Thursday, 31 December 2015

O segredo do Obelisco (da Praça) dos Restauradores

Não há em Lisboa quem não pergunte o que significa o obelisco no centro da Praça dos Restauradores, além do seu significado imediato como monumento patriótico inaugurado em 28 de Abril de 1886 como projecto do arquitecto António Tomás da Fonseca. Terá algum significado esotérico ou escondido este monumento? Será obra secreta da Maçonaria Portuguesa? Afinal, o que significa este obelisco e porque está aqui?

Inauguração do Monumento aos Restauradores [28 de Abril de 1886]
 Praça dos Restauradores, vendo-se na tribuna o Rei  D. Luiz
Fotógrafo não identificado

Por causa do seu formato, o obelisco é o símbolo do raio do Sol, ligando-se ao mito da ascensão solar e à «luz do Espírito penetrante» por causa da sua posição erecta e da ponta piramidal em que termina. Tendo tido uma importância excepcional na religião do Antigo Egipto que cultuava o Espírito do Sol, representativo de Deus Supremo, o simbolismo do obelisco veio a ser importado daí para a Europa pelas antigas confrarias de construtores-livres reunidas sob o nome genérico Maçonaria. Talhado num único bloco de pedra (monólito), o obelisco condiz até no nome com o seu significado solar, pois deriva do grego obeliskos como diminutivo de óbelos significando «agulha», como referência ao seu término pontiagudo.

Monumento aos Restauradores [1888] 
Anjo da Vitória, por Simões de Almeida
Praça dos Restauradores e Avenida da Liberdade, ao cimo, os pavilhões da Exposição Industrial e Agrícola
Fotógrafo não identificado, in AML

O obelisco era considerado com a petrificação do raio solar, acreditando-se que a Divindade animava ou existia dentro da estrutura. Esta crença egípcia seria adoptada pela Maçonaria depois de 1717, chegando a dizer o maçom Albert Pike no seu livro Dogma e Moral: «Daí a importância do obelisco, erguido como um emblema da ressurreição da Divindade enterrada». Foi assim que os maçons passaram a ter o obelisco como símbolo da Fraternidade Interna Invisível ou Espiritual, a mesma que a Igreja chama Comunhão dos Santos e outros de Grande Fraternidade Branca

Monumento aos Restauradores [séc. XIX] 
Anjo da Luz, ou Génio da Independência, por Alberto Nunes
Praça dos Restauradores e Avenida da Liberdade
Alberto Carlos Lima, in AML

O simbolismo solar deste obelisco nos Restauradores, com 33 metros de altura, é ainda representado pelo Anjo da Luz, que vai bem com a natureza astrolátrica [adoração dos astros] do monumento, ou seja, o Génio da Independência, [voltado para a Avenida da Liberdade], obra do escultor Alberto Nunes, e que é o próprio Prometeu liberto dos grilhões que o escravizavam, neste caso particular, incarnando a alma liberta de Portugal do jugo Filipino no século XVII. Essa estátua de bronze é completada no significado por outra no lado oposto, a Vitória [1ª e 2ª imagens], escultura de Simões de Almeida. A escolha do metal bronze é também muito significativa, pois entre os antigos egípcios era considerado como a “carne dos deuses”, juntamente com o ouro que aqui figura só no Sol de Lisboa. Fica assim revelado o segredo deste singular Obelisco dos Restauradores.
[Simbolismo esotérico, Mistérios de Lisboa. por Vitor Manuel Adrião, historiador]

Monumento aos Restauradores [ant. 1892]
Anjo da Luz, ou Génio da Independência, por Alberto Nunes
Praça dos Restauradores; à direita, o Hotel Avenida Palace em construção
Fotógrafo não identificado, in AMLL

Wednesday, 30 December 2015

Estrada de Benfica, ou de Palhavã

Estrada de Benfica, ou de Palhavã, como se pode constatar na placa toponímica no muro do Parque José Maria Eugénio, hoje Fundação Calouste Gulbenkian na Rua Doutor Nicolau de Bettencourt, que era um troço da Estrada de Benfica, compreendido entre o Largo de S. Sebastião da Pedreira e a Praça de Espanha.

Estrada de Benfica, ou de Palhavã [1946]
Actual Rua Doutor Nicolau de Bettencourt, junto à Gulbenkian [Inundações de 1946]

Ferreira da Cunha, in AML

De acordo com a entrada BENFICA (Sítio de ), no Dicionário de História de Lisboa (Lisboa: Carlos Quintas & Associados - Consultores, Lda., 1994), « Benfica surge como aldeia desde o séc. XIII, em redor da igreja primitiva de N. S. do Amparo. Próximo do actual Sete Rios, instalaram-se em 1399 os dominicanos, nos paços reais doados pelo Rei D. João I. Havia, assim, como que dois pólos na freguesia de Benfica e, para distinguir a zona dos paços reais e depois do convento dominicano, esta vai surgir referida como Benfica-a-Nova, ou Benfica de Baixo. O crescente povoamento da região ao longo dos tempos deu origem ao aparecimento de novos lugares: Calhariz no séc. XIV, Cruz da Pedra no séc. XVI e, entre estes dois pontos da espinha dorsal que era a Estrada de Benfica, surgiram mais tarde outros núcleos». (cml-lisboa.pt)

Rua Doutor Nicolau de Bettencourt, antiga Estrada de Benfica, ou de Palhavã [1957]
À direita, o muro do parque da Fundação Calouste Gulbenkian; ao fundo a Praça de Espanha
Judah Benoliel, in AML

Convento de Santa Joana (Princesa)

Sobre este antigo convento, sito na Rua de Santa Marta, refere o olisipógrafo Norberto de Araújo o seguinte: 
« Agora encontramos, à direita, um enorme casarão, em cujos baixos está instalada a esquadra da policia de Santa Marta, edifício que corresponde ao Convento de Santa Joana (Princesa), que bastante nomeada teve em Lisboa. 
   No século XVII por estes sitios campeavam as casas e quintas de D. Álvaro de Castro, senhor do Paúl de Boquilobo, que em seu testamento deixara uma boa parte da propriedade destinada à construção de um hospicio para Missionários da Índia. Fundou-se nela, porém, em Novembro de 1699, um convento de frades dominicanos. Meio século andado, poucos religiosos restavam em clausura, e, assim, e porque o Terramoto destruira os conventos das dominicanas da Anunciada e da Rosa, estas religiosas vieram ocupar êste convento «ao Andaluz», que pouco sofrera com o cataclismo, e que o Rei D. José fêz restaurar.
   Extintas as ordens religiosas, o convento subsistiu até :à morte da última freira; depois ficou ao abandono até que a Câmara Municipal e a Repartição respectiva do Ministério da Fazenda se entenderam (1884) para que a cêrca fôsse retalhada para urbanização, poupando-se o casarão, que foi aproveitado pelas Juntas de Paróquia vizinhas para serviços de assistência pública. 
   Depois de 1910 começou a casa, bastante decrépita, a servir de arquivo de vários serviços públicos. Desde há anos estão nela instalados parte do Arquivo da Contabilidade Pública e do Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, as Inspecções dos Fósforos e dos Tabacos, o Arquivo da Inspecção do Comércio Bancário, algumas repartições das Obras Públicas, vários serviços de beneficência da Misericórdia, a 16.ª esquadra da polícia (Santa Marta), e uma garage da polícia de Lisboa.
Para muito deu o Convento de Santa Joana (Princesa de Portugal).»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 87)

Convento de Santa Joana (Princesa) [1927]
Rua de Santa Marta

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal 'O Século'

E «para muito mais dará» - parafraseando o insigne olisipógrafo Norberto de Araújo, senão vejamos:
O «Grupo Hoti» comprou ao Estado o Convento por 11,2 milhões de €uros e vai converter o edifício do século XVIII num hotel que deverá ter a marca Meliá.
O projecto no Convento de Santa Joana integra uma passagem pública entre as ruas Camilo Castelo Branco e Santa Marta, sendo a sua área total de 18,7 mil metros quadrados. É neste espaço que ainda funciona a PSP. «A parte virada para a Rua de Santa Marta é para reabilitar, e o objectivo é construir neste espaço 40 apartamentos, fundamentalmente para venda a compradores estrangeiros que queiram ter os serviços de apoio do hotel».»
A entrada principal do hotel - de 5*, «ou de 4* superior» -, será feita a partir da Rua Camilo Castelo Branco e deverá contar com 160 quartos, de acordo com o projectado. Segundo as previsões da Hoti, a obra deverá começar em 2015, para o hotel inaugurar em 2017.

Tuesday, 29 December 2015

Arco de Jesus, ao Campo das Cebolas

A denominação do Arco provém de uma imagem do Menino Jesus colocada sob a abóboda, ou em cima dela. Também nela existiu um painel de Santo António, dentro de um oratório, por cima do vão da travessa, pelo lado inferior, e que já existiria em 1627. Também chamado Porta (velha) do Mar, ou porta do Furadoiro. Foi uma das doze portas primitivas da Cerca moura, logo contígua ao palácio dos Condes de Coculim e dos Duques de Aveiro. 

Campo das Cebolas [91-]
Rua Cais de Santarém 
Cunhal brasonado com as armas dos Mascarenhas, condes de Coculim
Joshua Benoliel, in AML

« Pois aqui temos o Arco de Jesus. Corresponde êle à Porta da muralha da Cêrca moura, a mais antiga dêste lado do mar, e sem dúvida a única existente quando do assédio a Lisboa. Possue, como vês, uma certa originalidade, mesmo pitoresco, mas nada nos diz da significação militar que possuíu no seu longínquo comêço.

Arco de Jesus, Campo das Cebolas [c. 1900]
Rua Cais de Santarém 
José Artur Leitão Bárcia, in AML

Bem de admirar-se é êsse forte cunhal brasonado das armas dos Mascarenhasmuitos Mascarenhas titulares houve em Portugal! — , e que corresponde ao apelido dos Condes de Coculim.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 25)

Arco de Jesus, Campo das Cebolas [c. 1900]
Rua Cais de Santarém
Perspectiva tirada do lado interior
José Artur Leitão Bárcia, in AML

Antigas Portas de Benfica

Os vários edifícios construídos ao longo da circunvalação da cidade destinavam-se a albergar unidades da Guarda Fiscal que cobravam o «Real da Água», isto é, impostos sobre o consumo de vários géneros alimentares que entravam e saíam dos limites físicos da cidade.

Os Castelinhos das Portas de Benfica [1970]
[Estrada de Benfica/Estrada Militar]
Arnaldo Madureira, in AML

O nome «Real da Água» foi herdado dos impostos semelhantes que, no «Antigo Regime», eram cobrados com carácter extraordinário para fazer face a despesas de construção de aquedutos e chafarizes.
Foi esta uma das formas de financiamento da construção do Aqueduto Geral das Águas Livres e a sua cobrança prolongada em Lisboa, acabou por transformar este imposto temporário em permanente. O imposto eram particularmente pesado sobre as bebidas alcoólicas e, até à sua extinção em 1922, eram frequentes os episódios de contrabando de álcool nas barreiras da cidade.

Os Castelinhos das Portas de Benfica [1970]
Antigo posto da polícia de trânsito; Estrada de Benfica/Estrada Militar
Arnaldo Madureira, in AML

O projecto, de autor desconhecido, data de 1886. Construidas em estilo neogótico, com ameias inspiradas nos castelos medievais, as Portas de Benfica foram recentemente requalificadas e reinseridas num arranjo paisagístico que conciliou a moderna rede viária com estes últimos sobreviventes dos antigos postos da Guarda Fiscal. (cm-amadora.pt)

Os Castelinhos das Portas de Benfica [1970]
Antigo osto da polícia de trânsito; Estrada de Benfica/Estrada Militar]
Arnaldo Madureira, in AML

Monday, 28 December 2015

Cadeia Penitenciária de Lisboa, Abolição do capuz dos reclusos

Em 29 de Janeiro de 1913 é aprovado o decreto que cria a Comissão de Reforma Penal e Prisional e revoga expressamente o regulamento da Cadeia Geral Penitenciária de Lisboa de 1884, admitindo a substituição do regime penitenciário celular pelo regime de prisão maior temporária ou outra. 

A romaria das famílias dos recluso,, à porta da Cadeia Penitenciária de Lisboa [1931]
Rua Marquês de Fronteira
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Seculo
 
Uma das consequências práticas de maior peso simbólico foi a abolição do capuz de utilização obrigatória pelos reclusos, momento retratado em reportagem fotográfica por Joshua Benoliel. Até então vigorava o «Regulamento Provisório da Cadeia Geral Penitenciária do Distrito da Relação de Lisboa, Decreto de 20 Novembro de 1884» que estipulava o seguinte:

Cadeia Penitenciária de Lisboa [1913]
Rua Marquês de Fronteira
No anfiteatro da prisão: os reclusos COM o capuz

Joshua Benoliel, in AML

«(...) Os exercícios físicos quotidianos, a efectuar nos pátios ou dependências da cadeia, deveriam assegurar que os reclusos «não tenham entre si comunicação alguma, nem possam conhecer-se» (art. 9.º). Fundamental para manter a incomunicabilidade dos reclusos, que «não poderão, sob qualquer pretexto, ver-se nem comunicar entre si por escrito, por palavras ou sinais», é a utilização por estes, fora das celas, de «um capuz que lhes encubra o rosto e que não poderá ser levantado senão nos pátios de passeio, no anfiteatro da capela, ou em outros lugares em que não esteja presente outro preso» (art. 159.º), o mesmo valendo para os reclusos ocupados «em serviços ou trabalhos, fora das celas», que não podem «dirigir-se por palavras ou gestos aos presos que se ocupem no mesmo serviço, ou que estejam próximos

Cadeia Penitenciária de Lisboa [1913]
Rua Marquês de Fronteira
No anfiteatro da prisão: os reclusos SEM o capuz
Joshua Benoliel, in AML

Mais informação sobre a Abolição do capuz dos reclusos em Portugal na Ilustração Portuguesa:
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/…/…/N365_item1/P7.html

Cadeia Penitenciária de Lisboa

De acordo com Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa « A Penitenciária de Lisboa, um dos casarões mais tristes da cidade, e que bem demolida seria sem protestos de ninguém — tem sessenta e cinco anos de existência. (o autor escreve em 1939)

Construção da Cadeia Penitenciária de Lisboa {ant. 1885]
Rua Marquês de Fronteira
Redondo, o coração da estrutura Penitenciária radial

Francesco Rocchini, in AML

Construção da Cadeia Penitenciária de Lisboa {ant. 1885]
Rua Marquês de Fronteira

Francesco Rocchini, in AML

Construção da Cadeia Penitenciária de Lisboa {ant. 1885]
Rua Marquês de Fronteira

Francesco Rocchini, in AML

 A lei da pena de morte foi abolida em 1 de Julho de 1867 por Joaquim António de Aguiar. Em 24 de Abril de 1873 o Govêrno mandava construir uma Penitenciária, mas antes já havia sido escolhido o terreno das «Terras do Seabra»,  a-par de «Entremuros», existindo mesmo já um projecto, anterior à abolição da pena de morte, da autoria de Joaquim Júlio Pereira Caldas, continuado pelo engenheiro Le-Coq, do tipo francês.

Cadeia Penitenciária de Lisboa [c. 1897]
Rua Marquês de Fronteira
Fotografia onde se podem observar as torres por terminar, coroadas provisoriamente com uma espécie de cones

Fotógrafo não identificado, in AML

 Em 1874 o engenheiro Ricardo Júlio Ferraz foi à Inglaterra e à Bélgica estudar as prisões do modêlo penitenciário, e acabou, assim, por prevalecer para a iniciativa portuguesa sistema inglês de Birmingham; as obras principiaram naquêle ano, e só se concluíram em 1885. Os primeiros reclusos deram entrada em 2 de Setembro daquêle ano. 

Cadeia Penitenciária de Lisboa [190-]
Rua Marquês de Fronteira
Corpo central da fachada

Paulo Guedes, in AML

O edifício lúgubre tem a forma de uma estrêla, ao centro da qual, em rotunda existia até 1910 a Capela. Possue 474 celas, 22 de enfermaria e 12 de castigo. Com a proclamação da República o regime penitenciário pendeu muito do seu rigor; converteu-se a Penitenciária num estabelecimento de expiação e de trabalho, sendo abolidos os capuzes.» (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 91-92)

Cadeia Penitenciária de Lisboa [1913]
Rua Marquês de Fronteira
Corpo central da fachada projectado pelo eng. Luís António de Carvalho

Joshua Benoliel, in AML

Sunday, 27 December 2015

Palácio das Açafatas, ou palácio Centeno

O Palácio das Açafatas, ou Palácio Centeno, foi mandado construir no século XVII pela Rainha D. Catarina de Bragança (1638-1705) para as suas as aias (açafatas) inglesas, que não eram meras criadas, mas sim moças fidalgas, suas confidentes, nas proximidades do que mandou construir para si própria, o Paço da Bemposta (marcando o seu regresso à corte portuguesa em 1693). O Paço conserva pouco mais do que os dois portais, conferindo uma expressão marcadamente seiscentista à frontaria.

Palácio das Açafatas, ou palácio Centeno [c. 1900]
Alameda de Santo António dos Capuchos, 1-5
Machado & Souza, in AML

Pelo contrário, o Palácio das Açafatas encontra-se relativamente bem conservado e apresenta uma noção de escala e gosto característicos do barroco português setecentista (apesar das intervenções nos séculos XIX e XX). Para se entender esta mudança de gosto é importante focar um brevíssimo perfil da encomendadora enquadrado na complexa conjuntura política que ditou o seu casamento com Carlos II de Inglaterra (1630-1685) e posterior regresso a Portugal e considerar os aspectos mais significativos do edifício no contexto da arquitectura áulica [palaciana] Portuguesa do início do século XVIII.

Palácio das Açafatas, ou palácio Centeno [c. 1910]
Alameda de Santo António dos Capuchos, 1-5
Joshua Benoliel, in AML

Com o decorrer dos anos, o Palácio sofreu algumas alterações, sendo as mais significativas, as realizadas após a sua aquisição, cerca de 1900, por António Centeno, que então realiza obras, incluindo a construção da capela, donde herdou o nome pelo qual é hoje conhecido Palácio Centeno.
O seu interior é rico em azulejos do séc. XVIII, considerados como exemplares de grande interesse na história da azulejaria portuguesa. Os tectos da sala nobre são decorados com pinturas de grande delicadeza, de cunho marcadamente novecentista, atribuídos a Bigaglia.

Saturday, 26 December 2015

Palácio dos Duques de Palmela, ao Rato

Edifício grandioso, de finais do século XVIII, foi projectado em 1792 pelo arqº Manuel Caetano de Sousa. Adquirido em 1823 pelo primeiro conde da Póvoa, Henrique Teixeira de Sampaio, que encarrega a arqº Luigi Chiari de efectuar uma campanha de obras. Dessa fase, resulta o actual aspecto da construção, bem como a capela e a escadaria nobre. Em 1837, por ocasião do casamento de D. Maria de Sousa, irmã do proprietário, com o filho do duque de Palmela, D. Domingos de Sousa Holstein, é despoletada uma nova campanha de obras, centrada na consolidação do andar superior.

Palácio dos Duques de Palmela [c. 1901]
Rua da Escola Politécnica, ao fundo o Largo do Rato, vendo-se a Calçada Bento da Rocha Cabral
Fotógrafo não identificado, in AML

O Pavilhão Escultórico no jardim (foto abaixo), concebido pelo escultor francês A. Calmels, assumiu um papel importante na ambiência artístico-criativa da excelente escultora que foi D. Maria de Sousa Holstein, 3ª duquesa de Palmela

Palácio dos Duques de Palmela [10 de Fevereiro de 1927]
Pavilhão Escultórico no jardim, atingido na sequência da Revolta de Fevereiro de 1927
Fotógrafo não identificado, in AML

A fachada principal, virada a Oeste, compõe-se de um corpo único, onde uma cornija saliente marca a passagem para o último piso. Rasgam-se ao longo desta fachada, janelas de secção rectangular, que ao nível do terceiro e quarto piso (ao centro) são percorridas por varandas com gradeamento em ferro forjado.

Palácio dos Duques de Palmela [10 de Fevereiro de 1927]
Paredes e as árvores caídas na sequência da Revolta de Fevereiro de 1927
Fotógrafo não identificado, in AML

O Palácio sofreu um violento incêndio, em 1981, que destruiu completamente a capela e provocou graves danos no edifício. Os trabalhos de recuperação conseguiram reconstruir o edifício, perdendo-se, no entanto, valiosas obras de arte e muitos dos trabalhos de marcenaria. O edifício e os jardins sofreram danos elevados durante a  Revolta de Fevereiro de 1927, devido ao impacto causado por granadas de artilharia (2ª e 3ª imagem).

Palácio dos Duques de Palmela [c. 1952]
Esculturas alegóricas, aludindo à Força Mental e ao Trabalho
Salvador de Almeida Fernandes, in AML

A ladear a porta principal encontramos duas esculturas alegóricas, aludindo à Força Mental e ao Trabalho, da autoria de A. Calmels, (ainda não existentes em 1901, como comprova a 1ª imagem) sendo o remate da entrada coroado por um frontão curvo com as armas dos duques de Palmela (Sousas do Prado). Actualmente encontra-se aqui instalada a Procuradoria Geral da República.(in DGPC)

Palácio dos Duques de Palmela [c. 1945]
Rua da Escola Politécnica, ao fundo o Largo do Rato, vendo-se a Calçada Bento da Rocha Cabral
Eduardo Portugal, in AML

Friday, 25 December 2015

Hotel Avenida Palace

O Hotel Avenida Palace — o único Palace no centro de Lisboa — foi projectado nos finais do séc. XIX, pelo arq.º José Luís Monteiro, um dos mais distintos arquitectos portugueses, que também projectou a Estação do Rossio (ao fundo). Foram utilizados na sua construção os mais avançados conhecimentos da técnica e os melhores materiais à época.

Hotel Avenida Palace [entre 1906 e 1908]
Praça dos Restauradores
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House


Este simbólico Hotel foi inaugurado em 1892, considerado, sobretudo na Belle Époque, um dos melhores hotéis da Europa pelo seu glamour, localização e serviço.

Hotel Avenida Palace [1895]
Praça dos Restauradores
Augusto Bobobe, in AML


Frequentado por individualidades do mundo das Finanças, da Política, da Igreja e das Artes, assistiu à implantação da República Portuguesa, à Guerra Civil de Espanha e às duas Grandes Guerras, tendo então sido palco activo da intriga política e da espionagem.

Hotel Avenida Palace [1895]
Praça dos Restauradores
Augusto Bobobe, in AML

Rua Garrett - Iluminações de Natal

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854). Iniciador do Romantismo, refundador do teatro português, criador do lirismo moderno, criador da prosa moderna, jornalista, político, legislador, Garrett é um exemplo de aliança inseparável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta. É considerado, por muitos autores, como o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto nos deixou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.

De origem irlandesa, a grafia do seu último apelido «garet» foi por ele próprio alterada na sua assinatura para «garrett» com o objectivo que as pessoas lessem a letra tê para pronunciar correctamente o seu nome como «garrete».

Rua Garrett [1960]
Antiga Rua do Chiado; O topónimo Rua Garrett, no Chiado, foi atribuído no âmbito das Comemorações do tricentenário da morte de Camões em 1880.
Armando Serôdio, in AML

Thursday, 24 December 2015

Avenida da Liberdade: «Natal do Sinaleiro»

O «Natal do Sinaleiro» foi uma iniciativa criada em Portugal pelo ACP antes da II Guerra Mundial. Retomada em 1949, esta acção solidária juntava populações e empresas que reconhecidas pelo papel dos polícias sinaleiros, no trânsito das cidades, lhes ofereciam os mais diversos produtos para festejarem melhor a época natalícia: garrafões de vinho, sacos de batatas, bacalhaus e, até, - como comprovam as fotografias da época - leitões vivos!? Outros tempos.

Avenida da Liberdade [c. 1930]
Natal do Sinaleiro
Ferreira da Cunha, in AML

Avenida Guerra Junqueiro - Iluminações de Natal

Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu em 17 de Setembro de 1850 em Freixo de Espada à Cinta e faleceu em 7 de Julho de 1923, em Lisboa. Licenciou-se em Direito em Coimbra, durante um período que coincidiu com o movimento de agitação ideológica em que eclodiu a Questão Coimbrã. Foi deputado, escritor e poeta. Manteve uma intensa escrita poética, aderiu ao partido Republicano e regressou à política com a implantação da República, tendo sido nomeado Ministro de Portugal em Berna.
A vida rural inspirou-lhe «Os Simples» (1892), a sua simpatia pelos pobres continua em «Os Pobrezinhos», escreveu «A Velhice do Padre Eterno», uma obra de sátira anticlerical e ainda dentro da sátira política «Finis Patriae» (1890). Destaque ainda para «A Morte de D. João» (1874), poema simultaneamente panfletário, satírico e religioso e «Oração à Luz» (1904). [cm-lisboa.pt]

Avenida Guerra Junqueiro [c. 1970]
«Poeta 1850-1923»
Antiga Avenida do Dr. António José de Almeida, antes Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..

Wednesday, 23 December 2015

Praça João do Rio

Este topónimo surgiu na sequência de uma sugestão de 1945 do Vereador Luis Teixeira no sentido de que fosse colocado na esquina de uma das novas artérias da cidade um medalhão consagrando João do Rio.

Praça João do Rio [c. 1953]
Avenida Almiranre Reis

António Passaporte, in AML
 
De seu nome Paulo Barreto (1881-1921) adoptou o pseudónimo de João do Rio.
Cronista, teatrólogo e contista. Notabilizou-se como o primeiro homem de imprensa brasileira que teve o senso de reportagem de crónica social modernas. Sua estreia no jornalismo se deu no jornal Cidade do Rio (1899).

Praça João do Rio [c. 1953]
Avenida Almiranre Reis

António Passaporte, in AML

Fundou o Rio Jornal, A Pátria (1926) e a revista Atlântica (1915), esta última com o escritor português João de Barros. Colaborou também em outros periódicos do Rio de Janeiro, São Paulo e Portugal. Foi fundador e primeiro director da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (1917).

Praça João do Rio, lago [c. 1978]
Avenida Almiranre Reis

Gonçalvese, in AML
 

Ermida do Senhor Jesus dos Navegantes

Segundo Norberto de Araújo - nas suas «Peregrinações» -, o topónimo advém da Ermida do Senhor Jesus dos Navegantes, sendo que.a «Rua dos Navegantes - cujo nome data já desde 1715». Adianta o mesmo autor que «Havia no Convento da Esperança, desde quási o seu comêço, uma Irmandade do Senhor Jesus dos Navegantes e de Nª Sr.ª da Caridade, com capela própria. Sobreveio o Terramoto, e os irmãos, tudo gente do mar, como o eram os da Irmandade de Nª Srª da Esperança, levaram as suas imagens, em grande procissão, para o Campo das Trinas - descampado como a palavra o diz. Só em 1757 se fêz erguer esta pequena Ermida, logo objecto de devoção dos marítimos. 
Á entrada da Ermida, de ambos os lados da porta, vêem-se legendas contando a história da irmandade e a da transferência das imagens para êste sítio.»

Ermida do Senhor Jesus dos Navegantes [194-]
Rua dos Navegantes, 7-9, à Lapa
Eduardo Portugal, in AML

Tuesday, 22 December 2015

Rua do Carmo - Iluminações de Natal

«Espreita-me a Rua Nova do Carmo, a nossos pés, e a pique.
Esta Rua Nova do Carmo - o princípio do «Chiado», que hoje por extensão designativa começa logo à saída do Rossio - é relativamente moderna. Ela não existia até ao Terramoto, nem assenta sôbre qualquer caminho ou traçado de pé pôsto, que houvesse antes de 1755.»
(ARAÚJO,
Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, p. 82)
 
Rua do Carmo [1959]
Antiga Nova do Carmo, Iluminações de Natal
Armando Serôdio, in AML


Biblioteca municipal ao ar livre do Jardim Nuno Álvares no Largo de Santos

Assim denominado em homenagem ao ilustre guerreiro português, o jardim situa-se na Madragoa, um dos bairros típicos de Lisboa. É especialmente frequentado pelos moradores do bairro, que lhe chamam Jardim dos Gatos. No seu interior, entre o arvoredo, encontra-se a estátua do escritor português Ramalho Ortigão. De realçar ainda um exemplar de olaia com mais de 7m de altura, perto do máximo de crescimento da espécie
O topónimo Santos-o-Velho, existente neste Largo e na freguesia, advém do Mosteiro de Santos-o-Velho, onde se encontravam as relíquias de três irmãos Santos Mártires (Veríssimo, Máxima e Júlia). 

Largo de Santos [1949]
Biblioteca municipal ao ar livre do Jardim Nuno Álvares
Mário Novais, in AML
 

Monday, 21 December 2015

Chafariz do Largo do Calvário

Construído em 1852, em calcário branco, tem dois tanques, sendo um utilizado pela população e o outro destinado ao gado.  De desenho muito simplificado e caracterizado pela ausência de decoração, é composto por uma arca de água paralelepipédica, de base quadrada, onde surgem encostadas,a duas faces opostas, uma taça assente sobre um pé e uma bacia semicircular. O único motivo de interesse deste fontanário reside no vaso alto, gomeado, com elementos marinhos, búzios e conchas, que surge a coroar o conjunto. muito semelhante ao existente no chafariz do Largo da Princesa 

Largo do Calvário [c. 1940]
Chafariz do Largo do Calvário e, ao lado esq. o Lactário nº 3
Eduardo Portugal, in AML

Encontra-se actualmente na Travessa Teixeira Júnior, chamado também do Largo da Casca, mas inicialmente estava no Largo do Calvário.
(FLORES, Alexandre M.-Chafarizes de Lisboa, 1999)

Chafariz do Largo do Calvário [194-]
Largo do Calvário
Fernando Martinez Pozal, in AML

Jardim Roque Gameiro

Assim chamado a partir de 1934, e apesar das dimensões reduzidas é possível aqui encontrar alguns exemplares de lódão, jacarandá e tipuana. Nas imediações do jardim existem dois quiosques, um dos quais merece destaque devido à peculiaridade da sua arquitectura - apresenta seis painéis de azulejos Arte Nova, datados de 1915, da autoria de José Pinto. Ao centro do jardim, encontra-se a escultura do «Pescador ao Leme», de Francisco Santos.

Jardim Roque Gameiro, Praça Duque da Terceira [c. 1940]
Estação fluvial 'Parceria dos Vapores Lisbonense' (1889), e estação ferroviária do Cais do Sodré (1928)

Eduardo Portugal. in AML

A escultura «Ao Leme», de Francisco Santos, situa-se ali, no Jardim Roque Gameiro, assim chamado a partir de 1934. Concebida em 1913, foi inaugurada em 1915. Pensou-se inicialmente em colocar ali a estátua de Camões, mas em seu lugar ficou esta obra de Francisco Santos, decisão que foi tomada depois do aterro ter sido concluído até ao local onde o rio corre actualmente.

Jardim Roque Gameiro, Praça Duque da Terceira [entre 130 e 1940]
Ao centro, a Estátua «Ao Leme»

Ferreira da Cunha, in AML

De realçar a boa qualidade figurativa que apresenta a obra, assim como o forte sentido de movimento que o tema exibe: a força física do marinheiro firmada na orientação do leme deixa antever a determinação do homem perante os caprichos do rio, ainda selvagem, cruzado até épocas recentes à força de braços. Ali subjacente está o tema do confronto do homem face ao ímpeto dos elementos, personificados pela inclemência do Tejo. (lisboapatrimoniocultural.pt)

Jardim Roque Gameiro, Praça Duque da Terceira [1945]
Estátua «Ao Leme»

Fernando Martinez Pozal, in AML

Sunday, 20 December 2015

Rua da Beneficência

 (Hospital Curry Cabral)


A homenageada é a 3ª Duquesa de Palmela - e às preocupações beneméritas que sempre teve ao longo da sua vida -, de seu nome Maria Luísa Domingas de Sales de Borja de Assis de Paula de Sousa Holstein (1841-1909) cuja filantropia lhe marcaram um lugar único, nomeadamente, na Assistência Nacional aos Tuberculosos, nos Socorros a Náufragos, em asilos, missões ultramarinas, institutos de protecção à infância e ainda, com sua prima Maria Isabel Saint-Lèger, na fundação das Cozinhas Económicas, de que foi a 1ª presidente. A primeira cozinha foi inaugurada em 1893, na Travessa do Forno (na antiga freguesia dos Prazeres) e surgiram depois as dependências do Regueirão dos Anjos (1894), Alcântara (1895) e de S. Bento (1896).

Maria Luísa Holstein foi também dama da Rainha D. Amélia, dedicou-se à escultura, havendo trabalhos seus no Museu do Chiado e na Sociedade de Geografia de Lisboa, assim como se interessou pela cerâmica e juntamente com a Condessa de Ficalho fundou a Fábrica do Ratinho no seu próprio palácio. Foi distinguida com a Ordem de Santiago, a Ordem de Santa Isabel, a Ordem de Maria Luísa (Espanha) e a Académica de Mérito da Academia Nacional de Belas-Artes. (cm-lisboa.pt)

Rua da Beneficência, antes Largo do Rego à Palma de Cima [1945]
À esquerda a antiga capela do Hospital Curry Cabral, demolida na década de 1950, antigo «Convento das Convertidas de Nossa Senhora do Rosário»; à direita, o Instituto de Reumatologia e a Capela de N. Senhora de Conceição, do Rego. Ao fundo a Avenida de Berna

Judah Benoliel, in AML

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo no sitio onde está actualmente o Hospital Curry Cabral  « assentou o Convento das Convertidas de Nossa Senhora do Rosário, de religiosas franciscanas, fundado depois de 1768 por D. Margarida das Mercês de Maré, dama francesa e mais tarde chamado do Rosário e das Dores (...) Deve-se a D. Maria I a ampliação do Real Recolhimento do Rêgo e a construção da Igreja, da qual aí tens apenas a fachada, cujo pórtico é sobrepujado pelas armas reais da «Piedosa».
Extintas as ordens religiosas e morta a última freira, o Recolhimento conventual na aparência e na missão, esteve muitos anos abandonado. Em 1905 foi transformado (Hintze Ribeiro) em Hospital para doenças infecciosas (tuberculose, principalmente), por diligências do prof. Curry Cabral.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 58-59)

Saturday, 19 December 2015

Feira da Luz

Largo da Luz, Carnide


O topónimo advém do local, o «Sítio da Luz». Teve origem na lenda que diz ter Nossa Senhora aparecido aureolada de luz a Pêro Martins, natural de Carnide, quando este, provável homem de armas, se encontrava aprisionado no Norte de África.

   Ligada à tradicional romaria que se realizava anualmente, em Setembro, no Santuário da Nossa Senhora da Luz, a feira era complemento das festividades religiosas que duravam vários dias, atraindo numerosos forasteiros da capital e arredores. Embora se possa considerar tão antiga como o próprio culto e remonte, certamente, à Idade Média, foi durante os séculos XVI e XVII que começou a adquirir maior projecção.
A romaria da Luz era muito concorrida e chegou a ter participação do Sírio da Senhora do Cabo que já vinha regularmente à pequena ermida do Espírito Santo desde 1437. O culto do Espírito Santo era anterior e foi absorvido pela nova devoção.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [1903]
Fotógrafo não identificado, in AML

Os marítimos, eram devotos da nossa senhora da Luz e, por isso, compareciam sempre várias confrarias com os seus estandartes. Mas, numa área essencialmente rural, os principais devotos eram os trabalhadores rurais de toda a zona norte do termo de Lisboa e até os saloios de Mafra e Sintra. Por isso, as festividades religiosas e a feira que se lhe seguia passaram a realizar-se em Setembro, no final das colheitas de Verão.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [séc. XIX]
Fotógrafo não identificado, in AML

Todos os membros da nobreza em veraneio nas quintas do Lumiar, Benfica, Carnide e muitos vindos propositadamente da capital, bem como membros da casa real participavam ou faziam-se representar. Os reis D. João III e D, João VI e as rainhas D. Catarina e D. Carlota Joaquina, suas mulheres, eram devotos e romeiros fervorosos. No cortejo, a imagem de Nossa Senhora era levada numa berlinda real e acompanhada por dois coches onde seguiam os reis. Esta ligação à corte era antiga, pois já o rei D. Afonso V tinha feito parte da confraria da Luz que cuidava da imagem e do santuário e organizava as festividades. O numeroso cortejo percorria as ruas de Carnide e voltava ao santuário.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [190-]
Paulo Guedes, in AML

No início, a feira surgiu integrada nas festividades religiosas, com barracas de comes e bebes, vendedores de medalhas, registos de santos, rosários e objectos religiosos. Pouco a pouco, foi-se ampliando e surgiram os louceiros, vendedores de fruta, cesteiros e, por último, os negociantes de gado. Chegou a realizar-se uma feira de gado, quinzenalmente, no segundo domingo de cada mês, mas a feira anual era o grande atractivo para os negociantes de cavalos e de gado vacum. Em 1881, por regulamento camarário (Câmara de Belém), a feira passou de três para cinco dias com o mercado de gado de 8 a 11 de Setembro e os restantes produtos nos seguintes.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [1903]
Fotógrafo não identificado, in AML
   
As barracas agrupavam-se no largo da Luz e havia manifestações populares como corridas de bicicletas, jogos e competições desportivas, fantoches e teatro de rua. Os petiscos eram famosos, nomeadamente as farturas. Numerosas famílias aristocratas faziam grandes piqueniques nas quintas e os forasteiros «arranchavam» nos campos, ao longo das estradas da Pontinha e da Correia. Figuras famosas da boémia lisboeta frequentavam a feira da Luz em Carnide, especialmente o conde Vimioso que, segundo a tradição, se fazia acompanhar pela Severa.

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [1903]
Fotógrafo não identificado, in AML

   Os aristocratas deslocavam-se em carruagens próprias e os populares iam de burro ou a pé. Quando se inaugurou o elevador de S. Sebastião da Pedreira em 1899, o percurso mais encurtado, através da estrada da Luz, por Sete Rios. Em 1929, com o estabelecimento da linha de eléctricos que ligava os Restauradores a Carnide, o acesso ficou mais fácil e foi estabelecido um novo calendário, prolongando-se a feira desde o primeiro sábado até ao último domingo de Setembro. (in jf-carnide.pt)

Feira da Luz, Largo da Luz, Carnide [1903]
Fotógrafo não identificado, in AML

Web Analytics