 40 [*1939])

Praça Duque da Terceira [c. 1910]
Praça Duque da Terceira e o Hotel Central
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Friday, 24 July 2015

Royal Cine

Em 1929, Agapito da Serra Fernandes, entregava ao arquitecto Norte Júnior a tarefa de conceber uma sala de cinema — o Cine Royal. Exibindo na fachada o «selo» do seu proprietário — a famosa estrela que insistentemente se reproduz nos painéis azulejares e na calçada do «Bairro Operário Estrela de Ouro» (Graça)  — é inaugurado no Natal com o filme «O Cadáver Vivo», disponibilizando ao público uma sala com espaço para orquestra e com capacidade para 900 lugares, contando com 1ª e 2ª plateias e um balcão a descrever um «U», localizando-se os camarotes lateralmente. O Royal Cine estabeleceu a quinta-feira como seu dia de estreias, apresentando a particularidade da realização, todas as quartas-feiras, de «matinées-dançantes», por convite.

Rua da Graça, 100, [1977]
Cinema Royal, carinhosa e popularmente conhecido como o «Rolhas»
Vasques, in AML

A 5 de Abril de 1930 — através duma aparelhagem «Western Electric» considerada, então, uma das marcas mais reputadas — é exibido o filme «Sombras Brancas nos Mares do Sul», de W. S. Van Dyke, apresentado pela Metro-Goldwin-Mayer, introduzindo deste modo o cinema sonoro em Portugal, facto que foi devidamente assinalado pela presença do Presidente da República.
Na década de 1980 o espaço é transformado em supermercado, o que implica demolições, restando hoje do antigo edifício apenas a fachada e o átrio da entrada.

Publicidade ao filme  sonoro «Sombras Brancas nos Mares do Sul»

Café Royal

O afamado Royal, fundado em 1906), era frequentado por alguma da elite intelectual portuguesa; por ali passaram figuras como o pintor Columbano Bordalo Pinheiro ou o escritor Fernando Pessoa, entre outras.
«No predio que torneja da praça dos Remolares [Pç. Duque de Terceira] para a rua do Alecrim. encontra-se o modernissimo café Royal, no 1.º andar do qual predio existiu, em 1854, o restaurant de João da Matta, o mais espirituoso theorico da gastronomia portugueza, aquelle cujos divinos pitéus excitavam o paladar da aristocracia do garfo.»
(in Serões:revista mensal illustrada, Ferreira & Oliviera, 1909, p. 366)
 Café Royal [1939]
Praça Duque da Terceira; Rua Bernardino Costa
Alberto Carlos Lima,  in A.M.L.

Thursday, 23 July 2015

Pátio do Carrasco

Em Lisboa, e imediatamente à frente do Largo do Limoeiro, junto à antiga Cadeia encontramos o Pátio do Carrasco, estranhamente funesto e degradado. Por aqui terá vivido temporariamente Luís António Alves dos Santos (1806–1873), «o Negro», marcado pela casualidade histórica de ter sido o último carrasco de Portugal.

Pátio do Carrasco, Largo do Limoeiro, 3, [c. 1940]
 Eduardo Portugal, in A.M.L.

Dizem que haveria ali um túnel subterrâneo por onde Luís caminhava até à prisão do Limoeiro, mesmo ao lado. No local onde estaria essa passagem, ainda hoje se ouvem gritos.
Os moradores pensam que são do próprio Luís, atormentado pelas mortes que causou e que fizeram dele «o último carrasco de Portugal», com um salário de 4.100 réis e direito a referência num livro de Camilo Castelo Branco.

Pátio do Carrasco, Largo do Limoeiro, 3, [c. 1940]
Fotógrafo: Eduardo Portugal, in A.M.L.

Mas é aqui que a história se torna difícil de entender: é possível que Luís Alves nunca tenha executado ninguém. Da única vez que foi encarregue de o fazer, em Tavira, deu ao seu imediato o dinheiro que tinha consigo, para que o substituísse. Como na época os carrascos usavam capuz, era possível trocarem de lugar sem que ninguém se apercebesse. Será que Luís grita atormentado pelas mortes que causou na juventude? O carrasco lutou ao lado dos absolutistas, no século XIX, e confessou ter matado dois homens em legítima defesa. Morreu aos 67 anos, com um ataque de asma, já depois da abolição da pena de morte em Portugal.
(in «101 Lugares para Ter Medo em Portugal», Vanessa Fidalgo, Esfera dos Livros)

Almirante Reis, 2-2K

Em 1908 premiou-se, pela primeira vez, um edifício de rendimento cujo piso térreo era ocupado por estabelecimentos comerciais. Edifício de gaveto, localiza-se na Avenida Almirante Reis, 2-2K, propriedade de Guilherme Augusto Coelho com projeto de Arnaldo R. Adães Bermudes (1864-1948). De destacar a decoração em motivos Arte Nova, com elementos em ferro forjado e painéis de azulejo, e ainda a cúpula que remata o edifício.

Almirante Reis, 2-2K [1965]
Prémio Valmor de 1908
Arnaldo Madureira, in A.M.L.

Wednesday, 22 July 2015

Casa do Ferreira das Tabuletas

Mandada edificar, em 1864, nos terrenos do extinto Convento da Santíssima Trindade, por Manuel Moreira Garcia, capitalista galego de fortes convicções maçónicas, a Casa do Ferreira das Tabuletas é um edifício, de feição pombalina, com a fachada dividida em três panos e quatro registos, que apresenta um revestimento azulejar da autoria do pintor e azulejador Luís António Ferreira (Fáb. Viúva Lamego), mais conhecido por Ferreira das Tabuletas, daí o nome da da casa. A composição azulejar preenche o espaço dos três pisos superiores por completo, integrando-se perfeitamente na estrutura arquitectónica como um esquema cenográfico, criando efeitos de profundidade e riqueza cromática. 
Sendo um dos mais originais programas decorativos exteriores da arquitectura lisboeta, congrega símbolos maçónicos, ligados aos ideais do proprietário, como o Olho da Providência, com diversas alegorias. Neste caso revela a sua originalidade por integrar falsos elementos arquitectónicos, como os nichos com figuras humanas de gosto clássico, representando a Terra, a Água, a Indústria, o Comércio, a Agricultura e a Ciência, assim como por imitar a pintura em «tromp l'oeil». 
Encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público.

Rua da Trindade, 28-34, [1949]
Casa do Ferreira das Tabuletas
Fotógrafo: Eduardo Portugal, in A.M.L.

Rua Primeiro de Dezembro

«Esta artéria, na designação, sucedeu em 1908 à antiga Rua do Príncipe. A serventia parece que fora chamada pelo vulgo, no tempo de Pombal, depois do Terramoto, Rua Nova das Hortas e Rua das Hortas (e que constituiria referência oral à Horta da Mancebia ou a horta dos terreiros do Duque de Cadaval ou dos Condes de Faro, mais para Norte). Antes de 1755 a Rua tinha já o traçado sensivelmente idêntico ao de hoje, e chamava-se Rua de Valverde – lindo nome.» (in Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 85)

Rua Primeiro de Dezembro, Sapateiro [1968]
Antiga Rua do Príncipe, antes Travessa Camões
Armando Serôdio, in A.M.L.

Tuesday, 21 July 2015

O Arsenal de Marinha no Terreiro do Paço

Neste local foi mandado construir por D. Manuel I os chamados estaleiros da Ribeira das Naus, a ocidente do novo palácio real, sobre o local das tercenas medievais.. O terramoto de 1755 destruiu esse importante complexo, tendo sido reconstruído em 1759 segundo projecto de Eugénio dos Santos. No início da segunda metade do séc XIX, o Arsenal da Marinha começa a adaptar-se à construção de navios de ferro movidos a vapor.

Fotografia aérea do Terreiro do Paçoo, destaca-se a antiga Doca Seca do Arsenal de Marinha e o Cais da Caldeirinha [entre 1930 e 1932] 
Manuel Barros Marques, in A.M.L.
Doca seca do Arsenal de Marinha e a Caldeira (esq) [ant. 1900]
Chaves Cruz, in A.M.L.

Nos fins do século XVI, ainda. no tempo do domínio filipino, construiram-se duas docas ou caldeiras lado a lado (uma elas quais era conhecida por caldeirinha, vd. 3ª foto), uma terceira doca de abrigo de pequenas embarcações, e duas carreiras de construção de barcos de guerra; e ainda, pelo tempo adiante, construíram-se naquele recinto, armazéns, oficinas e edictos para. serviços de administração.

Cais da Caldeirinha e a Casa da Balança  do Arsenal de Marinha [ant. 1939]
Eduardo Portugal, in A.M. L

A caldeira ocidental foi entulhada em 1864; a carreira de construção de oeste foi demolida. pouco antes de 1888. O dique teve origem no reinado de D. Ma.ria 1; foi reconstruido na segunda. metade do século XIX, e entulhado em 1948, assim como a caldeirinha aquando da abertura da Avenida da Ribeira das Naus.

Doca seca (ou de reparação) do Arsenal de Marinha [ant. 1939]
O dique do Arsenal de Marinha tinha 84 metros de comprimento útil, e 12 metros de largura
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Palácio Valada-Azambuja

A existência de uma construção palaciana neste local remonta ao séc. XVI. O edifício actual, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1982, foi totalmente reedificado pós-terramoto, tendo sofrido obras importantes durante os sécs. XIX e XX, que lhe modificaram o seu carácter original, conservando, no entanto, a imponência setecentista da sua fachada.

Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40, [séc. XIX]
[Ascensor da Bica]
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.

De espaço residencial converteu-se em espaço comercial, de serviços e cultural, acolhendo inclusivamente a Biblioteca Municipal Camões. A partir de 1925 funcionou como sede do periódico "A Lucta" .

Largo do Calhariz, 15-19; Rua da Bica Duarte Belo, 71-81; Rua Marechal Saldanha, 30-40, [1968,]
Armando Serôdio, in A.M.L.

No seu interior são de destacar: o silhar de azulejos azuis e brancos, setecentistas, figurando cenas galantes, localizado no átrio de entrada; a decoração com estuques levemente relevados da escadaria de mármore; e os dois registos azulejares, figurando S. Francisco e S. Marçal, do pátio interior.


Painel de azulejos com a imagem de São Marçal
Painel de azulejos com a imagem de São Francisco de Borja

Monday, 20 July 2015

Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas

O Convento do Santo Crucifixo das Capuchinhas Francesas, conhecido como das «Francesinhas» foi fundado em 1667 pela Rainha de Portugal Maria Francisca de Sabóia, esposa de D. Afonso VI e, em segundas núpcias, de D. Pedro II. Quando morreu, a rainha foi sepultada no convento que fundou. Em 1911, o corpo foi trasladado para o Mosteiro de São Vicente de Fora, dando-se então início à demolição do convento (3ª imagem).

Esquina da Calçada da Estrela e do Caminho Novo, hoje Rua das Francesinhas [1910]
Joshua Benoliel,
in A.M.L

A denominação de Capuchinhas Francesas ficou definitivamente associada ao Convento do Santo Crucifixo (denominação oficial do cenóbio) e adveio unicamente da origem das freiras fundadoras — quatro freiras clarissas que a tinham acompanhado de França D. Maria Francisca de Sabóia —, não constituindo qualquer ramo ou variação do instituto de religiosas denominado Capuchinhas, fundado em 1535 pela espanhola Maria Lorenza Longo, em Nápoles, ao qual pertenciam as monjas do convento.
O convento do Santo Crucifixo constitui um importante exemplo do que foi a arquitectura monástica no feminino, com as suas particulares exigências e necessidades. O conjunto formado pela parte edificada, cuja centralidade era marcada pelo claustro, a cerca conventual (com a sua importância no contacto com a natureza), a distinção funcional e predefinida entre os diferentes espaços e as relações entre eles (quer se destinem a meditação e oração, ao trabalho diário, ao lazer ou ao contacto com o exterior) fazem do espaço conventual uma unidade autónoma que se pretendia auto-suficiente.

Esquina da Calçada da Estrela e do Caminho Novo, hoje Rua das Francesinhas [1910]
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Nos jardins do Convento encontra-se actualmente o Instituto Superior de Economia e Gestão. Só em 1949 se desenhou o jardim na sua forma actual. Com uma homenagem à Família numa escultura de Leopoldo de Almeida que ornamenta um chafariz de 8 bicas. Posteriormente, foi inaugurado um monumento em homenagem a Bento de Jesus Caraça.

Demolição do Convento das Francesinhas [1911]  
Em baixo, onde se vê o gradeanento, a Rua Miguel Lupi
in B.N.F.

Sunday, 19 July 2015

Basílica do Sagrado Coração de Jesus (ou da Estrela)

A Basílica da Estrela nasceu da devoção de D. Maria I ao culto do Sagrado Coração de Jesus. Em 1760, aquando do seu casamento com o Infante D. Pedro, a ainda princesa, fez um voto ao Santíssimo Coração, de lhe erguer uma igreja e convento para as religiosas da Regra de Santa Teresa, pedindo o nascimento de um filho varão. D. Pedro contribuiu para a causa, cedendo os terrenos do Casal da Estrela, na parte ocidental de Lisboa. No entanto, desde logo se depararam uma série de obstáculos à devota princesa, apenas ultrapassados aquando da sua subida ao trono: dificuldades técnicas e económicas (estava em curso a reconstrução dacapital após o terramoto de 1755, para a qual o Marquês de Pombal havia disponibilizado todos os meios), bem como teológicas, já que o culto ao Sagrado Coração além de polémico não era aceite pela ortodoxia católica, porque "revalorizava a natureza humana de Cristo sobre a divina" o que implicava uma mudança quase radical na mentalidade e modo de encarar os dogmas da Igreja da época. De facto, só o papa Pio VI, no final do século XVIII, o aprovará.

Litografia representando o exterior da Basílica da Estrela, iniciada em 1779

A obra é confiada a Mateus Vicente de Oliveira, arquitecto da Casa do Infantado que tinha participado em obras de vulto, nomeadamente no Palácio de Queluz. Entre 1778-79 realiza dois projectos de estilo Barroco, que atingira o desenvolvimento pleno em Portugal no reinado de D. João V, avô de D. Maria I. Tratava-se duma basílica de planta maneirista em cruz latina, onde no transepto existia uma cúpula que iluminava a parte central do espaço, deixando o restante na penumbra e que tinha uma nave única em vez das três habituais. A fachada tinha dois pisos, com o corpo central de três tramos saliente, onde foi usado o jogo entre pilastras e colunas para a divisão dos mesmos (empregou-se a ordem jónica, feminina, própria para conventos de freiras), sendo ladeada por duas torres sineiras e encimada por um frontão ondulado denunciando a influência do arquitecto italiano Borromini. Elementos típicos do vocabulário barroco são também as estátuas da oficina de Machado de Castro, que adornam a fachada e a imponente escadaria que projectando-se sobre o seu exterior, "promove o diálogo entre o edíficio e a cidade". Esta monumentalidade e efeito cénico próprios dos edifícios do Barroco, eram usadas para cativar os fiéis, prolongando todo o espectáculo para fora.

Basílica da Estrela [ant.1895]
Largo da Estrela
Francesco Rocchini, in A.M.L.

A partir de 1786, o arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos é encarregado de terminar a basílica, elaborando um terceiro projecto, aquele que foi seguido, onde introduziu algumas alterações -segundo a tradição- a causa da morte de Mateus Vicente. Substituiu o frontão contracurvado por um triangular e adornou-o com uma profusão de estátuas e fogaréus ondulados, ao mesmo tempo que procedeu ao "alteamento da cúpula com zimbório e lanternim" e enfeitou as torres sineiras de ornatos e arrebiques, que apesar de tudo lhes conferiram uma certa elegância rococó, linguagem estilística que se estava a adoptar. Se há quem considere a Basílica da Estrela uma versão reduzida da de Mafra (obra anterior da época joanina), à intervenção de Reinaldo dos Santos se deve. Quanto a mim, a questão não é tanto qual o projecto de maior qualidade estética, mas antes o que melhor se adequava a uma igreja e convento de carmelitas, que na sua existência contemplativa prezam acima de tudo a pobreza material e a simplicidade.

Basílica da Estrela [s.d.]
Largo da Estrela
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

Quanto ao interior, este prima pela harmonia da traça, pela nobreza dos materiais usados (pedra de lioz, mármores brancos de Pero Pinheiro, azuis de Sintra, rosas de Negrais, amarelos de Lousa e negros de Cascais) e pela qualidade da maior parte das pinturas, que o tornam num espaço duma sobriedade que prenuncia o Neoclássico.

A sagração da Basílica teve lugar em Novembro de 1789, numa cerimónia de pompa e circunstância, uma década após o lançamento da primeira pedra, resultado da firme vontade de D. Maria I, enquanto que o projecto de Pombal para a sua cidade iluminada se arrastaria até final do século XVIII. Como diz Nuno Saldanha no Livro de Lisboa, é uma obra sintomática de um final, do Antigo Regime e do Barroco mas reflecte o início de uma espiritualidade moderna. A Basílica foi a primeira igreja do Mundo a receber o título de lugar de culto ao Sagrado Coração sancionado por bula pontifícia, culto esse que se propagaria ao longo dos séculos seguintes.

Basílica da Estrela [195-]
Perspectiva tirada do Jardim da Estrela
Judah Benoliel, in A.M.L.

Bibliografia
BORGES, Nelson Correia, " História da Arte em Portugal - Do Barroco ao Rococó ", Volume 9, Publicações Alfa, 1986, Lisboa.
SALDANHA, Nuno, " O livro de Lisboa - A Basílica da Estrela ", Capítulo VIII - Destaque I, Lisboa, 1994.

Sporting Club de Cascais

Inaugurado em 15 de Outubro de 1879 pelo próprio Rei Dom Carlos, o Sporting Clube da Parada depressa se tornou no grande espaço de referência na sociedade aristocrática do Portugal de então. Pelos seus pavilhões, onde os finais de tarde eram passados em torno dos modernos jogos da moda, como o foot-ball, tennis e soft-ball, circulavam as mais importantes figuras do reino. Até à Implantação da República, o Clube da Parada viu crescer o seu prestígio, ao ponto de Ramalho Ortigão referir que era preciso ser-se visto na Parada para se poder ser alguém em Portugal: «O Sporting Club [...] deu ao lugar um arzinho de civilização, que não deixa de surpreender um pouco numa praia nacional. Vários jogos de jardim foram correctamente estabelecidos e são assiduamente frequentados.».  
Em Outubro de 1888, foi também nos relvados defronte da Parada que se realizou o primeiro jogo de futebol em Portugal. O clube só se extinguiu em 1974.
(in cm-cascais.pt)

O Rei D. Carlos e senhoras no Sporting Club da Parada de Cascais[antiga Parada da Cidadela] [1905]
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Saturday, 18 July 2015

Eirados das Pedras Negras

Consta que haveria na Babilónia uns magníficos jardins suspensos, uma das sete maravilhas do mundo antigo, mandados construir pelo rei Nabucodonosor como oferta a Amitis, sua esposa e rainha. Pois bem, parece que por cá também os havia, ou talvez um arremedo disso, não tão grandiosos e luxuriantes, mas com a óbvia vantagem de — ao invés dos da Babilónia — se saber exactamente onde se localizavam, sito na Rua das Pedras Negras. Eis como o mestre olisipógrafo Norberto de Araújo os descreve nas suas Peregrinações em Lisboa:
«No quarteirão nascente desta Rua das Pedras Negras encontras na tua frente as traseiras de cinco prédios, interessantissimos pelos seus altos eirados, prolongamento de jardins interiores [...] oferecem [...] um alegre aspecto decorativo, como nenhuns outros em Lisboa[...]

Rua das Pedras Negras [c. 1950]
Eduardo Portugal, in A.M.L.

A quinta face posterior que estamos observando [1ª foto] é a que apoia o eirado mais curioso de quantos estamos a tratar. No alto corre um varandim com quatro janelas, e logo sob os apoios notas três frestas quadradas gradeadas, e logo mais três assimétricas; em baixo ainda vês uma fresta no ângulo do cunhal e a porta praticável ao centro. Corresponde este gracioso documento ao prédio nº 37 e 39 [...]; no pavimento que se prolonga do rés-do-chão há um pequeno jardim, com um lago.»
(in Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 22-23, 1938)
Rua das Pedras Negras [c. 1900]
in A.M.L.
(clicar para ampliar)
Rua das Pedras Negras [c. 1900]
in A.M.L.
 
(clicar para ampliar)

Friday, 17 July 2015

Mercado da Praça da Figueira

Entraram numa praça que tinha ao centro um mercado com uma cobertura de ferro forjado.

Robert Wilson, A Companhia de Estranhos, 2009


Nasceu em 1755, no terreno das ruínas do Hospital Real de Todos-os-Santos, impondo-se como mercado central e destinado à venda de frutas e legumes. Passou entretanto por vários nomes: Horta do Hospital, Praça das Ervas, Praça Nova e Praça da Figueira. De um local de bancadas diárias passou a praça fixa, com barracas arrumadas e um poço próprio; era — claro — ao ar livre, como comprova a imagem abaixo.

Mercado da Praça da Figueira [ant. 1885]
Rua da Betesga
Colecção do Conde de Arnoso, in AML

Ao longo dos tempos, foi sofrendo algumas alterações consoante as necessidades da população. Assim, em 1835, é arborizada e iluminada, e em 1849 o recinto foi fechado com grades de ferro e oito portas,. Em 1883 a velha Praça foi demolida,  e em 16 de Maio de 1885 inaugurou-se o novo Mercado, do risco de Manuel Maria Ricardo Correia, com a presença da Família Real. 

Mercado da Praça da Figueira [16 de Maio de 1885]
Inauguração do mercado da Praça da Figueira, com a presença da Família Real
(o Rei D. Carlos e a sua consorte D. Amélia de Orleães)
Fotógrafo não identificado, in AML

Consistia num edifício rectangular, com estrutura em ferro forjado e ocupando uma área de quase 8 mil metros quadrados.
Da venda de fruta e legumes, passou-se à transacção de outros produtos alimentícios necessários à população, fazendo da baixa lisboeta um local com um constante fervilhar de vida.

"Bendita seja a Praça da Figueira, colorida, estridente, regateira,
como todo o mercado que se preza...
É bem esta a paisagem portuguesa
que se deve mostrar, como surpresa,
à colónia estrangeira."

Fernanda de Castro (1900-1994). «O Mercado». Cidade em Flor. [1924]

Mercado da Praça da Figueira [post. 1885 e ant. 1900]
Rua da Betesga
Fotógrafo não identificado, in AML

Desde logo, a praça tornou-se um dos emblemas de Lisboa, quer pela sua construção, quer pela sua localização no centro da cidade, quer ainda pela realização de verdadeiros arraiais por altura dos santos populares, transformando-a num verdadeiro teatro.
Em 1947, a vereação da altura decidiu o fim da praça, prevendo o alargamento da rede viária de Lisboa, que incluía a demolição do Socorro e zona baixa da Mouraria como forma de escoamento de trânsito, aproximando a cidade de Lisboa aos padrões europeus. 
Em 1949 festeja-se o último Santo António, procedendo-se de seguida — a 30 de Junho — à demolição do edifício. [cm-lisboa.pt]

Mercado da Praça da Figueira [c. 1906]
Rua da Betesga
Fotógrafo desconhecido

Bibliografia:
(CARNEIRO, Luís Miguel e Ilharco, Simões, Confeitaria Nacional,)
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga: bairros orientais,
vol. I, III, X ) 
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga: o Bairro Alto, vol. V)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII)
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